segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O PRINCÍPE E A BELA ADORMECIDA, OU PROCURANDO FUGIR DA MESMICE...





" O PRINCÍPE E A BELA ADORMECIDA, OU  PROCURANDO FUGIR DA MESMICE...” – O verão chegando, Natal e Ano-Novo batendo às portas; o calor clama vinhos espumantes, brancos e rosados que refresquem nossa sede. Amigos pedem sugestões de vinhos brancos para este período e procuro pensar em rótulos que fujam da mesmice. A maioria dos vinhos que tenho degustado, está muito parecida e poucos rótulos ficam na memória por seu caráter diferenciado.
A observação não é só minha. Todo mundo vem dizendo há tempos que os vinhos “modernos” estão iguais. Um Chardonnay do Cone Sul (Argentina e Chile) é quase igual a um chardonnay sul-africano, australiano, neozelandês e ou um californiano. O que parecia ser uma vantagem, agora se torna defeito. Aliás, o berço de tudo foi a Califórnia, o que explica boa parte dessa história.
            Em 1976, na célebre prova de Paris, o crítico inglês Steven Spurrier, organizou um evento, no qual um grupo de conhecedores degustou às cegas vinhos franceses e californianos. O resultado desta prova é que os vinhos americanos ganharam dos franceses (nos brancos e nos tintos). O vinho tinto vencedor foi o Stag´s Leap Wine Cellars 73, que bateu bordaleses como o Chateau Mouton-Rothschild 70, Chateau Montrose 70 e Chateau Haut-Brion 70, para citar apenas uma parte do time.
Nos vinhos brancos, o californiano Chateau Montelena ficou em primeiro lugar, seguido do Mersault-Charmes 73, do produtor francês Roulot, e de dois outros chardonnays americanos, o Chalone Vineyard 74 e o Spring Mountain Vineyard 73. Para conhecer em detalhe esta prova, leia o excelente livro de George M. Taber, “O Julgamento de Paris” já editado no Brasil pela Campus.
            O interessante é que os vinhos brancos norte-americanos tentavam imitar os brancos da Borgonha, criados a partir da casta Chardonnay, destacando-se por sua exuberante potência. Desde então os produtores de brancos da uva chardonnay mundo afora trataram de imitar o que fizeram Montelena e Chalone. Buscaram mudas francesas, clones adaptados às condições climáticas de regiões do Novo Mundo, estudaram novas formas de condução de vinhedos, tostaram barricas como os produtores borgonheses e fizeram vinhos buscando uma qualidade diferenciada.
O resultado visto é uma globalização dos aromas e sabores, num fenômeno que alguns jornalistas também têm chamado de “parkerização” do mundo do vinho, uma vez que este reconhecido crítico norte-americano - Robert Parker Jr. é mais influenciado pela potência que pela elegância.
            Para o crítico Matt Kramer, também americano, o debate sobre terroir, e o efeito da mão do homem lembra a história da Bela Adormecida. O príncipe leva a fama de ter acordado a moça com um beijo. Sem ele não teria acontecido nada!. Mas onde estão as Belas Adormecidas que despertam daquele eterno sonho e encantam seus súditos com a elegância e complexidade dos grandes vinhos?
            Sabemos que os americanos estão entre os maiores consumidores de vinho, ditando com os ingleses os preços e as tendências deste mundo. Nem de longe têm a exclusividade do bom gosto, bastando lembrar o fenômeno criado pelo filme Sideways (“Entre Umas e Outras”), num claro debate entre potência x elegância, alusão entre as marcantes Chardonnay e Merlot em relação a “frágil” (?) Pinot Noir.
            O pessoal que se faz de príncipe ainda acredita que é o toque final que conta. Mas percebe-se que não é apenas isto.  A beleza está no solo, que cria a uva dos grandes vinhos. O que conta é o “terroir”, apesar de que recentes pesquisas dizem que tudo não passa de bactérias e micróbios encontados nas regiões vinícolas e que transformam os vinhos em sucesso ou fracasso !
Se você quer fugir da mesmice, só há uma regra a seguir: opte por vinhos que procurem resgatar o caráter de fruta, toques minerais e toques de madeira na dose certa, em detrimento dos vinhos onde a madeira predomina sob a forma de “xarope de carvalho”. Certamente você irá descobrir e despertar Belas Adormecidas. Prometo sugestões para breve.
Atendendo a pedidos, no próximo final de semana escrevo sobre os grandes vinhos de 2013, entre eles o Pêra Manca 1995 provado com amigos confrades e sugestões para 2014 não ficar esperando por boas taças.
            Desejo a todos um Feliz Natal e Venturoso 2014, repleto de Paz e Alegrias.

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