segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

A CLASSIFICAÇÃO DE 1855 EM BORDEAUX

A CLASSIFICAÇÃO DE 1855 EM BORDEAUX “ - Alguns leitores do VINOTICIAS perguntaram-me sobre a Classificação dos vinhos de Bordeaux, estabelecida incialmente em 1855 e que praticamente permaneceu inalterada até 1973 quando o Château Mouton-Rothschild saiu da posição de Deuxième Cru para a de Premier Cru, por decreto presidencial de Charles de Gaulle.
A famosa classificação originou-se por conta da Exposição Internacional de Paris, na qual os grandes vinhos de Bordeaux (da região do Médoc), foram Primeiro, Segundo, Terceiro, Quarto e Quinto Cru, listando 61 propriedades ou châteaux renomados.
O conceito de cru não nasceu na França, como muitos pensam, pois os romanos adotaram dos egípcios e dos gregos a noção de que certos vinhedos, ou certas regiões bem definidas, produziam vinhos de qualidade especial – Vem daí o conceito de cru, que em francês é uma conjugação do verbo “croître”, que quer dizer “crescer”.
Cru, neste sentido, é uma palavra que não encontra uma tradução perfeita para o português, quando utilizada no contexto do mundo dos vinhos. O termo cru é usado para indicar um vinhedo específico e de reputação reconhecida, localizado em um terroir de renome; e é também usado para se referir ao vinho produzido a partir dessas videiras desse vinhedo.
Nas classificações dos vinhos franceses significa em geral uma qualidade presumida que varia de região para região, mas indica que estamos diante de algo bom e que merece ser provado com cuidado.
Mas largando o conceito de cru, qual foi o critério, além da qualidade dos vinhos, para nortear a classificação? Nada mais simples que o valor do vinho em dinheiro na época. Ou seja, os mais caros (e presumidamente melhores) ficaram com a primeira classificação: Lafite-Rothschild, Latour, Margaux, Haut-Brion, Mouton-Rothschild. Depois desses 5 Premiers Crus temos 14 Deuxièmes Crus (2ºs), 14 Troisièmes Crus (3ºs), 10 Quatrièmes Crus (4ºs), e 18 Cinquièmes Crus (5ºs).
Em Sauternes e Barsac, e ainda de acordo com a Classificação de 1855, Premier Cru Supérieur é a qualidade máxima para os vinhos brancos de sobremesa, e existe apenas 1 representante nessa categoria: Château d’Yquem. Depois desse Premier Cru Supérieur, vem 11 Premiers Crus e 15 Deuxièmes Crus.
A região de Bordeaux criou em torno de si a fama de produtora de grandes vinhos, mas somente 2% (isto mesmo – dois por cento) são os grandes nomes que aguçam o paladar dos amantes de vinho. Importante entretanto dizer que sendo catalogados 10.000 produtores na região, 2% já somam 200 propriedades produtoras de néctares dos deuses.
A ganância dos produtores de vinhos de Bordeaux estipulando preços cada vez mais caros para seus rótulos desde 1990 afugentou muitos amantes de vinhos que abriram seus olhos para outras regiões francesas ou mesmo de outros países. O mercado americano, que era grande consumidor destes vinhos, praticamente lhes virou as costas. Entretanto, chineses e coreanos assumiram este posto e os preços continuam subindo em função da demanda.
Alguns jornalistas especializados dizem que a classificação cairá por terra por que já há vinhos que hoje são tão bons quanto os Premiers Crus. Por conta dos avanços tecnológicos e enológicos, tais como uvas melhor selecionadas, vinificação mais precisa, uso de tanques de inox, adoção de sistema gravitacional, melhor controle de temperatura de vinificação durante a maceração, entre outras melhorias, observa-se uma alteração de estilo. Os vinhos mais recentes, a partir da safra 2000, estão mais opulentos, ricos, gordos e macios, suaves, e com níveis alcoólicos de deixar qualquer Bordeaux antigo no chinelo. Se na década de 80 era comum um Bordeaux ter 12 ou 12,5% de álcool, já degustamos vinhos atuais com 14,5%.  
