“ O VINHO
NA ÉPOCA DE JESUS “ - Nesta época do ano, de Semana Santa, muitos dos amantes
de vinho se perguntam como era o vinho no período em que Jesus viveu. Em pelo
menos três passagens, o vinho está presente na vida do Mestre. Seja nas Bodas
de Canãa, seja na Última Ceia, quando o vinho se transfigurou no sagrado, no
sangue de Jesus e ainda na crucificação quando por duas vezes lhe foi oferecido
vinho.
Então, vamos avaliar
o que se pode dizer sobre os vinhos daquela região e daquele tempo. Na Palestina,
que está no Hemisfério Norte, as uvas eram e ainda são colhidas hoje em dia,
após o verão e portanto durante os meses de agosto e setembro, dependendo do
tipo de uva e do clima da região. As uvas, depois de colhidas, eram colocadas
em lagares, em tanques, ou tinas, de calcário, nos quais os homens geralmente
as esmagavam com pés descalços, cantando ao pisarem o lagar, como se faz hoje
em dia em alguns lugares do Douro, por exemplo.
Como o método hoje em
dia cria vinhos de alta qualidade, é de supor que este esmagamento através da
pisa humana, com métodos de esmagamento suave, deixando parte das gavinhas,
ramos e sementes inteiros e com pouco ácido tânico das cascas espremido gerava
naquela época, um vinho de boa qualidade, possivelmente de paladar suave e
macio.
O primeiro “mosto”,
ou sumo fresco, que flui das cascas rompidas das uvas, se mantido à parte do
volume maior do sumo extraído sob pressão, resulta nos vinhos mais ricos e
melhores. A fermentação começa dentro de seis horas após a maceração, enquanto
o sumo ainda se acha nos tanques, e lentamente se processa por um período de
vários meses. O teor alcoólico dos vinhos naturais varia de 8 a 16 por cento do
volume, mas pode ser aumentado pela adição posterior de álcool. Se as uvas
tiverem pouco teor de açúcar, e a fermentação levar tempo demais, ou se o vinho
não for devidamente protegido contra a oxidação, transforma-se em ácido
acético, ou vinagre.
Nesta época já se
tinham alguns conhecimentos para preservar o suco da uva, apesar que no período
de envelhecimento, o vinho fosse conservado em jarras ou odres. Estes
recipientes como as ânforas hoje utilizadas na fermentação dos vinhos, deveriam
dispor de respiradouro para permitir a saída do dióxido de carbono (subproduto
do desdobramento dos açúcares em álcool através da fermentação), sem que o
oxigênio do ar entrasse em contato com o vinho, fazendo sua oxidação.
À medida que se
deixavam os vinhos descansar, eles gradualmente se clarificavam, as borras
precipitavam-se no fundo, havendo o melhoramento do buquê e do sabor. Assim
sendo, o vinho era parte integrante de banquetes comemorativos de vitórias em
campos de batalha, de festas de casamento, e de outras ocasiões festivas. As
adegas reais eram abastecidas de vinho, que era a bebida costumeira de reis e
de governadores e mesmo os viajantes muitas vezes o incluíam nas suas provisões
para viagem.
Muitas pessoas
avaliam se havia muito álcool nestes vinhos, e pensam que Jesus fez um bom
vinho por causa de seu elevado teor alcoólico. Esta hipóteses sustenta-se sobre
três suposições.
Presume-se primeiro
que os judeus não sabiam como evitar ou controlar a fermentação do suco de uva;
e sendo que a estação das Bodas de Canãa foi pouco antes da Primavera, seis
meses após a colheita da uva, o vinho bebido nas bodas teve amplo tempo para
fermentar.
Em segundo lugar,
presume-se que a descrição dada pelo mestre do banquete quanto ao vinho feito
por Jesus como “o bom vinho” significa um vinho muito alcoólico de alta
qualidade, como muitos enófilos imaginam que vinhos de alto teor sejam melhores
que vinhos de médio teor, esquecendo-se que há belos Bordeaux bebíveis nos dias
de hoje, criados nas décadas de 60 ou 70 e com meros 12 ou 12,5% de teor
alcoólico.
Presume-se ainda que
a expressão “beberam fartamente “, empregada pelo mestre do banquete, indica
que os convidados estavam já alterados por terem bebido muito vinho
anteriormente.
É importante dizer
que o primeiro pressuposto é desmentido por numerosos testemunhos do mundo
romano dos tempos do Novo Testamento que descrevem vários métodos de conservar
o suco de uva. A preservação de suco de uva não-fermentado era em certos
aspectos um processo mais simples do que a preservação de vinho fermentado.
Além disto, pode-se até mesmo supor foi servido suco de uva não-fermentado na
boda de Canãa, próximo à estação a Páscoa, uma vez que tal bebida podia ser
mantida sem fermentação por todo o ano.
