domingo, 20 de março de 2016

O VINHO DA SANTA CEIA E COELHOS ....

“ O VINHO DA SANTA CEIA E COELHOS ...“ Ano a ano vão entando novos leitores que acompanham o VINOTICIAS enesta época o costume é perguntar sobre o VINHO DA ÚLTIMA CEIA. Os judeus produziam vinho desde os tempos pré-Bíblicos. Chegaram, na Antiguidade, a exportar vinho para o Egito e várias cidades do Império Romano. Quando os muçulmanos conquistaram a Palestina em 636 da era cristã, impuseram uma proibição ao vinho (e ao álcool em geral) por 1.200 anos. A produção só recomeçou em 1870.
Atendendo a pedidos, pesquisei como teria sido a SANTA CEIA, registrada no Novo Testamento por São Marcos e São Mateus, sem citar o que foi comido, ou que vinho foi bebido. Essa refeição celebrava o Pessach, a Páscoa Judaica, a festa do pão sem levedo, palavra que em hebreu significa proteção, "passagem", "passar sobre" e deriva de instruções dadas a Moisés ao faraó Ramsés III, há 3.000 anos.
Moisés falou ao faraó que se não libertasse os judeus, os primogênitos no Egito seriam mortos. Para se proteger, os israelitas foram instruídos a marcar suas casas com sangue de cordeiro. Assim suas casas seriam identificadas e o problema "passaria sobre" elas.
A Páscoa cristã deriva da judaica. Nelas, o vinho e o pão são fortes símbolos, com sentidos diferentes. No cristão, o corpo e o sangue de Cristo, representados pelo pão e pelo vinho, remetem à salvação do espírito e à vida eterna. No judaico, o pão sem levedo, o matzo, é servido para lembrar a pressa com que os hebreus tiveram que preparar o seu êxodo do Egito. E quatro taças de vinho são obrigatoriamente bebidas, cada uma simbolizando uma ação relativa à redenção do povo de Israel, em períodos distintos da ceia do Pessach. E a cada taça é feita uma benção, o "kiddush", "santificação". Uma quinta taça é deixada sobre a mesa para ser bebida pelo profeta Elias (Elijah). Dizem que ele vai de porta em porta anunciando a vinda do messias judaico. Estima-se que existam cerca de 13 milhões de judeus em todo o mundo. Assim, faz sentido pensar que o profeta, acabada a noite de Páscoa, vai dormir alegre e profundamente até o próximo ano. Para um rabino citado por Hugh Johnson, o vinho "ajuda a abrir o coração ao raciocínio". O objetivo, portanto, não é a inspiração, nem a embriaguez!
A comemoração da Páscoa é uma data móvel, referência para outras festas, como o Carnaval. A regra anual é festejá-la no domingo que segue a primeira lua cheia do outono - ou primavera no hemisfério norte. E assim acontece desde o ano de 325. A decisão foi tomada pela Igreja Católica Romana, e causou discussão, pois coincidia com festas pagãs que celebravam o início da primavera em alguns povoados europeus. Os deuses celebrados eram Ostera e Esther – daí o termo Easter (Páscoa em inglês).
A "democracia religiosa" é tanta, que nenhuma outra data mundial é comemorada por tantas crenças diferentes. Para a comunidade judaica a festa Pessach ou Passover tem a duração de oito dias. Durante séculos a principal comemoração católica foi a Páscoa - e não o Natal como hoje. A maior diferença entre as datas é a seqüência de fatos que as envolve. A Páscoa inclui momentos como o Domingo de Ramos, a Santa Ceia, Lavagem dos Pés, Morte e Ressurreição - em um ritual que permanece por uma semana.
Na Páscoa Cristã, São Tomás de Aquino, o grande filósofo do século 13, explica o sentido do vinho: ela só pode celebrar-se "com vinho da videira, pois essa é à vontade de Cristo Jesus, que escolheu o vinho quando ordenou tal sacramento [...] e também porque o vinho da uva constitui de certo modo uma imagem do efeito do sacramento. Refiro-me à alegria espiritual do homem, pois está escrito que o vinho alegra o coração do homem".
