segunda-feira, 25 de julho de 2016

OS ESTADOS UNIDOS E A HISTÓRIA DO VINHO

“ OS ESTADOS UNIDOS E A HISTÓRIA DO VINHO “ - Poucos de nós lembrariam da presença americana na história do vinho, apesar de saber que eles tem hoje um padrão de qualidade muito bom, especialmente os californianos. Na libertação do domínio colonial, os americanos foram apoiados pela França, inimigos dos ingleses, havendo grande intercâmbio de cultura, e onde o gosto pela enogastronomia ganhou solo fértil. Entre os americanos apaixonados pelo vinho, temos um personagem único: Thomas Jefferson.
            Jefferson era um homem maior que suas proporções, com idéias indo além de seu tempo. Um dos arquitetos da independência, homem de farta cultura, que considerou entre suas maiores contribuições à história, além da Declaração de Independência e a fundação da Universidade de Virgínia, a introdução das oliveiras e do arroz na agricultura da Carolina do Sul. Sua casa em Monticello refletia nos detalhes seu gênero criativo, e seu jardim botânico foi precursor na introdução de várias espécies de plantas, que provavelmente cresceram pela primeira vez no Novo Mundo sob os cuidados dele, num pomar com 170 variedades de frutas e 250 espécies de vegetais. Monticello era a “casa grande“ de uma fazenda de 5000 acres, que popularizou progressos e práticas agriculturais, tais como a rotação das culturas e uso do arado. Além disto havia projetos inusitados, como o vinho subir da adega para a sala de jantar através de um estratégico elevador.
            Ele é descrito como o primeiro viticultor da América, patrono dos vinhedos norte-americanos, e sua luta se constituiu num contínuo replantio dos vinhedos, buscando alcançar qualidade, numa batalha perdida no cultivo das castas que nem sempre foram bem sucedidas. O sucesso do cultivo nos Estados Unidos da Vitis vinifera, as espécies clássicas européias seriam impossíveis até que aparecessem os pesticidas para controle de pragas destrutivas como a phylloxera e podridão negra. As primeiras mudas vindas do Velho Mundo chegaram em 1619, mas as uvas nativas eram mais promissoras. A insistência de Jefferson era pelas castas européias, que havia trazido do período em que foi embaixador americano na corte francesa (1785 a 1789), e que davam um vinho pobre de espírito. A história dos vinhedos de Monticello sugere a luta do ideal de produzir bons vinhos com uvas francesas, e depois a possibilidade de adaptarem-se castas alternativas de Vitis labrusca, o que chamou a atenção dos europeus que vieram observar o manejo dos vinhedos de Muscat Blanc e Sangiovese.
            A praga da phylloxera foi levada em mudas dos Estados Unidos para a França, onde se desenvolveu com rapidez espantosa graças ao fato das raízes européias serem mais tenras. Apesar dos esforços, a doença praticamente dizimou os vinhedos no Velho Mundo, até que os produtores resolveram testar enxertos de castas viníferas européias em “cavalos” americanos de raízes duras, que eram menos agredidos pela peste. Monticello participou do envio de mudas americanas para a Europa.
            Seus dois vinhedos foram localizados no coração sul do pomar, iniciados em 1807 com o plantio de 287 vinhas de 24 espécies européias, constituindo o mais ambicioso projeto de Jefferson. Foram organizados em 17 terraços estreitos, reservados para espécies recebidas de três fornecedores, dois deles italianos. Seu enólogo Filippo Mazzei, acreditava que a Virgínia  tinha solo correto e bom clima para desenvolver as uvas européias. Neste aspecto os vinhedos mais parecem um experimento, do que a perspectiva real de produzir vinho. Colheita após colheita os resultados iam de medíocres a médios e Jefferson teve que se contentar com o fato de não poder produzir um grande vinho que rivalizasse com os franceses.
Após sua morte, por descuido e por conta das pestes naturais, os vinhedos foram desaparecendo até que em 1985 o vinhedo Nordeste foi restaurado e o Sudeste em 1992, apoiados em espaldeiras desenhadas originalmente por Jefferson. Em 1988 foram produzidas 3000 garrafas de um corte de uvas brancas, e os vinhedos restaurados continuam a servir experimentalmente, crescendo de forma orgânica, sem uso de pesticidas tóxicos.
            Monticello deu ensejo nos últimos 25 anos, à criação do Circuito do Vinho da Virgínia, mostrando o potencial promissor. Pode-se visitar 64 vinícolas de bom porte, numa jornada que mergulha na história política e cultural da região. Os nomes dos vinhos e seus produtores estão integrados aos lugares históricos da Guerra Civil, tais como Shenandoah Valley, Charlottesvile, Williamsburg e Jamestown. Há vários festivais, e a alegria de receber os amantes do vinho é sentida em cada taça degustada.

Há bons brancos de Chardonnay, Viognier, Riesling e Pinot Gris, tintos frutados de Merlot, Cabernet Sauvignon e Franc, além de cortes de Bordeaux, e alguns espumantes estimulantes. Diferente do estilo californiano, onde a potência parece ser a característica básica dos vinhos, os da Virgínia são mais voltados para elegância, referenciando Jefferson que dizia em 1808: - “Nós poderemos nos Estados Unidos produzir uma variedade de vinhos tão grande quanto a que é feita na Europa, não exatamente do mesmo tipo, mas sem dúvida bons”.

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