O primeiro milagre de
Cristo de transformar água em vinho no casamento de Canãa, que já durava 3
dias, quase certamente envolveu uma bebida fermentada. Casamentos normalmente
duravam sete dias, período durante o qual a comida e o vinho fornecidos pelas famílias
da noiva e do noivo fluíam livremente. De acordo com a tradição judaica do
casamento, o vinho fermentado era sempre servido em casamentos. Se Jesus
tivesse feito apenas suco de uva, o mestre da festa certamente teria reclamado.
Em vez disso, ele disse que o vinho era melhor do que o servido anteriormente,
estava “muito bem”.
Já quanto a ideia de
que o vinho que Jesus fez ter sido considerado “bom” por causa de seu nível
elevado de teor alcoólico, estamos tomando por base o gosto de muitos enófilos
do Séc. XX que definem um bom vinho por conta da sua potência alcoólica.
Entretanto no mundo romano dos tempos do Novo Testamento os melhores vinhos
eram aqueles cuja potência alcoólica havia sido removida por fervura ou
filtração. Por exemplo, Plínio declarava que os “vinhos são de maior benefício
quando todo o seu vigor havia sido removido pelo filtrador”. De modo
semelhante, Plutarco assinala que o vinho é “muito mais agradável de se beber”
quando “nem inflama o cérebro nem infesta a mente ou as paixões” porque sua
força foi removida mediante a filtragem.
Duas vezes foi
oferecido vinho a Jesus enquanto na cruz. Ele recusou o primeiro, mas pegou o
segundo. Por quê? Na primeira vez “lhe ofereceram vinho misturado com mirra,
mas ele não o tomou." De acordo com uma tradição antiga, mulheres
respeitadas de Jerusalém forneciam uma bebida narcótica aos condenados à morte,
a fim de diminuir sua sensibilidade à terrível dor da crucificação. Quando
Jesus chegou ao Gólgota, a ele foi oferecido vinho misturado com mirra, mas ele
recusou, escolhendo suportar com plena consciência os sofrimentos previstos
para ele.
A segunda vez
aconteceu quando espectadores pensaram que Ele estava chamando por Elias,
"alguém correu e encheu uma esponja com vinho azedo, colocou-o em uma cana
e deu-lhe para beber, dizendo: 'Espere, vamos ver Se Elias virá para derrubá-lo
". No entanto, vinagre de vinho ácido é mencionado no Antigo Testamento
como uma bebida refrescante, e na literatura grega e romana também é uma bebida
comum apreciada por trabalhadores e soldados porque aliviava a sede mais
eficazmente do que a água. Não há exemplos de seu uso como um gesto hostil. O
pensamento, então, não é de um vinagre corrosivo oferecido como uma brincadeira
cruel, mas de um vinho azedo que o povo bebia. Assim, o segundo (azedo) vinho
foi dado para mantê-lo "consciente durante o maior tempo possível",
e, assim, ter o efeito de prolongar a sua dor. Este é o vinho que Jesus bebeu.
Boa parte destas
dúvidas, sobre como seria o vinho na época de Jesus, estão sendo pesquisadas
com a mais fina tecnologia dos dias atuais, desde 2011, em Israel, quando se
descobriram 120 variedades únicas de uvas cujos perfis de DNA são distintos de
todas as castas importadas. Cerca de 50 uvas foram domesticadas, e 20 delas são
“adequadas para a produção de vinho”. Separadamente, pesquisadores
identificaram 70 variedades distintas usando DNA e um escaneamento
tridimensional, que nunca havia sido utilizado antes dessa forma e com sucesso,
de sementes queimadas e secas descobertas em escavações arqueológicas.
Há uvas brancas e
tintas, o que faz crer que na época de Jesus se bebesse vinho tinto e branco. A
ideia é comparar essas sementes antigas com as uvas vivas, ou algum dia talvez
recriar a fruta como foi feito no filme “Jurassic Park”.
Dadas as dificuldades
de conseguir as uvas de fazendeiros palestinos, as produções não são muito
volumosas. Há um vinho feito com a casta marawi, descrito como "o vinho
israelense mais importante do ano 2014", por sua procedência, se não pelo
gosto. Fala-se que é um vinho branco "agradável e fácil de beber" e
que "abre um pouco no copo com aromas suaves de maçã e pêssego". E,
se a uva for cultivada especialmente para a vinicultura, tem potencial que
“estimula a imaginação". O próximo vinho esperado pelo mercado é o
dabouki, também branco. A Dabouki pode ser umas das castas locais mais antigas,
um bom candidato para o vinho que encheu o copo de Jesus. Espero que em breve
possamos ter maiores informações sobre como era o vinho de 2000 anos atrás. (Fonte – escrito a partir de pesquisas
na internet de diversas fontes e autores).