“ OS VINHOS DE COLHEITA DE INVERNO NO MAPA DO VINHO NO
BRASIL ”
– Poucas
pessoas conhecem o país vinícola chamado Brasil. Muitos acreditam que os vinhos
nacionais carecem de qualidade. Para avaliar esta questão, criamos uma série de
artigos sobre a evolução da cultura do vinho na sua história mais recente,
desenhando um mapa geral. Hoje falaremos do OS VINHOS DE COLHEITA DE INVERNO.
Em
1819, em sua expedição às nascentes do Rio São Francisco, o botânico francês
Auguste de Saint Hilaire percorreu as montanhas do Sul de Minas Gerais e
naquela época registrou “... a notável superioridade das uvas colhidas no
inverno, com relação às do verão ...”
Este
foi o mote que Dulce Ribeiro da Rex-Bibendi, que em BH representa a Zahil, usou
para criar um belo evento que reuniu praticamente a maioria dos profissionais
de vinho de Belo Horizonte, sejam restauranteurs, sommeliers, jornalistas e
blogueiros. A ideia era mostrar como estão bem evoluídas as propostas de
vinícolas que colhem suas uvas no inverno.
Em todo o mundo, o
ciclo da uva é parecido: poda no inverno, colheita no verão. Entretanto, na
maioria das regiões vitícolas brasileiras o período de colheita das uvas
coincide exatamente com o período das chuvas – o verão –, o que sem dúvida
afeta negativamente a qualidade das uvas no processo de maturação,
comprometendo a qualidade dos vinhos resultantes, especialmente os vinhos
tintos.
Além disto, temos que
lembrar que os dias chuvosos ou com alta nebulosidade, aliada às temperaturas
ambientais elevadas prejudica não só a maturação das uvas, como compromete a
sua sanidade, por conta da ocorrência de inúmeras doenças fúngicas nos cachos. Em
Minas Gerais esta condição adversa normalmente ocorre e por conta de estudos e
trabalhos realizados em cooperação entre a Empresa de Pesquisa Agropecuária de
Minas Gerais (Epamig) e produtores de uva da região sul do Estado descobriu-se
o potencial para a elaboração de vinhos finos, uma vez que as melhores regiões
produtoras de vinho do mundo reúnem as mesmas condições climáticas, na época da
colheita, encontradas no inverno do sul de Minas, com dias ensolarados, baixas
temperaturas à noite e pouca chuva.
Para
fugir das chuvas no período da colheita é preciso investir na inversão do ciclo
da videira, fazendo um manejo de podas diferenciado, para que a planta possa maturar
e ser colhida no inverno. Basicamente, são feitas duas podas: uma em agosto e
outra em janeiro. A primeira poda, em agosto, é feita para a formação de ramos
produtivos. Em janeiro, faz-se a poda efetiva de frutificação. A planta, então,
começa a brotar em fevereiro, floresce em março e em abril os cachos começam a
se formar.
Nas
regiões vitícolas do sul do País, alterar o ciclo da videira não é possível em
função das baixas temperaturas dos invernos. Nas regiões do Nordeste, com
temperaturas excessivamente elevadas, não ocorre amplitude térmica entre noite
e dia. Essa é uma vantagem do Estado de Minas Gerais e regiões vizinhas no
estado de São Paulo.
Os experimentos com a
inversão do ciclo da videira tiveram início há mais de dez anos e tem um nome
por trás destes projetos – Murillo de Albuquerque Regina, o pesquisador da
Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) que foi o primeiro a
aplicar a técnica que altera o ciclo natural das videiras, por meio da dupla
poda, com o objetivo de produzir uvas Vitis viníferas na região cafeeira de
Minas Gerais, entre 800 e 1.000 metros de altitude.
Vários projetos têm
sido implantados pela iniciativa privada em praticamente todas as macrorregiões
geográficas mineiras e estados vizinhos, em escala variável, de 1 a 50
hectares. Há novos plantios de Vitis viníferas em Alfenas, Andradas, Araxá,
Andrelândia, Baependi, Cordislândia, Delfim Moreira, Diamantina, Santana dos
Montes, Santo Antônio do Amparo, Varginha, Santa Luzia, São João Batista do
Glória, Três Pontas.
