domingo, 17 de março de 2013

GASTRONOMIA EM BH “GOURMET Á SOLTA” por Felipe Victoria – “ALTOS E BAIXOS NO PROMISSOR TRINDADE”


GASTRONOMIA EM BH “GOURMET Á SOLTA” por Felipe Victoria – “ALTOS E BAIXOS NO PROMISSOR TRINDADE” - O Bistrô Trindade vem, desde meados de 2012, passando por diversas mudanças, posso assegurar que estas reformulações fizeram muito bem tanto à proposta do lugar quando à sua ambientação.
O Restaurante, originalmente inaugurado por Fred Trindade e pelo restauranteur Marco Malzone, foi pensado tendo como foco a modernização e revisitação da culinária mineira e, neste propósito obtiveram êxito. Porém, em fins de 2012, Marco saiu da sociedade, assumindo em seu lugar o talentosíssimo Felipe Rameh, que acabara de deixar o restaurante O Dádiva. A mudança, indubitavelmente, deu uma injeção de ânimo e criatividade à casa, além de um reposicionamento de proposta  bastante interessante e oportuno.
            Se antes o foco era a culinária mineira, Rameh quis abrir o leque de abrangência de sua cozinha e implantou tanto no cardápio quanto na filosofia do restaurante o que podemos chamar de uma cozinha luso-caipira. Bem aos moldes do Ítalo-caipira que Jefferson Rueda, com grande competência, trabalha no seu elogiadíssimo Áttimo. Portanto, hoje a casa apresenta um cardápio dividido em 4 partes distintas, a saber: clássicos com filé, tradição brasileira, herança portuguesa e clássicos.

            Incrustado no coração do bairro de Lourdes, o Trindade tem uma ambientação muito agradável, sóbria e elegante. Fica nítida a preocupação que se teve ali em ressaltar algumas dualidades, como por exemplo; rústico/moderno; clássico/contemporâneo e caipira/urbano. Posso dizer que este trabalho de paradoxos foi feito com muito bom gosto e criatividade. Criatividade esta que está presente no interessantíssimo uniforme dos garçons que mescla a calça com barras acima dos tornozelos, mineiramente chamada de “pega frango”, típica de personagens do interior de minas, com a camisa branca, traje clássico na maioria dos restaurantes do mundo.
            Ao se pensar no atendimento do lugar, fica nítido que passam por diversas mudanças/reformulações e que contam com uma brigada de atendimento nova. Portanto, por diversas vezes o serviço se mostrou desastrado, confuso, lento e com traços de super atenção. Longe de ser esnobe ou incompetente, o que se vê ali é que a equipe carece de um maior entrosamento, de mais treino e de uma liderança mais atuante.
            De todas as mudanças por que vem passando o Trindade, certamente a maior diz respeito ao cardápio. Não faltam pratos interessantes e criativos, mesmo que não sejam feitos ainda com perfeição, há ótimas opções em todas as etapas da refeição. Os dadinhos de tapioca com melado e alecrim – provavelmente de influência do Mocotó de Rodrigo Oliveira – são deliciosos, crocantes e de muita personalidade. Extremamente saborosas, sequinhas e equilibradas são as tulipinhas de frango – que se assemelham a um carré de cordeiro - com mel e mostarda, prato este, que Felipe Rameh levou ao Madrid Fusión. Se por um lado as entradas foram irretocáveis, não se pode dizer o mesmo dos pratos principais. O porquinho prensado com legumes orgânicos, mexerica e mostarda estava gostoso e com ponto de cocção perfeito, porém, lhe faltou um acompanhamento de mais personalidade. O mesmo pode ser dito da carne de sereno, servida com mandioca e queijo coalho. Apesar de a carne estar deliciosa, macia e com textura perfeita, lhe faltou algo como companhia, um molho cairia muito bem como elemento agregador entre proteína e carboidrato. Já o arroz de pato decepcionou, mesmo sem estar ruim, era nítido o excesso de canela. O epílogo do jantar se mostrou um tom acima dos principais, porém, ainda abaixo das entradas. O pudim de leite, cremosíssimo, homogêneo, macio e extremamente saboroso, foi o ponto alto dentre as sobremesas, já o bom petit gateau de chocolate com cupuaçu e sorvete, careceu de um pouco mais da acidez proporcionada pela fruta que faria um oportuno e perfeito contraponto com a doçura um pouco excessiva do bolo de chocolate.
            Não posso dizer que a carta de vinhos teve o mesmo êxito que os demais quesitos aqui citados, ao contrário, causou-me enorme decepção. É realmente o grande e maior deslize da casa. Composta por não mais que 15 rótulos, não há opções interessantes e muito menos criativas. Infelizmente não existe na carta um trabalho de adequação/harmonização de rótulos com os pratos oferecidos. O predomínio de sulamericanos, leia-se, Argentina e Chile, deixa claro que a montagem e seleção das opções é extremamente ineficiente. Diante de tanta influência da culinária lusa, não seria interessante, ou até mesmo obrigatória, a oferta de alguns ótimos portugueses? Bairradas seriam sensacionais com alguns pratos! Bons nacionais, também não vi. Talvez por encontrarem muitos entraves na logística do produto, ou até mesmo por preconceito, tanto de clientes quanto de sommeliers, os restaurantes brasileiros passam longe de privilegiarem a produção nacional e seus excelentes espumantes.
            Em linhas gerais, a impressão que fica, é que o ingresso de Felipe Rameh na sociedade e na equipe fizeram muito bem ao Trindade. Mesmo apresentando alguns deslizes, não se pode esquecer que se trata de um estabelecimento ainda em montagem e maturação. De qualquer forma, é evidente e cristalino que a dupla que comanda a casa não está acomodada e que trabalharão duro para resolver problemas pontuais. Vê-se ali muita criatividade, motivação e, acima de tudo, vontade de fazer algo genuíno e autêntico. Por isso não tenho dúvidas de que apesar de hoje não ser um dos melhores restaurantes da capital, o Trindade em breve o será.
AVALIAÇÃO:
•           Atendimento: 10,40 / 15,00
•           Apresentação e Estrutura da casa: 12,50 / 15,00
•           Comida: 36,90 / 40,00
•           Cartas (cardápio e vinhos/bebidas): 12,80 / 20,00
•           Proposta/execução/criatividade: 7,80 / 10,00
Total: 80,40
LEGENDA:
*** (extraordinário)- entre 96 e 100 pontos;
**+ (extraordinário) - igual a 95 pontos;
** (excelente) - entre 90 e 94 pontos;
*+ (excelente) - igual a 89 pontos;
* (muito bom) - entre 84 e 88 pontos;

SERVIÇO: Trindade Bar e Restaurante
Rua Alvarenga Peixoto, 388 – Lourdes / Telefone: (31) 2512-4479
Horário de funcionamento: Sexta, Sábado e Domingo - 12hs às 17hs; Terça a Sábado - 18hs à 01h. Aceita todos os cartões de crédito.
Contatos: Gourmet à Solta por Felipe Victoria  - felipebrg@hotmail.com

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