“ O QUE
ESTÁ POR TRAS DAS VINHAS VELHAS “ – Para a maioria dos amantes de vinhos a
designação “Vinhas Velhas” é uma garantia de qualidade em relação ao que será
colocado na sua taça. Mas na realidade, as vinhas velhas são uma contradição.
Por um lado, cada vez mais são arrancadas em algumas
regiões, devido à sua diminuta produção, que muitas vezes não compensa a sua
manutenção. Por outro lado, cada vez são mais apreciados por alguns produtores,
que nelas baseiam os seus melhores vinhos.
Levando em conta que a apreciação dos vinhos
passa por uma avaliação pessoal e portanto subjetiva, podemos dizer que boa
parte das perguntas não têm uma resposta concreta. Mas afinal, quantos anos tem
uma vinha velha?
Comecemos então pelo
princípio: uma vinha só pode produzir uva para vinho depois de 3 (às vezes
mais) anos de idade. Mesmo nos primeiros 6 a 8 anos de idade a maioria dos
viticultores do Velho Mundo não considera a vinha apta à produção dos melhores
vinhos sendo as vindimas normalmente conduzidas para produção dos segundos ou
terceiros rótulos da vinícola. Depois do oitavo ano de produção a vinha tem um
sistema radicular e uma estrutura aérea vegetativa estabilizadas e inicia a sua
idade produtiva propriamente dita.
Entre os 20 e os 25
anos de idade é consensualmente aceito que a videira começa a produzir menos,
iniciando a produção de uma uva de sabor mais concentrado. A partir deste ponto
aceita-se que a videira começa a envelhecer. Mas podemos considerar que está
velha?
Uma videira entre os
20 e os 50 anos de idade atravessa a idade adulta rumo à maturidade, mas os
índices de produção e o tempo de vida ainda não permitem chamar-lhe “vinha
velha”.
A partir dos 50 anos
de idade o termo “vinha velha” pode-se aplicar sem receios de ferir qualquer
conceito. À medida que a velhice vai avançando, a videira produz cada vez
menos, mas normalmente estas uvas são muito equilibradas e intensas no aroma e
sabor. A película da uva da vinha mais velha é normalmente mais espessa, tem
mais taninos e a polpa tem mais sabor. Contudo estas vinhas velhas têm uma
exploração dispendiosa e para muitas vinícolas, uma vinha velha pouco
produtiva, poderá ser inviável do ponto de vista econômico.
Em relação as vinhas
velhas, a decadência da vegetação traz um equilibro entre folhas e frutos. Os
frutos aparecem em menor quantidade gerando bagos pequenos mas mais concentrados
em aromas e sabores. O sistema radicular é mais amplo e permite um
aprofundamento nas raízes que sobrevivem bem à falta de água e ao calor. Esse
fenômeno gera uma maturação mais regular e total. Permite, igualmente, uma
maior absorção das características do solo da região. A produção é regular ano
para ano, tornando as safras muito homogêneas. O mercado aprecia a constância
da qualidade.
Se considerarmos que
por volta de 1850 a vitivinicultura mundial atravessou uma de suas piores
crises – com regiões inteiras sendo devastadas pela praga da filoxera, que
literalmente dizimou vinhas e chegou a levar algumas variedades de uva à
extinção – é de se supor que as parreiras mais antigas não tenham muito mais de
150 anos.
Marcelo Retamal conta
uma história: “Há uns 15 anos, fiz um vinho de um Cabernet Sauvignon no Chile
que tinha mais de 150 anos. Era incrível ver essas parreiras. No entanto, o
vinho não era bom. O Cabernet estava plantado em um lugar muito quente e isso
não é bom para a variedade. Ou seja, vinhos de vinhedos antigos não são
garantia de qualidade. Dependerá do terroir”.
Portanto, não tente
levar em conta neste tema a questão “que panela velha é que faz comida boa!”
Quanto a questão qual
é a vinha mais velha do mundo, três disputam o título de mais antigas do mundo.
A primeira fica em Maribor, na Eslovênia. Estima-se que a “stara trta” (vinha
velha em esloveno) tenha mais de 400 anos, e este fato está registrado no
Guinness Book de Records como a videira mais antiga do mundo. É uma idade
considerável e venerável, especialmente porque as vinhas de séculos anteriores
foram expostas a várias doenças e muitas não sobreviveram. Ela produz entre 35
e 55 quilos da variedade Žametovka ao ano, que são vinificados para produzir
pequenas garrafas dadas de presente para celebridades que visitam a cidade.
Tive a oportunidade de visitá-la em 2015.
A segunda vinha a
disputar o título de mais antiga fica na região do Tirol, na Itália. Os
proprietários do secular Castel Katzenzungen dizem possuir a vinha mais antiga
do planeta, chamada de Versoaln. Eles acreditam que ela tenha mais de 600 anos
de existência, apesar de um estudo ter calculado a idade em 350 anos. Assim
como a videira eslovena, ela produz pouco, cerca de 500 garrafas numeradas.
Em Portugal fica a
terceira videira considerada mais antiga, com 500 anos, está plantada na Quinta
do Louredo, na rota dos vinhos verdes, que resistiu a Napoleão, à filoxera e a
duas grandes guerras. Com idade estimada entre 480 e 500 anos, fica no noroeste
de Portugal, em Santa Leocádia de Geraz do Lima, cerca de 10 Km de Viana do
Castelo. Esta videira é da casta Doçal, também conhecida por Borralho nesta
região. Segundo estudiosos, “é uma casta tinta de qualidade média, pouco
produtiva e irregular dada a susceptibilidade a doenças criptogâmicas, e
rústica. Dá origem a vinhos de cor rubi a vermelha granada, de aroma pouco
acentuado, encorpados mas sem qualidade. No passado a casta era muito útil para
ajudar o vinho a obter mais corpo”. A videira não está enxertada, seu pé é franco,
e com o tempo criou resistências às pragas e sobreviveu até mesmo à filoxera
que devastou a Europa a partir do ano de 1860 e chegou bem perto desta região
de Portugal.






