“ COM QUE
VINHO ORGÂNICO EU VOU PULAR O CARNAVAL ? “ - Num mundo onde a preocupação com a
sustentabilidade está cada vez mais em voga, cresce também a oferta de vinhos
produzidos de maneira orgânica, biodinâmica e natural, sendo que nestes dois
últimos, os cuidados e técnicas adotadas vão muito além da exclusão dos
pesticidas e adubos sintéticos dos vinhedos.
Nunca se falou tanto
sobre vinhos ecológicos, por isso, vale a pena explicar de maneira objetiva
alguns detalhes de cada prática e em que elas diferem.
v ORGÂNICO - Produção orgânica é
algo muito amplo que precisa incluir toda a propriedade. Toda ela precisa ser
tratada como um organismo vivo e qualquer desvio que possa haver em um dos
elementos deste contexto afetará todos os outros.
Pode se manusear o
vinhedo organicamente, porém, se usar algum produto sintético para secar o
matinho no quintal, por exemplo, ainda que não seja utilizado na vinha,
descaracteriza a filosofia que orienta a pensar em todos os organismos
existentes no solo, sejam plantas ou microorganismos. Quanto aos insetos que
possam prejudicar o vinhedo, o intuito é espantá-los para que busquem o que
necessitam em outros locais e plantas. Para a prevenção de pragas e doenças,
utilizam meios alternativos de tratamento como água de cinza, sulfato de cobre,
enxofre, cal virgem, sulfato de zinco, sulfato de potássio… estes são alguns
dos produtos naturais usados que auxiliam no combate a pragas, bactérias e
doenças fúngicas.
Também se fazem
necessários alguns cuidados naturalistas durante a vinificação. Muitos
produtores que se dizem orgânicos mantém esta prática apenas na vinha, neste
caso deveriam mencionar no rótulo que o vinho é produzido com UVAS ORGÁNICAS,
pois na cantina também existem cuidados a serem tomados para a preservação
desta filosofia.
Penso que a nós não
cabe esta discussão, uma vez que nem os órgãos certificadores chegam a um consenso,
e, se a uva está livre de agrotóxicos já está de bom tamanho, não é?
Um exemplo de vinho ORGÂNICO
– vinhos da linha ARROGANT FROG importados pela Decanter
v BIODINÂMICO
(agricultura biológica) - A agricultura biodinâmica, adotada por muitas vinícolas em
todo o mundo, inclusive as célebres Romanée Conti e Pingos, tem como base as
teorias de Rudolf Steiner, filósofo austríaco falecido em 1925 cuja intenção
era devolver à agricultura o papel social e cultural que perdeu durante o
processo de industrialização de alimentos e a criação de animais em massa fora
do seu ambiente natural.
Para ele, a
agricultura é o fundamento de toda cultura, tem algo a ver com todos, por isso
o ponto central da produção biodinâmica é o ser humano numa relação respeitosa
com o universo, ou seja, tudo aquilo que o cerca, considera-se tudo, ar, água,
terra, fogo, sol… A viticultura e a enologia são regidas pela astrologia, todas
as etapas de produção, desde os cuidados com a vinha como a poda, adubação, até
chegar à vinificação são feitas de acordo com as fazes da lua.
Para esta filosofia,
as plantas são para a terra como instrumentos de percepção do cosmo. Não se
aduba o solo para nutrir a planta, mas para vivificar a terra, que transmitirá
parte de sua virtude á planta que passará ao homem ou outro ser qualquer. Todo
ser vivo para ser perfeitamente equilibrado precisa estar plenamente integrado
ao ecossistema onde ele vive, sendo o mais natural possível.
Na biodinâmica, a
vinha deixa de ser uma monocultura e se torna uma vasta e complexa rede de
microorganismos e animais trazendo equilíbrio ao meio. Na medida em que exclui
o uso de pesticidas, aumenta também a incidência de pragas, porém, cada praga
tem seus inimigos naturais que as devoram, é a cadeia alimentar, quanto mais
pragas surgirem mais insetos inimigos também surgirão devido à alta oferta de
alimentos. Quanto aos insetos, a grande maioria que existe são benéficas ao
homem, por isso, quanto mais borboletas, joaninhas (predadoras de pulgões),
vespas (alimentam os filhotes com larvas de gafanhotos, lagartas) no vinhedo,
melhor. A ideia é contribuir para o aumento da população dos insetos
inofensivos à vinha para combaterem os que são prejudiciais.
