Recebi o amável convite para almoçar com Domingos Alves de Souza, na Enoteca Decanter, ocasião em que compartilhamos boas taças de vinhos, e aprendi um pouco mais sobre o vinho. Domingos Alves de Sousa tem um simplicidade verdadeira, consciente do valor que tem e ao mesmo tempo discreto, atencioso e generoso nos seus comentários, e desta forma é fácil admira-lo pela seriedade e qualidade dos seus vinhos.
A produção de vinhos é uma tradição familiar para Domingos. Seu pai (Edmundo Alves de Sousa) e avô (Domingos Alves de Sousa) tinham já sido vitivinicultores do Douro.
Ele não iniciou de imediato a sua vida profissional no negócio de família; foi por muito tempo fornecedor de uvas para a Casa Ferreirinha e a Sociedade dos Vinhos Borges, duas tradicionais casas da região. Após a crise que o Douro sofreu na década de 80, Domingos resolveu seguir o próprio caminho como produtor-engarrafador, construindo sua adega na Quinta da Gaivosa e então ali começou a vinificar a produção de suas demais Quintas. Depois de muitas experiências com diversas castas, lançou seu primeiro vinho , o Quinta da Raposa Branco 1991, e desde então vem colecionando elogios e prêmios até hoje.
Assim que assumiu o comando da empresa, não tardou em ampliar o negócio e iniciar-se na área de produção de vinhos e em 1992 lançou o seu primeiro vinho. Neste momento dispõe de mais de 120 ha de vinha, distribuídos por 6 quintas. Os seus vinhos, fruto apenas das suas uvas, já mereceram a atenção de vários críticos e têm obtido excelentes resultados e premiações. A quarta geração já se encontra no terreno. O filho de Domingos é o diretor de produção de vinhos no Douro a partir das uvas das seis quintas da família: Gaivosa, Vale da Raposa, Caldas, Estação, Aveleira e, a mais recente, Oliveirinha.
A Revista de Vinhos de Portugal elegeu Domingos o “Produtor do Ano” em 1999 e novamente em 2006.
Nosso bate-papo começou pela mvisão da safra de 2012, ano muito seco, em que em 4 meses não houve na região uma gota sequer de chuva. Entretanto o solo xistoso tem bolsões que acumulam água e servem de reserva natural para estas longas temporadas. Segundo Domingos, nos patamares do Douro é possível “ver” a umidade refletida nas fachadas de pedra.
Apesar do aquecimento global, não se pode dizer com certeza que isto tem contribuído para a antecipação das colheitas. Curiosamente, há dois anos, a vindima atrasou. O normal são as castas brancas sendo colhidas no início de setembro e as tintas a partir da segunda quinzena.
Começamos degustando um Quinta da Estação Branco 2010, vinho de entrada de gama, que não passa por madeira. Os aromas são frescos, cítricos. Boca com boa acidez, excelente vinho de aperitivo. Feito com castas tradicionais do Douro, com presença de Arinto e Rabigato (que conferem a boa acidez ao vinho).
Neste meio tempo, falamos da crise financeira na Eurpa e seus efeitos e ficamos sabendo que o imposto sobre a uva passou de 12 para 23%. Portanto, aumento de preços nos vinho será algo que sentiremos em breve.
Em seguida provamos o Vale da Raposa 2007 – feito a partir da Touriga Nacional, sob a forma de um rosé seco. A tendência de consumo recomendado de 2 a 3 anos mostrou-nos uma surpresa, pois o vinho já tem 5 anos e encontra-se em grande forma.
Terceiro vinho provado no encontro foi o Caldas Reserva Douro 2005 – também feito a partir de Touriga nacional, com Sousão, Tinta Roriz, Tinta Barroca. As novas versões serão 100% Touriga nacional. Um bom tinto que acompanhou de forma harmônica o risoto de cordeiro. Seguiu-se o Touriga Nacional Vale da Raposa 2007 – um vinho no qual não se sente os 15,5% de teor alcoólico! Muita fruta escura madura, com toque de madeira bem integrado. Na boca mostrou-se longo e com retro-gosto excelente.
O Quinta da Gaivosa 2005 mostrou-se gostoso e elegante na taça, mas pede mais tempo de guarda. Para finalizar, provamos o Porto LBV 1999, que fez companhia para um tiramisu. O vinho fundiu-se muito bem com a sobremesa, numa interminável sensação que misturava chocolate, fruta madura em compota, acidez. Tudo de bom num belo vinho e excelente almoço.
Como tenho grande interesse por vinhas velhas, perguntei sobre o Abandonado – feito a partir de um vinhedo com mais de 80 anos, que ficou alguns anos abandonado e cheio de falhas, daí o nome. São diversas castas misturadas. A zona é de intensa exposição, com uma enorme quantidade de xisto na superfície, onde nenhuma erva sobrevive. Domingos tentou replantar as videiras desaparecidas e depois de inúmeras tentativas desistiu, pois somente cepas muito velhas eram capazes de agüentar condições tão extremas. Em 2004 resolveu-se isolar o terreno e, ao engarrafá-lo tiveram uma enorme surpresa, pois a qualidade era incrível. A produção do Abandonado é uma homenagem às raríssimas vinhas velhas do Douro, criando um vinho 100% português, de personalidade bem marcada, feito com o menor número de intervenções possíveis e que estagia em carvalho português.
O mais surpreendente foi saber que em Portugal, as vinhas entre 25 a 30 anos são consideradas jovens! Um grande almoço, belos vinhos e a oportunidade de almoçar com uma verdadeira lenda quando se fala em produtor de vinho: “Seu” Domingos Alves de Sousa.