“ BEAUJOLAIS, PORQUE NÃO ? ” – “Le Beaujolais
Nouveau est arrivée!” É assim que os franceses da região de Lyon, iniciam as
festividades que marcam o lançamento do vinho novo da região de Beaujolais. A
festa acontece, todos os anos, na terceira quinta-feira do mês de novembro.
O Beaujolais Nouveau
é um vinho que fica pronto para o consumo cerca de dois meses após a colheita,
e esta rapidez é obtida pelo processo de maceração carbônica. O vinho é
produzido na pequena cidade de Beaujeu, a partir das uvas gamay.
Em geral, o
Beaujolais é um vinho muito frutado, leve e fresco. Todos os anos os produtores
franceses dizem que este vinho é muito frutado que lembra aromas de banana,
morangos ou cerejas. Esqueçam isso. Sempre lembra os mesmos aromas !”
O Beaujolais Nouveau
é exportado para mais de cem países. Na França, a produção é de cerca de 36
milhões de garrafas de Beaujolais.
Para alguns amantes
de vinho, o dia 17/11) foi dia de degustar o seu Beaujolais Nouveau. Para
outros, foi um dia para esquecer, pois o Beaujolais Nouveau é um dos vinhos
mais contraditórios em matéria de gosto. Mas afinal, gosto não se discute, não
é mesmo ?
Neste ano, participando
de uma Master Class junto a sommeliers e restauranteurs, com tema de Vinhos
Beaujolais, a pergunta inicial recebeu uma resposta quase que uníssona – O que
você sabe sobre Beaujolais ? e a resposta foi: Que é um vinho ruim !!!
Esta
impressão cristalizada na mente de vários amantes de vinhos certamente mudaria
se pelo menos provassem um Beaujolais sabendo que ele é um dos vinhos mais
bebidos no dia-a-dia francês. E melhor ainda se provassem um Villages, ou um
Cru de Beaujolais.
♦ O
Beaujolais Nouveau e o aroma de banana
Uvas colhidas em setembro, vinificação em outubro, engarrafamento
no início de novembro. E pronto, na segunda quinzena de novembro, "le
Beaujolais Nouveau est arrivé". O que há de especial em sua elaboração que
resulta no aroma de banana, cuja intensidade varia ano a ano?
Na vinificação do Beaujolais acomodam- se bagos inteiros de uvas
Gamay em cubas fechadas, sob pressão. Nessas condições, as enzimas da polpa são
ativadas, verificando-se no interior do bago uma tímida transformação de açúcar
em álcool, com formação interna de gás carbônico.
A fermentação intracelular cessa naturalmente
após uns dez dias e inicia-se o processo de elaboração do Beaujolais, conhecido
como maceração carbônica. Diminui-se o teor de ácido málico e formam-se álcool,
glicerina e outros componentes. Entre eles, o acetato de isoamila com seu
cheiro de banana amassada ou para alguns, banana passa. E o aroma de banana
estará no Nouveau, mais ou menos intenso, dependendo da concentração de acetato
de isoamila naquele ano, para cada produtor.
É
um vinho alegre, agradável, frutado, saboroso, macio. Ótimo para happy hour. Se
o produtor for bom e conceituado, tanto melhor! A oportunidade de degustar os
vinhos desta safra ficou por conta do Beaujolais Villages Nouveau 2016 do
produtor Joseph Drouhin, importado pela MISTRAL. O produtor Joseph Drouhin há 20
anos leva os melhores prêmios para seus vinhos. Se podemos dizer que o
Beaujolais Nouveau é um vinho mais simples, sendo a base no portfólio, o
Villages é uma versão mais profunda e concentrada do primeiro.