Muitos dizem que o fato é derivado do aquecimento global, e que isto está criando vinhos de estilo globalizado ou padronizado.  Como a tecnologia está ao alcance de todos, a qualidade de todos subiu, mas também houve uma certa padronização do gosto, lembrando em certos casos vinhos do Novo Mundo em cortes do estilo bordalês. Por sorte, alguns produtores mantêm-se fiéis ao estilo, criando vinhos exuberantes, com boa capacidade de guarda, onde além de desenvolver sua complexidade, atingem grande elegância como em Cos d’Estournel, La Tour Carnet, Léoville-Poyferré, Lascombes.
Vinhos de grande excelência como Léoville Las Cases, Latour, Lafite, Mouton Rothschild, Ducru-Beaucaillou, Pichon-Baron, Pontet-Canet, Montrose convivem com vinhos mais tradicionais, que se destacam com o tempo, mostrando suas qualidades: châteux Batailley, Beychevelle, Boyd-Cantenac, Calon-Ségur, Brane-Cantenac.
Nada a ver com a Classificação de 1855, em Graves, de acordo com a classificação própria da região, existe apenas um nível de classificação, sem hierarquia. São os 16 Crus Classés de Graves.
Em Saint-Émilion, situada à margem direita do rio Dordogne, e que não constou da classificação de 1855, embora produzisse vinhos excepcionais, criou-se em meados do século XX, a sua própria classificação, que é revista a cada 10 anos. São dois os "Premier Grand Cru Classé A" e 13 os "Premier Grand Cru Classé B", além de 46 "Grand Cru Classé " e vários "Cru Classés".
E para esclarecer outra dúvida comum, é importante não se confundir um 2eme Cru com o segundo vinho de um Chateau. Entre os segundos Crus temos: Château Rauzan-Ségla, Margaux / Château Rauzan-Gassies, Margaux / Château Léoville-Las Cases, St.-Julien / Château Léoville-Poyferré, St.-Julien / Château Léoville-Barton, St.-Julien / Château Durfort-Vivens, Margaux / Château Gruaud-Larose, St.-Julien / Château Lascombes, Margaux / Château Brane-Cantenac, Cantenac-Margaux (Margaux) / Château Pichon Longueville Baron, Pauillac / Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande, Pauillac / Château Ducru-Beaucaillou, St.-Julien / Château Cos d'Estournel, St.-Estèphe e Château Montrose, St.-Estèphe.
E o que vem a ser um segundo vinho de um Premier Cru? A grande maioria dos Châteaux de Bordeaux (sejam Premier, Deuxième, Troisième e assim por diante) produz um segundo vinho, ou "Deuxième Vin", abaixo do seu "Gran Vin". Por exemplo, o Deuxième Vin do Premier Grand Cru Classé Château Lafite Rothschild é o Carruades de Lafite, enquanto que os espetaculares Château Léoville-Las Cases e Château Cos d'Estournel são Deuxièmes Crus da Classificação de 1855.
Ter um segundo vinho não é algo recente nos châteaux de Bordeaux. Em 1904, Léoville-Las Cases fez o seu segundo rótulo (Clos du Marquis) e quatro anos depois foi a vez do Château Margaux desenvolver o Le Pavillon Rouge. No entanto, até a década de 1980, a maioria dos enófilos só conseguiam encontrar no mercado o Les Forts de Latour, o Pavillon Rouge e talvez o Moulin de Carruades (antigo nome do Carruades de Lafite). Atualmente, contudo, quase todos châteaux, mesmo alguns sem classificação, possuem um segundo vinho.

A ideia ocorreu nos anos 80 devido às colheitas abundantes da década. Alguns jornalistas afirmam que isto aconteceu para que os Châteaux mantivessem os preços de seus primeiros vinhos em um patamar elevado. Dizem que um dos grandes incentivadores dos produtores de Bordeaux para a criação dos segundos vinhos foi o professor Emile Peynaud. Na década de 1990, o número de segundos vinhos cresceu mais de dez vezes e alguns Châteaux chegaram a produzir até mesmo um terceiro rótulo.

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