Os cristãos de Corinto, “das cidades gregas a menos grega e das colônias romanas a menos romana”, associaram a Santa Ceia como uma refeição tomada em grupo. Cada família providenciava o seu próprio alimento. Os mais abastados levavam comida sofisticada e em maior quantidade. Os mais pobres levavam comida simples e em menor quantidade. Os pratos dos ricos não eram misturados com os pratos dos pobres. Os mais gulosos começavam a comer antes dos outros e ficavam empanturrados e outros, com fome. Alguns bebiam além da medida e ficavam bêbados. Tudo mostra a grande hipocrisia destes cristãos e a Santa Ceia, virando uma profanação.
Diante de tão grande irreverência, São Paulo registrou em sua primeira carta, escrita lá pelo ano 55: “As reuniões de vocês mais fazem mal do que bem”. A cerimônia da qual participavam de forma alguma poderia ser chamada de Ceia do Senhor, tendo se transformado em comes e bebes. Uma ceia “indigna”, uma vez que ela estava comprometida com glutonaria, bebedeiras e discriminação (1 Co 11.17-34).
Mas e o vinho da Santa Ceia ? Talvez porque o vinho naquela época estivesse intimamente ligado à alimentação e fosse corrente que todos o apreciassem. Há dois momentos nas Escrituras que me fazem supor isto: nas Bodas de Canaã, Jesus primeiro transforma água em vinho. Segundo, por que Seu vinho foi servido em último lugar, chamando a atenção dos presentes para o fato do “melhor vinho ser servido por último”. Dois ensinamentos preciosos, pois dá ao vinho um lugar diferenciado na mesa, e ensina a perfeita harmonia no serviço do vinho, que recomenda que os melhores, mais velhos e complexos sejam servidos por último.
Até o século II a.C. os recipientes de vinho encontrados ao longo dos itinerários comerciais na Europa são na sua maioria, gregos ou campanianos. Só cerca de 150 da nossa Era, é que a viticultura romana emerge da sua obscuridade, sem contudo, empalidecer a fama dos vinhos gregos. Estrabão afirma que os Romanos tinham seu melhor vinho na Campânia – o Falerno, criado nas encostas do monte Massicus, que constitui o mais notável vinho latino.
Plínio considerava mais famosos os vinhos de Sorrento, acreditando que o Falerno melhorava quando a ele se adicionava um pouco de vinho de Quios, mel e água. Tibério afirma que um vinho de Sorrento com mais de 25 anos era “um nobre vinagre”, o que faz parecer normal que se bebessem vinhos com 10 e 20 anos!. Nas mesas dos abastados aparecia vinho com mais de um século.
Qual sabor teriam?  Ainda que Roma produzisse vinho, as mesas dos ricos eram alimentadas com vinhos gregos: Pramio, Ismaros (tinto doce) e os das ilhas de Quios, Nassos, Tasos, Lésbios, Rodes e Chipre. Plínio escreveu 37 volumes de sua obra Naturalia Historia (cujos livros de 12 a 19 tratam da botânica) tendo consultado cerca de 2000 volumes de autores gregos e latinos. Também famoso é o tratado De Re Rústica, de Columela, escrito na primeira metade do século I.
É surpreendente que os escritores latinos confirmaram a ciência que já era conhecida há séculos, com termos como “apertus Bacchus amat colles” de Virgílio ou “campestra largius vinum, sed jucundis afferunt collina”, o que significa que as planícies produzem mais vinhos, mas o melhor é o das colinas!. Columela já referenciava o cuidado com a produtividade dos vinhedos e preparação dos terrenos, eliminando resíduos de outras lavouras e preocupação com a drenagem, e os excessos de umidade.
Quanto à densidade de plantio, Columela aconselhava em terrenos férteis 2336 pés/hectare e nos pobres 4629 pés/ha. Segundo Columela, o espaçamento entre plantas era de 7 pés(2,07m) nos solos ricos, enquanto Plínio indicava que o compasso seria de 4 pés(1,18m) nos solos ricos e de 5(1,47 m) nos solos pobres. Os inconvenientes da multiplicação das plantas por semente já eram conhecidos, sendo assinados por Teofrasto e Virgílio. Plínio recomendava a enxertia para melhorar a qualidade das plantas (por estacas ou mergulhia). Catão aconselhava a permanência da planta jovem no viveiro durante 3 anos, e sua transplantação no Outono ou na Primavera, com tempo úmido e calmo.