A cor é de rubi
escuro, lembrando a casca de uma cereja. Os aromas mostram frescor, numa sucessão
que lembra frutas frescas vermelhas e tropicais, garantindo bom frescor e
concentração, sem faltar a nota típica de banana. Na boca o vinho é macio, frutado
e curto. Os taninos estão “redondos”. Como sempre, corpo leve e ótimo para
acompanhar frios, embutidos mais leves ou carnes em preparações menos
condimentadas, ou ainda pratos leves como pizzas e quiches. Em BH você pode
encontrar os Beaujolais na MISTRAL -
Rua Cláudio Manoel, 723 - Savassi - BH. Tel.: (31) 3115-2100.
v SOBRE O BEAUJOLAIS
NOUVEAUX E OS DEMAIS BEAUJOLAIS: A idéia de lançar globalmente numa
determinada data o Beaujolais Nouveau ― um estilo de vinho jovem e popular,
feito para ser bebido quase geladinho a uns 10°C e o mais rápido possível, que
originalmente foi um grande sucesso nos bistrôs parisienses do pós-guerra, nos
anos 1950 e 1960 ― pareceu, durante um bom tempo, uma grande jogada comercial e
de marketing dos franceses. A frase – “Le Beaujolais Nouveau est arrivé !”,
inventada no fim da década de 1960, atravessou fronteiras e se tornou conhecida
entre os amantes de vinho de vários países.
Durante
a febre do Beaujolais Nouveau, esse tipo de vinho chegou a responder por cerca
de 60% e toda a produção do Beaujolais. Tudo indicava que os franceses haviam
descoberto uma “mina de ouro”. O produtor elaborava o vinho e, em questão de
uns poucos meses (em vez de anos), vendia boa parte de sua colheita engarrafada
e se capitalizava rapidamente. A onda do Beaujolais Nouveau teve seu auge no
exterior no fim dos anos 1980 e chegou ao Brasil nos anos 1990.
O problema é que, de
um estrondoso sucesso midíatico e de vendas, o Beaujolais Nouveau se tornou um
problema para a região do Beaujolais. Cristalizou no longo prazo a imagem (injusta)
de que todos os vinhos dessa zona vitícola, inclusive os melhores crus da
região, são tão vulgares, industrializados e desprezíveis como o aroma
artificial de banana presente nos piores Nouveaux. Com o passar do tempo, a
demanda pelos vinhos da região, Beaujolais Nouveau inclusive, caiu.
No meio da crise
econômica mundial, com produção em excesso e menos consumidores, a exemplo
muitas zonas vitícolas do Velho Mundo, mais de 3 mil hectares de vinhas foram
arrancadas do Beaujolais nos últimos anos, e alguns domaines produtores
fecharam ou foram vendidos. Uma parcela das terras da região está sendo
reconvertida para o plantio de uvas de mesas ou para outras culturas e que hoje
há 19 mil hectares de vinhas no Beaujolais. Sinal dos tempos, a Chardonnay, a
cepa branca mais popular no mundo e uma das estrelas da vizinha Borgonha, ganha
espaço na região e já se pensa em limitar a sua presença ali a no máximo 10% do
vinhedo local.
Não
é de hoje que o Beaujolais, situado no sul da Borgonha, perto de Lyon, enfrenta
grandes desafios. Historicamente, essa zona sofre de uma crise de identidade e
complexo de inferioridade em relação à região-mãe (melhor seria dizer
“madastra”) em que está inserida, a mítica Borgonha. De tempos em tempos,
ressurge o eterno debate: a zona do Beaujolais é uma sub-região da Borgonha ou
é uma área vitícola independente? Verdade se diga que nenhum produtor da
Borgonha gosta de ser colocado par-a-par com a região de Beaujolais, o que
funciona de maneira pejorativa. Assim como a garrafa azul fez tão mal aos
verdadeiros brancos alemães, o Beaujolais Nouveau deixou uma péssima imagem dos
autênticos Beaujolais.
Nos
níveis mais altos, a expressão da uva Gamay impressiona pela variedade de
estilos, criando “10 Crus do Beaujolais”. Cada “cru” é representado por uma
comuna (cidade vinícola) e leva seu nome. Nesta região dos Crus, o solo tem
mais granito, com porcentagens variadas de areia, com melhor drenagem a
temperaturas mais altas. Toda a uva é colhida manualmente. Isto se dá,
principalmente, porque o método de fermentação das uvas é por maceração
carbônica e, para isso, as uvas precisam estar intactas, sem esmagamento
pré-fermentativo.
Além
das diferenças de solo, de clima e de vinificação, a região da Borgonha e de
Beaujolais têm uma divergência ainda mais importante: o Beaujolais planta
Gamay, uma cepa tinta, de reputação modesta e dada a produzir vinhos leves e
pouco longevos, e a Borgonha (além da branca Chardonnay) cultiva a Pinot Noir,
uva que fascina muitos conhecedores e dá rótulos estelares, capazes de
envelhecer por décadas, como o Romanée Conti. É verdade que o resto da Borgonha
(quase) não planta Gamay por razões históricas, digamos, de força maior: no
final do século XIV, o Filipe II, o duque de Borgonha, confinou ao Beaujolais o
cultivo de vinhedos de Gamay, que considerava como uma cepa “vil e desleal”.