E além de Minas
Gerais, a Epamig tem apoiado diretamente outras iniciativas de produção de
vinhos finos em andamento nas cidades de Espírito Santo do Pinhal, interior de
São Paulo, bem como Divinolândia, Itobi, Indaiatuba e Louveira, outras cidades
paulistas com cultivos experimentais de uvas pelo ciclo invertido.
O deslocamento do
ciclo da planta através da poda permitiu maior avanço na maturação das bagas
com reflexos positivos na composição físico-química dos vinhos. Além disso, os
vinhos elaborados a partir de uvas colhidas no inverno apresentam maior
conteúdo de compostos fenólicos e índice de cor, além de não haver necessidade
de adição de açúcar (com o objetivo de elevação no teor potencial de álcool).
Estas condições conferem maior qualidade ao vinho e maior potencial de guarda.
No
meio de tanta informação técnica, falemos um pouco dos vinhos que tivemos
oportunidade de provar nos stands das vinícolas presentes:
♦ CASA VERRONE – instalada em
Divinolândia, no estado de São Paulo, com vinhedo cultivado na Serra da
Mantiqueira, onde a altitude tem peso importante na qualidade final do produto.
O solo apropriado, o clima favorável e as uvas especiais tornam nosso vinho uma
bebida para quem aprecia uma linha de produtos de alta qualidade.
Marcio Verrone, da Casa Verrone, é engenheiro
agrônomo cujo principal negócio é a venda de defensivos agrícolas (o que soa
polêmico para um produtor de vinhos). Ele entrou no mundo das uvas em 2008,
quando teve o primeiro contato com a Epamig e conheceu Murillo Regina. Começou
a plantar suas vinhas em 2009, e hoje tem 20 hectares onde produz Pinot Noir e
Chardonnay, Syrah, Viognier, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Sauvignon
Blanc.
A vinificação é feita
na Epamig e produz vinhos para paladares exigentes, finos e diferenciados. Estavam
à prova o Espumante Casa Verrone, o Casa Verrone Chardonnay (que foi campeão na
5ª Edição da Grande Prova de Vinhos do Brasil), o Casa Verrone Rosé de Syrah e
o Casa Verrone Syrah.
♦ LUIZ
PORTO - A Luiz Porto Vinhos Finos está localizada no Sudeste, no paralelo
25-Sul, a 800m de altitude em região de transição entre mata atlântica e
cerrado, na cidade de Cordislândia/MG. A família sempre atuou nas tradicionais
expressões do agronegócio mineiro: cultivo de café e pecuária leiteira, além da
criação de cavalos da raça Mangalarga Marchador.
O vinho era uma paixão
do fazendeiro Luiz Porto, que decidiu diversificar o portfolio de produtos Luiz
Porto, com investimento na vitivinicultura. A área plantada é de 15 hectares.
As mudas foram importadas da França, sendo as brancas chardonnay e sauvignon
blanc, e as tintas merlot, cabernet sauvignon, syrah, tempranillo, pinot noir e
cabernet franc. A cantina foi montada para quarenta mil garrafas/ano, com
equipamento italiano. Produzem duas linhas de vinhos: a linha "Dom de
Minas" com quatro varietais: syrah, cabernet franc, merlot e sauvignon
blanc, além de um espumante, elaborado pelo método champenoise todos com boa
tipicidade.
Uma linha de vinhos maturados
em barricas de carvalho francesas e americanas – Luiz Porto, é uma homenagem ao
patriarca falecido precocemente.
Durante o evento
estavam à prova o Dom de Minas Sauvignon Blanc, o Cabernet Franc, o Syrah e oo
Merlot. Da linha Luiz Porto estavam à disposição: Luiz Porto Espumante Brut,
Espumante Demi Sec, Chardonnay, eo Cabernet Sauvignon. O LUIZ PORTO Espumante
Brut apresenta ótimo frescor, elaborado pelo método tradicional (champenoise),
obtido de um vinho base formado pelo corte entre chardonnay e pinot noir. O
resultado é um espumante de bolhas finas, com cor amarelo-palha, com leves tons
esverdeados. Os aromas lembram frutas cítricas e amarelas. No paladar é fresco
e cremoso.