A única semelhança
entre o cultivo biodinânico e orgânico é a não utilização dos pesticidas,
adubos sintéticos, hormônios, etc. A primeira abrange outras esferas que vão
muito além da exclusão de adubos sintéticos e venenos.
Um exemplo de vinho BIODINÂMICO
– vinhos da linha COLOMÉ importados pela Decanter
É uma maneira
ancestral de produção, abrindo mão de quase todas (ou todas) as tecnologias
disponíveis. O cultivo do vinhedo é orgânico ou biodinâmico, proporcionando o
aparecimento destes microorganismos naturalmente, tanto que, no mundo antigo,
extraiam o fermento que precisavam para produção de pães e outros alimentos da
espuma da superfície do vinho quando em fermentação.
Na França, o mundo do
vinho natural está cercado de polêmica desde 1907 (veja o postal da época) – ao
mesmo tempo em que o país é expoente na produção de natuais. Integrantes do
INAO, o Instituto Nacional de Origem e Qualidade do vinho francês, se reuniram
para tentar chegar a uma definição precisa de vinho natural. O problema é que
há discordância no conceito, inclusive entre produtores da bebida. E há ainda
aqueles que não querem ser encaixados em uma categoria fechada.
A AVN, associação de
produtores de vinhos naturais da França, diz que um vinho natural é aquele
produzido por meio de métodos naturais, sem aditivos. Para alguns, a definição
é vaga. Mas a AVN diz que a discussão está no começo e que espera esclarecer
todas as dúvidas com produtores e consumidores.
Estudos afirmam que
algumas localidades ou vinhedos apresentam tipos de leveduras naturais ou selvagens
típicas, que só existem ali, dando caráter particular aos vinhos (quase como
num conceito de terroir).
A vitivinicultura
natural é teoricamente possível em qualquer lugar, mas França e Itália lideram
atualmente. Isso talvez porque as mais antigas regiões vinícolas têm as mais
longas histórias do povo trabalhando com a natureza, para o bem ou para o mal.
O uso de leveduras
selecionadas e/ou correções finais acrescentando ácido tartárico e taninos não
acontece, tampouco a adição de sulfitos durante a fermentação, pois, podem
matar as leveduras indígenas, e tirar algumas características naturais da
bebida além de anular o terroir. Alguns produtores adicionam quantidades
mínimas após a vinificação enquanto que outros abolem totalmente o uso do SO2
(mesmo que não se adicione o SO2 pode ser que o vinho acuse a presença deste,
uma vez que ele também é um produto resultante da fermentação, quantidades
minúsculas aparecem após a elaboração).
Durante a
fermentação, não se controla a temperatura, os vinhos não passam por colagem e
nem são filtrados para não perderem elementos de aroma e sabor.
A vinificação natural
quando bem feita atinge níveis altíssimos de qualidade e tipicidade, é a mais
alta expressão do terroir que existe, portanto, são vinhos que precisam ser
compreendidos. Talvez isto explique as muitas polêmicas existentes sobre esta
prática.
Um exemplo de vinho NATURAL – vinhos do produtor GRAVNER
ou SIMCIC
importados pela Decanter.
A
pergunta que não quer calar é se estes vinhos são melhores que os vinhos “normais”,
onde os conceitos de orgânico, biodinâmico ou natural não entram e que são a
mioria dos rótulos nas nossas prateleiras.
A verdade é que já
provei de todos estes rótulos e gostei de todos. Posso dizer que a opção de
vinhos naturais, principalmente quando se fala de vinhos de Talha (leia o artigo
de Rui Falcão) ou de vinhos Laranja exige maior cuidado para entender seus
aromas e sabores únicos. Creio que o mais importante é que estes vinhos nos
proporcionem a harmonia e prazer e descobrir novas dimensões nas nossas taças.
Sem entrar em discórdias,
nem privilegiar radicalismos, no final das contas não se discute qual tipo de
vinho é melhor, desde que nos dêem prazer. Há bons e excelentes rótulos em
todas as opções, mas é claro que também há vinhos sofríveis em todas elas.
O que me lembra que ficou
famosa a resposta do professor Emile Peynaud, pai da enologia francesa em
Bordeaux, quando lhe perguntaram qual o melhor vinho que provara. “Um Pinot Noir, disse. E o pior? Um Pinot
Noir”, completou.