Saber podar a vinha era para os Romanos, a característica mais apreciada num vinicultor, como técnica capaz de imprimir dignidade aos vinhos. As formas de condução variavam entre livre ou a tutorada, com latadas baixas, formando um caramanchão. As castas não guardam semelhança às atuais, a de maior prestígio era a aminea, da qual era feito o Falerno. A casta apiana (de apes, abelha) era provavelmente uma moscatel. A colheita era feita em agosto, setembro e outubro conforme as localidades, havendo uma seleção dos cachos. Com as piores uvas eram feitos vinhos para escravos e trabalhadores.

A pisa era feita na própria vinha, numa laje plana, com uma inclinação que levasse o mosto por gravidade para uma fossa, donde era recolhido para recipientes. A prensagem já era difundida, sendo uma operação bastante demorada e cuidadosa. O vinho de primeira pressão, dito “de lágrima” era adicionado de mel e consistia num belo aperitivo. A fermentação se fazia em recipientes (dolia) enterrados ¾ no solo, e por vezes descobertos. Já se sabia o quanto o calor era inconveniente, quer para a fermentação, quer para a conservação do vinho. Era comum usar-se fumo de cozinha como elemento de conservação e envelhecimento do vinho.
Os Romanos, como os Egípcios, costumavam concentrar o mosto mediante a cozedura a fogo direto, para depois usarem como corretivo, aumentando o teor sacarino de mostos fracos, para favorecer a conservação de vinhos frágeis e mesmo mascarar sabores desagradáveis. O vinho comum - vinum de cupa - permanecia nos recipientes de fermentação até seu consumo. Era no geral ordinário e, por isso, designado algumas vezes de vinum de crucis, pois bebê-lo equivalia quase que a uma crucificação... Os vinhos a envelhecer eram trasfegados na Primavera, quando estava frio e o vinho já havia se “limpado”, sendo a ânfora o recipiente clássico para envelhecimento do vinho de luxo.
Os vinhos eram geralmente turvos, necessitando filtrá-los antes de serem servidos. À mesa, os Romanos usavam um coador e refrescavam o vinho com gelo e neve que os escravos traziam das montanhas. Na filtração era usado o leite de cabra, a clara do ovo e argila. A baga da murta servia para intensificar a cor do vinho.
Apesar dos elogios de cronistas da época, ficam fortes dúvidas em relação a aceitação dos vinhos pelo gosto atual dos consumidores. Sabe-se que os vinhos eram diluídos em água, o que não parece ser a melhor maneira de realçar suas qualidades. A diluição era feita na razão de ½, ou ¼ ao mesmo a 1/7. Eram vinhos muito fortes, caso contrário não suportariam tais diluições, densos e excessivamente alcoólicos. O escritor inglês Warner Allen considera o vinho do Porto o único vinho à altura da Antiguidade, fosse o Saprias (apreciado pelos Gregos), fosse o Falerno, que Galeno recomendava para o imperador Marco Aurélio!
Portanto, quem quiser se sentir bebendo um vinho à altura da época de Jesus pode encontrar no Vinho do Porto uma boa idéia dos produtos correntes. De qualquer forma, se não harmonizar com o prato servido no dia, não fará feio com o chocolate !

Coelho e Chocolate: A imagem do coelho tem influência anglo-saxônica e representa a fertilidade. Essa característica era associada ao animal desde o antigo Egito, pela rapidez de sua reprodução. A Igreja aplica-a no sentido da multiplicação de fiéis. Registros indicam a região francesa da Alsácia como uma das primeiras a integrar o coelhinho nas comemorações de Páscoa, em 1215.
A tradição de decorar ovos provém dos povos egípcios e persas, sempre com o significado de nascimento. A Igreja adotou como símbolo da Páscoa no século 18, mas a função era unicamente decorativa. Os Maias, e posteriormente os Astecas acreditavam que o cacau era o alimento dos deuses. Por isso, talvez o cacau e o chocolate sejam míticos até hoje...". e explique porquê chocolate e vinho despertam tantas paixões. Sendo um alimento dos deuses, não foi difícil associar uma imagem á outra.

Desejo que vocês tenham na Santa Ceia um ato de profunda reflexão pela Paz, com vinhos na medida certa. Feliz Páscoa!

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