Apesar
de terem sido sempre o patinho feio da Borgonha, os melhores vinhos do
Beaujolais (um cru Molin -à-Vent, um Morgon ou um Chénas) eram valorizados meio
século atrás. “Nos anos 1950, um cru do Beaujolais era vendido ao preço de um
grand cru da Borgonha”, escreveu o jornalista Bernard Burtschy numa reportagem
publicada no jornal francês Le Figaro (2009). A frase pode ser um exagero, mas
dá bem a medida de como as coisas mudaram desde que o mundo passou a associar o
Beaujolais ao seu filho mais ligeiro, o Beaujolais Nouveau. Fora da França, o
modesto Beaujolais Nouveau, que, bem feito, pode ser um vinho agradável para o
verão, enfrenta ainda um problema extra: o preço relativamente alto. Para nós,
brasileiros, vinho caro não é novidade. Já faz parte, infelizmente da paisagem nacional.
Há os impostos, o custo Brasil, a malfadada ST, o lucro do importador, os
ganhos dos intermediários… E, no caso do Beaujolais Nouveau, há o valor elevado
de seu frete aéreo. O Beaujolais Nouveau só está disponível nos quatro cantos
do mundo na data marcada porque viaja de avião da França para o seu destino
final.
A
uva Gamay é delicada, de taninos finos e tende aos aromas frutados, gera
inclusive algumas expressões mais minerais, dependendo do ‘cru’, da
constituição de seu solo e clima da safra. Alguns bons exemplos desenvolvem-se,
melhorando tranquilamente, por 10 anos. Os famosos “crus” são:
● ST.
AMOUR: Região fresca, precisa de safras ensolaradas.
● JULIÉNAS:
Vinhedos altos dão grandes vinhos, considerados o máximo da qualidade.
Frutados, intensos, com taninos firmes e ótima acidez, perfeitos para guardar.
● CHÉNAS:
Seu nome vem dos “chênes” (carvalhos) que cresciam na área. Vinhedos sobre
granito. Os de safras mais maduras agüentam um tempo de guarda.

●
FLEURIE: Exuberante, cheio de fruta e fácil de beber.
● CHIROUBLES:
Fica pronto cedo, é leve e delicado.
● RÉGNIÉ:
Solo leve, granito arenoso. Vinhos leves, aromáticos, delicados. Quanto mais ao
sul, mais leves.
● MORGON:
Aromas generosos de cereja e morango, com acidez marcada e refrescante. Esse
vinho passa por barricas de carvalho e ao contrário de outros Beaujolais,
atinge seu apogeu 05 anos após a colheita.
● BROUILLY:
Maior produção de vinhos da região. Variam devido ao tamanho da AOC. Simples,
mas com boa estrutura.
● CÔTE
DE BROUILLY: Um pouco superior aos Brouilly. Frutados, ricos e vinosos.
O
interessante é que alguns produtores do Beaujolais estão alterando o processo
de produção passando a vinificar a Gamay como se fosse uma Pinot Noir na Borgonha,
e passando o vinho até mesmo por barricas de carvalho. O resultado é que o
vinho fica muito melhor e chama a atenção dos paladares mais exigentes. E como
os Borgonhas estão com preços pelas nuvens, abre-se uma brecha no mercado para
estes vinhos. Creio que em breve estaremos bebendo mais Beaujolais e parte da
imagem pejorativa do vinho vai ficar no passado.
Fica então a pergunta
- vale a pena provar o Beaujolais Nouveau de 2016? Eu penso que sim, pois só se
pode opinar sobre aquilo que já bebeu-se! Nunca espero concentração,
complexidade ou sedução num Beaujolais Nouveau. Procure por frescor, frutado,
taninos macios e uma idéia que a vida pode ser mais bela, sem tanta
preocupação. Afinal, não se pode levar tudo tão a sério que não se possa
desfrutar de um vinho, pelo simples prazer de bebê-lo !






