Ano passado, escrevi
sobre o “VINHO DA ÚLTIMA CEIA”, e
novamente alguns novos leitores do VINOTICIAS me perguntam qual teria sido o
vinho bebdio por Jesus em sua última refeitção. Os judeus produziam vinho
desde os tempos pré-Bíblicos. Chegaram, na Antiguidade, a exportar vinho para o
Egito e várias cidades do império romano. Quando os muçulmanos conquistaram a
Palestina em 636 da era cristã, impuseram uma proibição ao vinho (e ao álcool
em geral) por 1.200 anos. A produção só recomeçou em 1870.
Atendendo a pedidos,
pesquisei como teria sido a SANTA CEIA,
registrada no Novo Testamento por São Marcos e São Mateus, sem citar o que foi
comido, ou que vinho foi bebido. Essa refeição celebrava o Pessach, a Páscoa
Judaica, a festa do pão sem levedo, palavra que em hebreu significa proteção,
"passagem", "passar sobre" e deriva de instruções dadas por
Moisés ao faraó Ramsés III, há 3.000 anos.
Moisés falou ao faraó
que se não libertasse os judeus, os primogênitos no Egito seriam mortos. Para
se proteger, os israelitas foram instruídos a marcar suas casas com sangue de
cordeiro. Assim suas casas seriam identificadas e o problema "passaria
sobre" elas. A Páscoa cristã deriva da judaica. Nelas, o vinho e o pão são
fortes símbolos, com sentidos diferentes.
No cristão, o corpo e
o sangue de Cristo, representados pelo pão e pelo vinho, remetem à salvação do
espírito e à vida eterna. No judaico, o pão sem levedo, o matzo, é servido para lembrar a pressa com que os hebreus tiveram
que preparar o seu êxodo do Egito. E quatro taças de vinho são obrigatoriamente
bebidas, cada uma simbolizando uma ação relativa à redenção do povo de Israel,
em períodos distintos da ceia do Pessach. E a cada taça é feita uma benção, o
"kiddush", "santificação". Uma quinta taça é deixada sobre
a mesa para ser bebida pelo profeta Elias (Elijah). Dizem que ele vai de porta
em porta anunciando a vinda do messias judaico. Estima-se que existam cerca de
13 milhões de judeus em todo o mundo. Assim, faz sentido pensar que o profeta,
acabada a noite de Páscoa, vai dormir alegre e profundamente até o próximo ano.
Para um rabino citado por Hugh Johnson, o vinho "ajuda a abrir o coração
ao raciocínio". O objetivo, portanto, não é a inspiração, nem a
embriaguez.
A comemoração da
Páscoa é uma data móvel, referência para outras festas, como o Carnaval. A
regra anual é festejá-la no domingo que segue a primeira lua cheia do outono -
ou primavera no hemisfério norte. E assim acontece desde o ano de 325. A
decisão foi tomada pela Igreja Católica Romana, e causou discussão, pois
coincidia com festas pagãs que celebravam o início da primavera em alguns
povoados europeus. Os deuses celebrados eram Ostera e Esther – daí o termo
Easter (Páscoa em inglês).
A "democracia
religiosa" é tanta, que nenhuma outra data mundial é comemorada por tantas
crenças diferentes. Para a comunidade judaica a festa Pessach ou Passover tem a
duração de oito dias. Durante séculos a principal comemoração católica foi a
Páscoa - e não o Natal como hoje. A maior diferença entre as datas é a
seqüência de fatos que as envolve. A Páscoa inclui momentos como o Domingo de
Ramos, a Santa Ceia, Lavagem dos Pés, Morte e Ressurreição - em um ritual que
permanece por uma semana.
Na Páscoa Cristã, São
Tomás de Aquino, o grande filósofo do século 13, explica o sentido do vinho:
ela só pode celebrar-se "com vinho da videira, pois essa é à vontade de
Cristo Jesus, que escolheu o vinho quando ordenou tal sacramento [...] e também
porque o vinho da uva constitui de certo modo uma imagem do efeito do
sacramento. Refiro-me à alegria espiritual do homem, pois está escrito que o
vinho alegra o coração do homem".
Os cristãos de
Corinto, “das cidades gregas a menos grega e das colônias romanas a menos
romana”, associaram a Santa Ceia como uma refeição tomada em grupo. Cada
família providenciava o seu próprio alimento. Os mais abastados levavam comida
sofisticada e em maior quantidade. Os mais pobres levavam comida simples e em
menor quantidade. Os pratos dos ricos não eram misturados com os pratos dos
pobres. Os mais gulosos começavam a comer antes dos outros e ficavam
empanturrados e outros, com fome. Alguns bebiam além da medida e ficavam
bêbados. Tudo mostra a grande hipocrisia destes cristãos e a Santa Ceia,
virando uma profanação. Diante de tão grande irreverência, São Paulo registrou
em sua primeira carta, escrita lá pelo ano 55: “As reuniões de vocês mais fazem
mal do que bem”. A cerimônia da qual participavam de forma alguma poderia ser
chamada de Ceia do Senhor, tendo se transformado em comes e bebes. Uma ceia
“indigna”, uma vez que ela estava comprometida com glutonaria, bebedeiras e
discriminação (1 Co 11.17-34).
Coelho e Chocolate: A imagem do coelho tem influência
anglo-saxônica e representa a fertilidade. Essa característica era associada ao
animal desde o antigo Egito, pela rapidez de sua reprodução. A Igreja aplica-a
no sentido da multiplicação de fiéis. Registros indicam a região francesa da
Alsácia como uma das primeiras a integrar o coelhinho nas comemorações de
Páscoa, em 1215. A tradição de decorar ovos provém dos povos egípcios e persas,
sempre com o significado de nascimento. A Igreja adotou como símbolo da Páscoa
no século 18, mas a função era unicamente decorativa. Os Maias, e posteriormente os Astecas acreditavam que o cacau era o
alimento dos deuses. Por isso, talvez o cacau e o chocolate sejam míticos até
hoje...". e explique porquê chocolate e vinho despertam tantas paixões.
Sendo um alimento dos deuses, não foi difícil associar uma imagem á outra.
Desejo que vocês tenham na Santa Ceia um ato de profunda reflexão pela
Paz, com vinhos na medida certa. Feliz Páscoa!