“ OS ESTADOS UNIDOS E A HISTÓRIA
DO VINHO “ - Poucos de nós lembrariam da presença americana na história do
vinho, apesar de saber que eles tem hoje um padrão de qualidade muito bom,
especialmente os californianos. Na libertação do domínio colonial, os
americanos foram apoiados pela França, inimigos dos ingleses, havendo grande
intercâmbio de cultura, e onde o gosto pela enogastronomia ganhou solo fértil.
Entre os americanos apaixonados pelo vinho, temos um personagem único: Thomas
Jefferson.
Jefferson era um homem maior que
suas proporções, com idéias indo além de seu tempo. Um dos arquitetos da
independência, homem de farta cultura, que considerou entre suas maiores
contribuições à história, além da Declaração de Independência e a fundação da
Universidade de Virgínia, a introdução das oliveiras e do arroz na agricultura
da Carolina do Sul. Sua casa em Monticello refletia nos detalhes seu gênero
criativo, e seu jardim botânico foi precursor na introdução de várias espécies
de plantas, que provavelmente cresceram pela primeira vez no Novo Mundo sob os
cuidados dele, num pomar com 170 variedades de frutas e 250 espécies de
vegetais. Monticello era a “casa grande“ de uma fazenda de 5000 acres, que
popularizou progressos e práticas agriculturais, tais como a rotação das
culturas e uso do arado. Além disto havia projetos inusitados, como o vinho
subir da adega para a sala de jantar através de um estratégico elevador.
Ele é descrito como o primeiro
viticultor da América, patrono dos vinhedos norte-americanos, e sua luta se
constituiu num contínuo replantio dos vinhedos, buscando alcançar qualidade,
numa batalha perdida no cultivo das castas que nem sempre foram bem sucedidas.
O sucesso do cultivo nos Estados Unidos da Vitis vinifera, as espécies
clássicas européias seriam impossíveis até que aparecessem os pesticidas para
controle de pragas destrutivas como a phylloxera e podridão negra. As primeiras
mudas vindas do Velho Mundo chegaram em 1619, mas as uvas nativas eram mais
promissoras. A insistência de Jefferson era pelas castas européias, que havia
trazido do período em que foi embaixador americano na corte francesa (1785 a
1789), e que davam um vinho pobre de espírito. A história dos vinhedos de
Monticello sugere a luta do ideal de produzir bons vinhos com uvas francesas, e
depois a possibilidade de adaptarem-se castas alternativas de Vitis labrusca, o
que chamou a atenção dos europeus que vieram observar o manejo dos vinhedos de
Muscat Blanc e Sangiovese.
A praga da phylloxera foi levada em
mudas dos Estados Unidos para a França, onde se desenvolveu com rapidez
espantosa graças ao fato das raízes européias serem mais tenras. Apesar dos
esforços, a doença praticamente dizimou os vinhedos no Velho Mundo, até que os
produtores resolveram testar enxertos de castas viníferas européias em
“cavalos” americanos de raízes duras, que eram menos agredidos pela peste.
Monticello participou do envio de mudas americanas para a Europa.
Seus dois vinhedos foram localizados
no coração sul do pomar, iniciados em 1807 com o plantio de 287 vinhas de 24
espécies européias, constituindo o mais ambicioso projeto de Jefferson. Foram
organizados em 17 terraços estreitos, reservados para espécies recebidas de
três fornecedores, dois deles italianos. Seu enólogo Filippo Mazzei, acreditava
que a Virgínia tinha solo correto e
bom clima para desenvolver as uvas européias. Neste aspecto os vinhedos mais
parecem um experimento, do que a perspectiva real de produzir vinho. Colheita
após colheita os resultados iam de medíocres a médios e Jefferson teve que se
contentar com o fato de não poder produzir um grande vinho que rivalizasse com
os franceses.
Monticello deu ensejo nos últimos 25
anos, à criação do Circuito do Vinho da Virgínia, mostrando o potencial
promissor. Pode-se visitar 64 vinícolas de bom porte, numa jornada que mergulha
na história política e cultural da região. Os nomes dos vinhos e seus
produtores estão integrados aos lugares históricos da Guerra Civil, tais como
Shenandoah Valley, Charlottesvile, Williamsburg e Jamestown. Há vários
festivais, e a alegria de receber os amantes do vinho é sentida em cada taça
degustada.
Há
bons brancos de Chardonnay, Viognier, Riesling e Pinot Gris, tintos frutados de
Merlot, Cabernet Sauvignon e Franc, além de cortes de Bordeaux, e alguns
espumantes estimulantes. Diferente do estilo californiano, onde a potência
parece ser a característica básica dos vinhos, os da Virgínia são mais voltados
para elegância, referenciando Jefferson que dizia em 1808: - “Nós poderemos nos
Estados Unidos produzir uma variedade de vinhos tão grande quanto a que é feita
na Europa, não exatamente do mesmo tipo, mas sem dúvida bons”.
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