segunda-feira, 7 de março de 2016

“ MOUTON, UM MITO DE BORDEAUX “ –  O Chateau Mouton Rothschild é um dos ícones de Bordeaux. Um Premier Grand Cru Classé, a melhor classificação possível desta região francesa, sinônimo de grandes vinhos, só conquistada em 1973, na única modificação da listagem original feita em 1855. A partir daí ficou ao lado de um seleto grupo de mais quatro Chateaux (castelos): Lafite, Margaux, Latour e Haut-Brion, todos históricos.
Este grande Chateau bordalês jamais havia admitido a idéia de ser um “second grand cru”, e seu lema era "Primeiro não sou, segundo nunca serei, Mouton não muda". O Mouton só admitiu ter sido segundo depois da alteração da classificação oficial. Então seu lema passou a ser "Primeiro eu sou, segundo eu fui, Mouton não muda".
A região de Bordeaux é mágica para os amantes do vinho. Ali estão plantados os vinhedos dos mais famosos Chateaux do mundo. É dos poucos lugares onde ficar perdido é um grande prazer, indo a cada dia do ano numa direção e nunca conhecendo todos os vinhos ali produzidos. As cidadezinhas são cheias de ladeiras estreitas, lojas de vinho, pequenos hotéis e restaurantes, criando condições ideais para o turismo enogastronômico, onde a bebida faz parte da mágica local. A paisagem primaveril é dominada pelo verde das videiras, com o azul do céu refletido nas águas dos rios Dordogne e Garonne, que formam o Gironde, quase no Oceano Atlântico.
            No outono, o dourado toma conta dos vinhedos ao entardecer e tudo brilha em volta, criando uma visão inesquecível.  Os vinhos franceses, em especial os de Bordeaux e Borgonha, são vistos como algo inatingível, pois via de regra, o mercado nos oferece a bom preço exemplares pouco dignos, ou quando os vinhos são bons, os preços ficam fora de cogitação. Nem todos os vinhos da região merecem destaque, apesar de poderem usar a denominação genérica Bordeaux em seus rótulos, o que implica ter muito cuidado na hora da compra. Os vinhos genéricos são via de regra, leves, sem concentração, sem complexidade, mas há preciosidades de diversos níveis, com preços compatíveis.
O Baron Philippe, proprietário do Chateau era um excêntrico visionário, que vivia cercado por seus cachorros e vinhos. Seu Chateau foi um dos primeiros a engarrafar os próprios vinhos. Em 1945, no final da Segunda Grande Guerra, ele escolheu o "V" da vitória para comemorar a libertação da França, estampado em seu rótulo. Estava inaugurada a era dos rótulos concebidos por personalidades famosas do mundo das artes: Jean Carlu, Matisse, Bacon, Kandinsky, Miro, Dali, Chagall, Braque, Picasso, Andy Warhol, entre outros. O Baron Philippe sempre foi um mecenas, tendo inaugurado em 1962, o Museu do Vinho na Arte onde relíquias históricas passaram a conviver com obras modernas que tem o vinho como tema central. Copos de alabastro de 3.000 a.C. convivem ao lado de outras peças utilizadas por gregos e romanos e tapeçarias temáticas.
O Chateau passou a ser dirigido pela Baronesa Philippine de Rotschild, após o falecimento do Baron, bisneto do fundador. Com uma vida intensa (ela já foi atriz na Comédie Française), desde a morte do pai, em 1988, imprimiu a modernidade na empresa. Expandiu as fronteiras do Chateau para outras regiões da França e do mundo. Outro braço da família (banqueiros em Londres), dedica-se ao Chateau Lafite.
O Mouton foi um dos primeiros vinhos a sair dos seus domínios e experimentar os "terroirs" do Novo Mundo. Na Califórnia juntou-se a Robert Mondavi para construir uma vinícola semicircular, onde criou o Opus One. No Chile, produz o Almaviva (um Top emblemático), em conjunto com a Concha y Toro. Além disso, o Mouton é proprietário de duas outras vinícolas em Bordeaux, o Chateau d´Armailhac e o Chateau Clerc Milon, representantes da linha "Premium" da Maison. A produção inclui também o Mouton Cadet, um fino popular, criado a partir de vinhos comprados de terceiros, feitos no padrão da casa. Nestas linhas de produção a modernidade é a diretriz principal. No Chateau vale a tradição.
Em setembro de 2003, a empresa inaugurou uma vinícola própria no Chile. Uma planta de produção moderna, bem equipada, planejada para o futuro, com grande capacidade de expansão. Os vinhos ali produzidos são acessíveis e bem elaborados. O Chardonnay Reserva tem um frescor muito bom, com viva acidez, incomum no Novo Mundo nesta faixa de qualidade. O Carmenére Reserva e o Cabernet Sauvignon Reserva têm boa relação preço-qualidade, mostrando-se geralmente prontos para taça. O Top de Linha é o Escudo Rojo, um assemblage (corte) de 70% Cabernet Sauvignon, 20% Carmenére e 10% Cabernet Franc, muito bom. Fica doze meses em barricas de carvalho francês que lhe conferem grande elegância e classe. Sem dúvida um sucesso de vinho na sua faixa de preço. Escudo Rojo, é a tradução literal do alemão "das Rote Schild", a origem do símbolo da família.
Os grandes vinhos do Chateau, tem ótimo potencial de guarda, atingindo seu auge a partir de alguns anos; e mesmo novos mostram-se elegantemente frutados. Os aromas de café e chocolate, finalizando com tabaco são comuns, em grande evolução. O Mouton tem o mérito de figurar nos anais do vinho pela imaginação comercial do Baron, sua pesquisa constante pela qualidade e pela expressão artística do vinho. Sem dúvida um grande vinho!

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