“A MÁGICA DOS AROMAS DO VINHO“ – O uso dos aromas e
perfumes é fundamental nas sociedades, tanto nas sociedades primitivas, quanto
nas sociedades modernas e sofisticadas....Se um bom aroma era fundamental para
separar o que era comível do que era veneno, os aromas denotam também o que
está limpo do que está contaminado.
Da mesma forma que as
pessoas podem desenvolver um senso estético para apreciar e avaliar uma bela
pintura ou uma bela escultura, uma música agradável, uma boa comida, é possível
adquirir um conhecimento mais profundo do papel desempenhado pelo sentido do
olfato. O vinho, sem os seus aromas, sejam eles de aspiração direta ou de
retrogosto, simplesmente deixaria de ter qualquer interesse. O importante, ao
degustar uma taça de vinho, não é apenas fazer uma análise, ou uma
classificação ou uma quantificação quanto aos aromas, mas encontrar o prazer
existente em cada essência aromática encontrada. A verdade é que isto é
fundamental para uma pessoa escolher um vinho entre milhões de rótulos, como o
seu preferido.
Muitos amantes do
vinho se perguntam sobre certos aromas do vinho e suas origens, tais como os de
framboesa, banana, baunilha e caramelo. Branco, tinto ou rosado, o vinho é
certamente a bebida alcoólica que mais se destaca pela fineza e complexidade de
seus aromas. Provenientes da uva, da fermentação ou da guarda, eles refletem na
mucosa olfativa do degustador a presença de centenas de componentes odoríferos
que a bebida armazena, em quantidades ínfimas. Alguns deles são mais freqüentes
ou mais pronunciados e cercam-se de curiosidades quanto a sua origem.
♦ Aroma de framboesa, o
mais frequente nos tintos
A framboeseira é um
arbusto da família das rosáceas que surge em estado silvestre nas matas do
hemisfério norte, sendo rara no Brasil. O fruto vermelho, escuro e corrugado é
rico em pectinas, próprio, portanto, para geléias. Não sendo uma fruta comum
entre nós, reconhecemos seu aroma a partir das geléias ou licores produzidos a
partir dela. O aroma de framboesa no vinho, perceptível em grande número de
tintos, deve-se à presença da frambinona - nome comum da fenilbutanona -
substância com odor de framboesa que se forma durante a fermentação.
O aroma de framboesa
é o mais freqüente nos tintos. Se você não se deu conta disso, sugiro
procurá-lo em sua próxima degustação de Cabernet, Syrah, Nebbiolo e
Tempranillo, originários do Velho Mundo ou de Malbec, Tannat, Carmenère e
Zinfandel do Novo Mundo. Faça isso após provar a geléia da frutinha para
memorizar seu gosto.
♦ O Beaujolais Nouveau
e o aroma de banana
Uvas colhidas em
setembro, vinificação em outubro, engarrafamento no início de novembro. E
pronto, na segunda quinzena de novembro, "le Beaujolais Nouveau est
arrivé". O que há de especial em sua elaboração que resulta no aroma de
banana, cuja intensidade varia ano a ano?
Na vinificação do
Beaujolais acomodam- se bagos inteiros de uvas Gamay em cubas fechadas, sob
pressão. Nessas condições, as enzimas da polpa são ativadas, verificando-se no
interior do bago uma tímida transformação de açúcar em álcool, com formação
interna de gás carbônico.
A fermentação
intracelular cessa naturalmente após uns dez dias e inicia-se o processo de
elaboração do Beaujolais, conhecido como maceração carbônica. Diminui-se o teor
de ácido málico e formam-se álcool, glicerina e outros componentes. Entre eles,
o acetato de isoamila com seu cheiro de banana amassada. E o aroma de banana
estará no Nouveau, mais ou menos intenso, dependendo da concentração de acetato
de isoamila naquele ano, para cada produtor.
♦ Baunilha versus
Caramelo
Esses dois odores
agradáveis desenvolvem-se nos tintos e brancos a partir da mesma substância, a
vanilina da madeira, sendo, portanto, aromas de vinhos fermentados em tonéis ou
amadurecidos em barricas.
A baunilha é nítida
nos brancos que passaram por carvalho, como os da Chardonnay, particularmente
nos da Califórnia, do Chile e da Austrália, ou ainda nos tintos de corte
bordalês ou nos Reserva e Gran Reserva da Rioja. Quimicamente falando, o que se
percebe é a nuance menos intensa, porém mais suave e refinada, do vanilato de
etila, resultante da esterificação da vanilina. A vinificação especial dos
vinhos doces naturais - Banyuls, Maury, moscatéis de Setúbal e Pantelleria etc.
- lhes comunica um odor caramelado.
Não é muito fácil
decidir-se entre os aromas de baunilha e caramelo. Como esse último nada mais é
que açúcar queimado, sugiro que se procure um toque tostado. Com tostado é caramelo,
sem tostado é baunilha.
Baseado no livro "110 Curiosidades do mundo dos
Vinho", de Euclides Penedo Borges, Editora Mauad/Rio.

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