“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “BELO
COMIDARIA - um atrativo aos olhos, nem tanto ao paladar “ – A expectativa é um
sentimento extremamente complicado e, em minha opinião, com grande potencial a
ser frustrante à medida que aumenta. Claro; quanto mais você espera boas coisas
de algo, maior é a chance de se decepcionar com a experiência ou resultado
proporcionado por aquilo. Infelizmente, a experiência vivenciada na badaladíssima e queridinha dos
blogs, Belo Comidaria, foi a síntese do que posso chamar de desapontamento. Não
que a casa só tenha problemas, demonstra si
m muita qualidade e bom serviço,
principalmente na padaria e doçaria. O trabalho com as carnes também é muito
bem feito, porém, tendo-se uma visão geral da refeição tida ali, fica a impressão
de que, em alguns aspectos, Henrique Gilberto, Rafael Mantesso e equipe têm
muito a melhorar.
A
ambientação e layout da casa são, realmente, muito interessantes. Nota-se
claramente que a decoração tem, nos detalhes, referências vintage (anos 50) e da cultura mineira de fazenda. O espaço para
205 pessoas foi muito bem pensado e é, sem sombra de dúvidas, um dos destaques
do lugar. Detalhe peculiar e atraente aos gourmets
e foodies é o quadro disposto logo na
entrada do restaurante, onde estão listados todos os seus fornecedores.
Mesmo nunca
sendo o foco quando se pensa na estrutura de um restaurante, o atendimento,
quando ruim, chama enormemente a atenção e estraga uma refeição. Na Belo, posso
dizer que a equipe de atendimento transitou entre a cortesia, gentileza e a
lentidão e confusão. A despeito da simpatia, verifica-se que garçons e
atendentes - apesar de estarem em bom número nos salões - trabalham de maneira
confusa, desatenda e, por vezes, desastrada. Pude notar, em mais uma casa da
capital, que o responsável pela interface entre os clientes e a cozinha não
conhecia os produtos que oferecia, como também, não sabia explicar do que
realmente se tratavam os itens da carta e as delícias expostas nas vitrines da
padaria. É claro que o restaurante é novo e a tendência é que o atendimento
melhore consideravelmente. De qualquer forma, posso dizer que a brigada deixa a
desejar, falta-lhes uma liderança e melhor treinamento.
Assim como
na decoração, a cozinha e a filosofia da casa se pautam na valorização e
revisitação da culinária mineira, suas tradições e produtos disponíveis. Nesse
aspecto, fica clara uma tendência à mescla entre o uso de ingredientes locais e
a utilização de técnicas da escola européia e, especificamente, da Nouvelle Cousine. Infelizmente, o
excelente mote, por hora, não é tão bem executado e o que se percebe ao
degustarem-se diversos pratos e petiscos do cardápio é que a maioria dos
produtos que saem da cozinha são pesados, têm bastante gordura e carecem de
maior apuro no tempero. Em suma, os pratos escolhidos me pareceram melhores no
cardápio do que à mesa, contribuindo para isso o fato de que todos eles foram
servidos mornos, o que denota espera maior que o razoável para serem levados ao
salão.
Ponto
fortíssimo da Belo Comidaria, a padaria e a doçaria são irretocáveis. Tudo que
dali sai é extremamente saboroso, criativo e muito bem feito. Tendo em vista
tamanha qualidade e sensibilidade no preparo dos doces, tenho de dar os
parabéns à Chef Patisserie Luana, que
me conquistou com suas iguarias e seu inesquecível quindão. Posso dizer que, de suas mãos, saem os
melhores itens das refeições e da própria casa. Os irreparáveis pães do couvert e o delicioso bolo de chocolate
(R$ 16,00) da sobremesa foram as estrelas do almoço. Apesar de um tom abaixo, o
Mineiro de Botas (R$ 16,00) é interessante e vale pela adaptação mineira do
onipresente e batido petit gateau, em
que o correto bolo de doce de leite é servido com uma fatia de queijo na chapa
e um sorvete de banana com gosto acentuadamente artificial.
