Escrevi o artigo “A UVA TANNAT “ - A Tannat é
uma uva tinta da família da Vitis Vinifera originária do sul da França e hoje é
a casta emblemática do Uruguai. Cria vinhos de muito caráter, bastante corpo e
estrutura, muito tanino (aliás, é daí que vem o nome Tannat), com grande
intensidade de cor, aromas deliciosos de frutas escuras e chocolate, com ótima
concentração e excelente capacidade de envelhecer. Ela costuma entrar sozinha
na produção de tintos encorpados e também são comuns os cortes com outras uvas.
A origem da Tannat é o Madiran, no centro da região
sudoeste da França. Uma uva tinta de forte carga tânica encravada na melhor
região produtora de brancos do sudoeste Francês, Pau e Jurançon. Mas, nesta
região, entre as tintas, reina absoluta a Tannat. Junto com a Baga, originária
da Bairrada, Portugal, são uvas de alta carga de taninos. Os vinhos elaborados
com esta casta, enquanto jovens são muito tânicos, ácidos e rústicos. Mas
lembrem-se que é uma uva com vocação para envelhecer com saúde. Assim como a
Tannat sul-americana, os vinhos de Madiran podem e devem esperar algum tempo
para aflorarem suas qualidades, passando de vinhos rústicos e duros para vinhos
aromáticos, gordos, algo fumado, agradáveis de longo retrogosto.
Não
por acaso, nasceu no Madiran a técnica da micro-oxigenação desenvolvida pelo
enólogo Patrick DuCournau e tão divulgada por Michel Rolland. Você não precisa
entender detalhes desse método (que consiste na aplicação de pequenas borbulhas
de oxigênio no mosto durante a fermentação nos tanques), mas saber que ele tem o
objetivo de amaciar os taninos, o que confirma o caráter marcante desta uva.
Foi
por volta de 1870 que o imigrante francês Don Pascual Harriage plantou as
primeiras videiras de Tannat no Uruguai, e só 200 anos mais tarde, porém, a
produção comercial ganhou impulso, fase em que os imigrantes bascos iniciaram o
cultivo dessa uva. O sucesso foi tanto que a Tannat tornou-se símbolo das
vinícolas do país e hoje ocupa um terço de toda a área plantada do país. No
total são cerca de 400 vinícolas no país, sendo que cerca de trinta delas têm
expressão internacional. Muitas são as variedades cultivadas no Uruguai. As
tintas representam 72% da área cultivada. Dentre as brancas, predominam a
Sauvignon e Chardonnay, com presença de Sauvignon Gris, Viognier e Riesling. Nas
tintas, pode-se escolher entre diversas cepas além da Tannat, como Cabernet
Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Tempranillo, Shiraz e Petit
Verdot.
A
Tannat uruguaia, também conhecida no país como Harriague, referência a Don
Pascual, apresenta um estilo diverso do francês, devido às diferenças clonais e
de terroir. Com um clima marítimo temperado, o país é cercado por três grandes
volumes de água: Oceano Atlântico, rio da Prata e rio Uruguai, o que torna as
temperaturas noturnas suficientemente baixas para propiciar vinhos finos e com
frescor, e produz vinhos bem diferentes dos “primos” franceses.
No
geral, o vinho de Tannat uruguaio é menos agressivo e mais frutado que o
francês, mantendo as características de cor escura, com taninos marcantes, teor
alcoólico médio e afinidade com carvalho. Para moderar sua tanicidade, ela
costuma ser cortada no Uruguai com a Merlot ou com a Cabernet Sauvignon para
dar maior estrutura ao líquido. Seus aromas comuns lembram frutas vermelhas
maduras e o contato com carvalho proporciona toques de baunilha, coco,
chocolate, charuto, café, entre outros. Na boca geralmente apresenta grande
volume, com boa estrutura e finais de boca prolongados.
Lá,
foi o mercado que determinou a localização das principiais vinícolas, que se
instalaram perto de Montevidéu, com a maior concentração populacional do país,
e cerca de 84% da produção do país. Durante muito tempo, o mercado interno
absorvia quase toda a produção do país, que não se destacava muito em termos de
qualidade. O consumo interno é significativo (29,2 litros por habitante ano, o
13º do mundo), mas a exportação passou a ser crucial. O mercado brasileiro é o
maior cliente natural, e consome 50% do total exportado. Essa proporção pode
crescer, pois os vinhos costumam ter preços relativamente atraentes e a
qualidade vem evoluindo cada vez mais.
A
Tannat caiu como uma luva no Uruguai, pois é uma uva pródiga, aromática e seus
vinhos têm muito corpo. A planta dessa uva tem ciclo curto. No Uruguai costuma
chover na época da colheita, o que não é nada bom. As uvas que amadurecem mais
cedo são, naturalmente as mais adequadas. Pois podem ser colhidas antes do
período habitual de precipitações. As tardias, como a Cabernet Sauvignon não
são tão prezadas. Tannat e Merlot são relativamente precoces e se completam em
muitos cortes. No caso a Merlot entra para “amaciar” a Tannat a gerar vinhos
mais atraentes e suaves.
A
Tannat é rica em antioxidantes naturais, que ajudam a prevenir doenças, entre
elas alguns tipos de câncer. Já foi descoberto por meios de pesquisas
realizadas por médicos, que a casta Tannat é rica em revesratrol, substância
muito encontrada em vinhos tintos que é extremamente benéfica para a saúde,
auxiliando na redução do mau colesterol e no combate ao câncer. A uva já ocupa
1/3 dos vinhedos do Uruguai – um volume duas vezes maior do que em sua terra
natal na região de Madiran, no sudoeste da França.
Há
pessoas que associam a Tannat a vinhos duros e ácidos, o que de certa forma
estão certas, pois os que não passam por madeira e não têm o cuidado
necessário, desde a videira, são assim mesmo. O contrário é verdadeiro, os
vinhos bem cuidados, desde as vinhas, passando por barricas e com os taninos
perfeitamente lapidados geram rótulos
redondos e com grande estrutura, podendo ser guardados por mais de uma década
para harmonizar os pratos de inverno. São vinhos bem elaborados, elegantes e são ótimo acompanhamento para as
carnes, como nos churrascos. Para muitos críticos gastronômicos, os vinhos da
Tannat também são excelente acompanhamento para pratos condimentados como uma
feijoada.
A
explicação para o sucesso destas harmonizações é simples: o segredo é a forte
carga tânica que esta uva traz consigo. Os taninos combinam com gordura.
Portanto, um item que aproxima a Tannat
da culinária típica de inverno, como o tradicional churrasco, carnes assadas,
pratos baseados de carne de ovelha e outros bastante encorpados e
condimentados. Os vinhos feitos com a Tannat são ideais para combinar sua
estrutura com a culinária gaúcha.
O
sucesso da casta Tannat induziu outros países a trabalharem com a uva. O Brasil
produz ótimos vinhos, se destacando pela sua qualidade, vem ganhando espaço nos
vinhedos da Região Sul. Ela chegou pela Campanha, nos anos 1970. Por muito
tempo, nos dois países a casta foi símbolo de aspereza e rusticidade na
garrafa. Mas, com o tempo, nos dois países a casta começou a dar origem a
versões mais amenas da bebida. Também podemos encontrar a casta em outros
países como Argentina, África do Sul, Austrália, Itália e Estados Unidos.