“ A
CLASSIFICAÇÃO DE 1855 EM BORDEAUX “ - Alguns leitores do VINOTICIAS perguntaram-me
sobre a Classificação dos vinhos de Bordeaux, estabelecida incialmente em 1855
e que praticamente permaneceu inalterada até 1973 quando o Château
Mouton-Rothschild saiu da posição de Deuxième Cru para a de Premier Cru, por decreto presidencial de Charles de
Gaulle.
A famosa
classificação originou-se por conta da Exposição Internacional de Paris, na
qual os grandes vinhos de Bordeaux (da região do Médoc), foram Primeiro,
Segundo, Terceiro, Quarto e Quinto Cru, listando 61 propriedades ou châteaux renomados.
O conceito de cru
não nasceu na França, como muitos pensam, pois os romanos adotaram dos egípcios
e dos gregos a noção de que certos vinhedos, ou certas regiões bem definidas,
produziam vinhos de qualidade especial – Vem daí o conceito de cru, que em
francês é uma conjugação do verbo “croître”, que quer dizer “crescer”.
Cru, neste sentido, é
uma palavra que não encontra uma tradução perfeita para o português, quando
utilizada no contexto do mundo dos vinhos. O termo cru é usado para indicar um
vinhedo específico e de reputação reconhecida, localizado em um terroir de
renome; e é também usado para se referir ao vinho produzido a partir dessas
videiras desse vinhedo.
Nas classificações
dos vinhos franceses significa em geral uma qualidade presumida que varia de
região para região, mas indica que estamos diante de algo bom e que merece ser
provado com cuidado.
Mas largando o
conceito de cru, qual foi o critério, além da qualidade dos vinhos, para
nortear a classificação? Nada mais simples que o valor do vinho em dinheiro na
época. Ou seja, os mais caros (e presumidamente melhores) ficaram com a
primeira classificação: Lafite-Rothschild, Latour, Margaux, Haut-Brion,
Mouton-Rothschild. Depois desses 5 Premiers Crus temos 14 Deuxièmes Crus (2ºs),
14 Troisièmes Crus (3ºs), 10 Quatrièmes Crus (4ºs), e 18 Cinquièmes Crus (5ºs).
Em Sauternes
e Barsac, e ainda de acordo com a Classificação de 1855, Premier Cru
Supérieur é a qualidade máxima para os vinhos brancos de sobremesa, e existe
apenas 1 representante nessa categoria: Château d’Yquem. Depois desse Premier
Cru Supérieur, vem 11 Premiers Crus e 15 Deuxièmes Crus.
A região de Bordeaux
criou em torno de si a fama de produtora de grandes vinhos, mas somente 2%
(isto mesmo – dois por cento) são os grandes nomes que aguçam o paladar dos
amantes de vinho. Importante entretanto dizer que sendo catalogados 10.000
produtores na região, 2% já somam 200 propriedades produtoras de néctares dos
deuses.
A ganância dos
produtores de vinhos de Bordeaux estipulando preços cada vez mais caros para
seus rótulos desde 1990 afugentou muitos amantes de vinhos que abriram seus
olhos para outras regiões francesas ou mesmo de outros países. O mercado
americano, que era grande consumidor destes vinhos, praticamente lhes virou as
costas. Entretanto, chineses e coreanos assumiram este posto e os preços
continuam subindo em função da demanda.
Alguns jornalistas
especializados dizem que a classificação cairá por terra por que já há vinhos
que hoje são tão bons quanto os Premiers Crus. Por conta dos avanços
tecnológicos e enológicos, tais como uvas melhor selecionadas, vinificação mais
precisa, uso de tanques de inox, adoção de sistema gravitacional, melhor
controle de temperatura de vinificação durante a maceração, entre outras
melhorias, observa-se uma alteração de estilo. Os vinhos mais recentes, a
partir da safra 2000, estão mais opulentos, ricos, gordos e macios, suaves, e com
níveis alcoólicos de deixar qualquer Bordeaux antigo no chinelo. Se na década
de 80 era comum um Bordeaux ter 12 ou 12,5% de álcool, já degustamos vinhos
atuais com 14,5%.