Ao se falar
da parte salgada da refeição, destaque deve ser dado à inusitada e deliciosa
pimenta Cambuci recheada com carne de porco e molho de feijoada (R$ 25,00). O
sensacional recheio foi complementado com maestria pela textura e sabores
marcantes do feijão. Tal acerto, entretanto, não se repetiu no rosbife com purê
de cenoura e erva-doce (R$ 32,00), que passou pela mesa sem que ninguém notasse
sua presença. Abaixo das entradas – o que é comum em Belo Horizonte –
estavam os pratos principais. A insossa macarronada (R$ 48,00) poderia ter sido
evitada, uma vez que a massa, cozida além do ponto, foi acompanhada de um molho
de tomate pálido e com extrema carência de tempero e personalidade. Erro
primário de uma receita que é o básico de qualquer vertente culinária
ocidental. Por sua vez, a rabada recheada com purê de maçã, palmito e agrião
(R$ 48,00), e a costela de vitela com arroz de forno e alho poró tostado (R$
76,00 p/2) evidenciaram que a cozinha trabalha muito bem com as carnes, mas por
algum motivo, deixa a desejar nos acompanhamentos, que demandavam uma gama mais
variada e realçada de sabores. Em linhas gerais, nota-se muita criatividade e
vontade de inovar por parte da cozinha, porém, o resultado é pesado e pouco
atento às guarnições. Quem sabe com mais entrosamento e vivencia em comum,
Henrique Gilberto e sua equipe possam dar um salto técnico e qualitativo no
trabalho desempenhado. Em uma brigada recém-montada e ainda em fase de
aprimoramentos, este é o caminho natural.
Falando dos
vinhos, o que se vê na carta é uma oferta diminuta, porém, de acordo com a
proposta da casa. Talvez uma maior atenção a este quesito agradaria à enófilos
e comensais de maneira geral. Copos corretos e temperatura de serviço adequada
foram notados.
Ao final de
mais uma refeição razoável e, em certo ponto, frustrante, pode-se dizer que o
restaurante tem seu ponto forte nos pães e doces, que estão entre os melhores
da cidade. Por outro lado, ficou notório que a casa alterna altos e baixos,
problemas e deslizes que o tempo se encarregará de aperfeiçoar e corrigir,
espero. De qualquer forma, ficou a sensação de que o que é cobrado pelos pratos
não nos entrega uma boa relação qualidade-preço, como também, nota-se que a
cena de restauração de BH, mais uma vez, ganhou uma casa de boa proposta, mas
de execução mediana. Talvez este seja o caminho natural de um cenário em franca
evolução e efervescência. Fica aqui, portanto, o desejo de que brevemente
tenhamos mais restaurantes de elevado padrão técnico, entregando um serviço e
produtos bem acima do corriqueiro e básico. Evidentemente, errando menos do que
se tem errado no seu métier.
Avaliação:
·
Atendimento: 10,50 / 15,00
·
Apresentação e
Estrutura da casa: 11,60 / 15,00
·
Comida: 30,15 / 40,00
·
Cartas (cardápio
e vinhos/bebidas): 9,90 / 13,00 e 2,40 / 7,00
·
Proposta/execução/criatividade:
7,00 / 10,00
Total: 71,55
***
(extraordinário)- entre 96 e 100 pontos;
**+
(extraordinário) - igual a 95 pontos;
** (excelente)
- entre 90 e 94 pontos;
*+ (excelente)
- igual a 89 pontos;
* (muito
bom) - entre 84 e 88 pontos;
Belo Comidaria
Rua Orange, 67 – Bairro São Pedro
Telefone:
(31) 3643-1569
Horário
de funcionamento:
Segunda a
sábado – das 7hs. às 12hs. e domingos – das 07hs. às 17hs. (Padaria aberta até
as 20hs.). Aceita todos os cartões de crédito.