domingo, 31 de março de 2013

“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “QUEM É REI NÃO PERDEU A MAJESTADE “ –


“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “QUEM É REI NÃO PERDEU A MAJESTADE “ – Começo o artigo de hoje relembrando e me atrevendo a adaptar um comum e recorrente dito popular: quem é rei não perdeu a majestade. Vou adiante, caro leitor, perguntando-lhe o que há de comum entre o neorrealismo onírico de Fellini, a literatura rica, brasileiríssima e peculiar de Guimarães Rosa, a poesia heterônima e cativante de Fernando Pessoa, a música inovadora e elegante de João Gilberto e Tom Jobim, o talento e perfeição do mestre Auguste Escoffier, o néctar sagrado contido numa garrafa de um Romanée Conti e o nosso querido Vecchio Sogno? Respondo: em todos os casos se tratam de clássicos de comprovada competência em seu ramo de atuação e que, de uma forma ou de outra, geraram frutos atemporais e, por isso, jamais (espero) se tornarão obsoletos ou temas clichês.
            Em mais uma visita ao Vecchio Sogno, fui tocado por algo de poesia e também pelos sabores, texturas e aromas provados e sentidos por lá. Vez ou outra há sempre alguém para criticar o trabalho e a casa de Ivo Faria, porém, desde que foi aberto – em 1995 – o restaurante vem acumulando dezenas de prêmios Brasil afora, bem como, em minha opinião, reina absoluto no posto de melhor mesa de Minas Gerais. Localizado dentro da Assembleia Legislativa do Estado, podemos dizer que o Vecchio Sogno tem em sua ambientação/decoração um ar aristocrático, conservador e elegante. Desta maneira, num primeiro momento, o ambiente pode intimidar os mais despojados e informais, porém, em linhas gerais, o lugar é muito confortável, bonito e aconchegante.  O uso de madeira mesclada com as cores branca e vermelha dá um tom refinado aos salões. Complementando o cenário, é bastante comum termos ao vivo músicas sendo tocadas no lindíssimo piano de cauda exposto em frente ao bar.
            Ao contrário do que ocorre na maioria das casas ditas de alta gastronomia da cidade, não há sinais de “super atenção” no atendimento. Toda brigada demonstrou domínio sobre os itens do cardápio, bem como, eficiência e discrição. O famigerado esnobismo, que vez ou outra encontramos em Lourdes, passou longe da casa de Ivo Faria em todas as vezes que lá estive.
            No cardápio, o que não faltam são pratos típicos da culinária Italiana. De qualquer maneira, a orientação clássica da cozinha da bota não impede que Ivo Faria e sua equipe lancem mão, de maneira competentíssima, de ingredientes, modos de preparos e de receitas da culinária brasileira e mineira. Ouso dizer que, em terras mineiras, ali se faz a melhor fusão entre vertentes gastronômicas. O melhor desta mistura pode ser provado optando-se pelo menu degustação de 4 pratos (R$ 116,00), e foi o que fiz.
Como entrada, o camarão estufado com palmito pupunha e cuscuz marroquino ao molho de pitanga e dourado estava divino, todos os ingredientes com cocção e temperos perfeitos, a textura do pupunha e do cuscuz complementaram com extremo bom gosto o prato. Os andares de salmão com recheio de tomate e champignon, purê de inhame, manteiga queimada, molho de abobrinha e azeitonas pretas estavam corretíssimos, sendo que o inhame roubou a cena com seu sabor e textura exuberantes.
Um pouco abaixo do que já tinha sido provado, o lombo de cordeiro recheado com parma e muçarela de búfala, risoto de castanhas portuguesas  e molho de uva moscatel se mostrou um pouco pesado e salgado. O uso do presunto poderia, certamente, ser descartado. De outro lado, o saborosíssimo risoto e o molho agridoce deram um toque refinado e delicioso ao prato.
Fechando o jantar, o correto figo ao forno com recheio de caramelo e sorvete (Easy Ice) três sabores (goiaba, queijo e creme) passou tímido. Ao excelente menu degustação, faltou um “Gran Finale”. Apesar de não comprometer, a sobremesa não demonstrou personalidade, sendo que a fruta passou despercebida ao lado dos bons sorvetes, que também não chamaram a atenção. À parte do menu, vale à pena provar a sensacional polenta trufada ao forno com ovo e molho de 3 funghis (R$ 38,00), e o tradicional ossobuco de vitela com risoto parmigiano (R$ 68,00). Aqui ressalto como é bom ver ovo num prato. Infelizmente, os chefs brasileiros, de maneira geral, não exploram todo potencial que este ingrediente pode dar a um prato. Ponto a Ivo faria que o fez com grande competência.
            Apesar de bastante premiada, não vi algo de muito criativo na Carta de Vinhos, achei diminuta a oferta de rótulos por taça.  Entretanto, destaque deve ser dado aos muito bem servidos copos de espumante, diferentemente do que se vê na maioria das casas, onde a taça é preenchida, no máximo, pela metade, no Vecchio foram servidas quase transbordando.  No geral, há os nomes mais comuns dos catálogos de Mistral, Decanter e Grand Cru. Apesar de termos um consumo per capto, ainda muito tímido no Brasil, um restaurante como o Vecchio Sogno merece uma seleção mais criativa e que privilegie, de maneira consistente, os produtores nacionais e seus excelentes espumantes – não me canso de bater nesta tecla. Nota-se também, que a casa pratica uma margem de lucro maior do que um enófilo acharia atraente, inibindo o consumo de rótulos de maior expressão. No quesito serviço de vinhos, tanto copos como o serviço do sommelier agradaram bastante.
            Ao final de um ótimo jantar, assim como ao término de um grande filme, livro ou concerto, fica claro que estivemos diante de clássicos, que, à parte de modismos passageiros, mantêm sua assinatura, personalidade e estilos, intactos.  Não só em razão da impressionante regularidade técnica demonstrada ao longo dos mais de 15 anos de existência, como também, pela criatividade do cardápio, pelo eficiente e cortês atendimento, e pelo ambiente extremamente refinado e de bom gosto, tenho total tranquilidade em dizer que, sem sombra de dúvidas, o Vecchio Sogno de Ivo Faria continua a ser o melhor restaurante de Minas Gerais, sendo justificadamente e merecidamente um “hors concours” nas premiações gastronômicas existentes em Minas Gerais. Salute e buon appetito nel Vecchio Sogno Ristorante!
Avaliação: (**)
• Atendimento: 14,20 / 15,00
• Apresentação e Estrutura da casa: 12,95 / 15,00
• Comida: 38,45 / 40,00
• Cartas (cardápio e vinhos/bebidas): 11,90 / 13,00 e 4,00 / 7,00
• Proposta/execução/criatividade: 9,0 / 10,00
Total: 90,50
*** (extraordinário)- entre 96 e 100 pontos;
**+ (extraordinário) - igual a 95 pontos;
** (excelente) - entre 90 e 94 pontos;
*+ (excelente) - igual a 89 pontos;
* (muito bom) - entre 84 e 88 pontos;

SERVIÇO: Vecchio Sogno Ristorante - Rua Martim de Carvalho, 75 – Santo Agostinho I Tel.: (31) 3292-5251. Horário de funcionamento: Segunda a quinta – das 11hs às 00h30min; sextas – das 11hs às 2hs; sábados – das 18hs às 02hs e domingos – das 12hs às 18hs. Aceita todos os cartões de crédito.
Contatos: Gourmet à Solta por Felipe Victoria  - felipebrg@hotmail.com

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