Muitos dizem que o
fato é derivado do aquecimento global, e que isto está criando vinhos de estilo
globalizado ou padronizado. Como a
tecnologia está ao alcance de todos, a qualidade de todos subiu, mas também
houve uma certa padronização do gosto, lembrando em certos casos vinhos do Novo
Mundo em cortes do estilo bordalês. Por sorte, alguns produtores mantêm-se
fiéis ao estilo, criando vinhos exuberantes, com boa capacidade de guarda, onde
além de desenvolver sua complexidade, atingem grande elegância como em Cos
d’Estournel, La Tour Carnet, Léoville-Poyferré, Lascombes.
Vinhos
de grande excelência como Léoville Las Cases, Latour, Lafite, Mouton
Rothschild, Ducru-Beaucaillou, Pichon-Baron, Pontet-Canet, Montrose convivem
com vinhos mais tradicionais, que se destacam com o tempo, mostrando suas
qualidades: châteux Batailley, Beychevelle, Boyd-Cantenac, Calon-Ségur,
Brane-Cantenac.
Nada a ver com a
Classificação de 1855, em Graves, de acordo com a
classificação própria da região, existe apenas um nível de classificação, sem
hierarquia. São os 16 Crus Classés de Graves.
Em Saint-Émilion,
situada à margem direita do rio Dordogne, e que não constou da classificação de
1855, embora produzisse vinhos excepcionais, criou-se em meados do século XX, a
sua própria classificação, que é revista a cada 10 anos. São dois os
"Premier Grand Cru Classé A" e 13 os "Premier Grand Cru Classé B",
além de 46 "Grand Cru Classé " e vários "Cru Classés".
E para esclarecer outra
dúvida comum, é importante não se confundir um 2eme Cru com o segundo vinho de
um Chateau. Entre os segundos Crus
temos: Château Rauzan-Ségla, Margaux / Château Rauzan-Gassies, Margaux / Château
Léoville-Las Cases, St.-Julien / Château Léoville-Poyferré, St.-Julien / Château
Léoville-Barton, St.-Julien / Château Durfort-Vivens, Margaux / Château
Gruaud-Larose, St.-Julien / Château Lascombes, Margaux / Château
Brane-Cantenac, Cantenac-Margaux (Margaux) / Château Pichon Longueville Baron,
Pauillac / Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande, Pauillac / Château
Ducru-Beaucaillou, St.-Julien / Château Cos d'Estournel, St.-Estèphe e Château
Montrose, St.-Estèphe.
E o que vem a ser um segundo vinho de um Premier Cru? A grande maioria
dos Châteaux de Bordeaux (sejam Premier, Deuxième, Troisième e assim por
diante) produz um segundo vinho, ou "Deuxième Vin", abaixo do seu
"Gran Vin". Por exemplo, o Deuxième Vin do Premier Grand Cru Classé
Château Lafite Rothschild é o Carruades de Lafite, enquanto que os
espetaculares Château Léoville-Las Cases e Château Cos d'Estournel são
Deuxièmes Crus da Classificação de 1855.
Ter um segundo vinho
não é algo recente nos châteaux de Bordeaux. Em 1904, Léoville-Las Cases fez o
seu segundo rótulo (Clos du Marquis) e quatro anos depois foi a vez do Château
Margaux desenvolver o Le Pavillon Rouge. No entanto, até a década de 1980, a
maioria dos enófilos só conseguiam encontrar no mercado o Les Forts de Latour,
o Pavillon Rouge e talvez o Moulin de Carruades (antigo nome do Carruades de
Lafite). Atualmente, contudo, quase todos châteaux, mesmo alguns sem
classificação, possuem um segundo vinho.
A ideia ocorreu nos
anos 80 devido às colheitas abundantes da década. Alguns jornalistas afirmam
que isto aconteceu para que os Châteaux mantivessem os preços de seus primeiros
vinhos em um patamar elevado. Dizem que um dos grandes incentivadores dos produtores
de Bordeaux para a criação dos segundos vinhos foi o professor Emile Peynaud. Na
década de 1990, o número de segundos vinhos cresceu mais de dez vezes e alguns
Châteaux chegaram a produzir até mesmo um terceiro rótulo.