♦ MARIA MARIA – A vinícola Maria Maria
(Fazenda Capetinga), está instalada em Três Pontas, contando com dez hectares
com 21 mil pés de syrah, 8 mil de sauvignon blanc, 4 mil de cabernet sauvignon,
além de chardonnay.
As
uvas são levados para Caldas, no estado de Minas Gerais, onde a Epamig (Empresa
de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais) dirige um centro de produção. O
produtor do Maria Maria é Eduardo Junqueira Nogueira Júnior, um cervejeiro
assumido, que iniciou seus passos no mundo do vinho após ouvir do médico os
benefícios desta bebida ao coração. A saúde não estava muito boa e era preciso
mudar!
Inspirado nos versos
da canção homônima de Milton Nascimento, no meio dos seus cafezais, plantou as
primeiras videiras e hoje colhe seus frutos. Eduardo Junqueira faz parte da
quinta geração de uma das famílias mais tradicionais no plantio de café em
Minas Gerais. Administra cerca de 600 hectares de pés de café, além das
plantações de trigo, soja e alface.
Apesar de serem
novos, os vinhedos demonstram grande potencial. O solo argiloso local favorece
aos vinhos brancos e também na produção de tintos de boa qualidade aliado à um
inverno com amplitude térmica e seco, com pouca ocorrência de chuvas, ocorrendo
cultura da vinha com poda invertida.
Já havia provado o
Syrah, e conheci o Rosé e o Sauvignon Blanc. O branco é simplesmente
sensacional - cor amarelo citrino com reflexos esverdeados e aromas de frutas
brancas e cítricas mais frescas envoltos por típicas notas vegetais e herbáceas
da Sauvignon Blanc, toques florais, minerais e leve defumado. No paladar, é
frutado, com bom volume de boca, acidez refrescante e final médio/longo
agradável. Bem feito, gostoso e fácil de beber.
♦ ESTRADA
REAL - As primeiras mudas, importadas da França, foram plantadas no Sul de
Minas em 2001, na Fazenda da Fé. O proprietário, Marcos Arruda Vieira,
conhecido pela produção de café e leite, reservou 1 hectare para testes com
quatro variedades de uva - a shiraz foi a que teve a melhor adaptação. Três
anos depois, teve início a colheita. O vinho Primeira Estrada é um shiraz
elegante, com bom frescor e equilíbrio. O vinho 2014 ganhou o título de Campeão
na 5ª edição da Grande Prova de Vinhos do Brasil, da qual tive oportunidade de
participar do juri.
Vinhos da Rex Bibendi premiados na 5° Edição da GRANDE
PROVA DE VINHOS DO BRASIL: ● Chardonnay Speciale2015 - Casa Verrone
● Primeira Estrada Syrah 2014 - Estrada
Real
● Virtus Espumante Brut Rosé -
Monte Paschoal
● Espumante Prosecco
- Monte Paschoal
● Reserve
Tempranillo 2012 - Monte Paschoal.
A Grande Prova de Vinhos Brasileiros reuniu mais de 110 vinícolas
nacionais e 850 rótulos, provados e selecionados em degustações às cegas.
Vale a pena lembrar
de mais um nome, que já nos surpreendeu há alguns anos atrás com um Prosecco
sensacional – a Casa Geraldo - com vinhedos no Rio Grande do Sul e em Minas e
uma produção anual de 2,6 milhões de litros – que pretende ampliar sua oferta
de bebidas finas, reservando 17 000 videiras em Andradas para testes com o novo
manejo.
Não há dúvida que o otimismo geral durante a
mostra na Rex-Bibendi era enorme e mostrou o grande potencial dos vinhos de
colheita de inverno. Aproveite e prove-os !!!