“ UM MOMENTO CERTO PARA CADA VINHO ! “ - Muitos amigos leitores me perguntam quanto
tempo devem esperar para abrir uma garrafa de um vinho especial? De forma
geral, as pessoas se lembram do ditado que diz: – “quanto mais velho melhor!”,
mas em certas situações, vemos que se demoramos demais para degustar um vinho,
ele poderá estar “descendo a montanha”, mostrando os primeiros sinais de sua
decadência.
Para
outros leitores, a pergunta fundamental é quanto tempo antes da degustação o
vinho deveria ser aberto? Se o vinho deveria ser decantado ou não? Cada vez mais explicamos aos amantes do vinho
que a decantação é uma operação usada para separar a borra que se formou no
vinho ao longo de seu período de envelhecimento na garrafa (o que é válido para
bons e grandes vinhos, mas não necessariamente verdadeiro quando se trata de
vinhos comuns para o dia-a-dia). Isto não representa demérito nenhum, mas pura
constatação que a grande maioria dos vinhos atuais, argentinos e chilenos, está
pronto para taça num prazo máximo entre 4 a 5 anos.
A
decantação é benéfica para vinhos jovens e potentes, abrindo seus aromas e
sabores rapidamente, dando mais prazer para quem não consegue esperar 30 a 40
minutos para começar a beber um bom tinto. Mas não se esqueça de sentir os
aromas nos primeiros momentos, afinal, como avaliar a evolução do vinho e sua
melhora, se não criarmos o parâmetro inicial? Em geral , em meia hora, o vinho
se abre e fica no ponto para a taça!
Muitas
vezes a dúvida é saber se é hora de beber um vinho comprado com todo carinho
numa viagem ao exterior, ou trazido como lembrança por um amigo ! Há vinhos que
classicamente devem ser decantados para abrirem seus aromas e separar borras,
pois estiveram fechados em garrafas por muitos anos, décadas. Quantas vezes,
pelo medo de desfazer uma bela coleção de vinhos, o tempo passa e determina o
ocaso de um tesouro, sem respeitar nomes de rótulos, denominações de origem,
produtores excepcionais, e não devidamente climatizados numa adega apropriada.
Muitas
destas perguntas que são enviadas por leitores interessados em obter o maior
prazer de suas taças, acabam sendo dependentes de uma palavra importante; o
tempo certo para cada vinho, a hora ideal para ser degustado, é RELATIVA.
As
safras podem variar de maneira catastrófica em países do Velho Mundo, onde as condições
climáticas variam substancialmente ao longo das estações e dos anos. Nos países
do Novo Mundo, estas mudanças climáticas são menores. Mendoza na Argentina, por
exemplo, se beneficia de um clima estável a maior parte do ano por estar aos
pés dos Andes (uma grande barreira natural), bem longe da influência do mar,
com média de três dias de chuva/ano, somando cerca de 200 a 280 mm de
precipitação anual, garantindo boa sanidade das vinhas, pois a umidade que
propicia o desenvolvimento de fungos e bactérias pode ser controlada. A irrigação
no caso é feita por uma intrincada rede de canais (chamados de aceros) que
trazem as águas do degelo dos Andes.
Há uma
grande diversidade de fatores que determinam por outro lado o momento ideal
para se abrir uma garrafa. Leve em conta a grande variedade de estilos de
vinhos, as castas que os produziram, mas isto não é uma regra simples, pois há
bons e médios produtores, há maneiras diferentes de armazenagem para a viagem
dos vinhos (containers climatizados ou não, viagens diretas ou com grandes
traslados). Isto tudo depende portanto da forma como as garrafas foram
armazenadas, sem esquecer da qualidade das rolhas.
A
questão da casta de uva que originou o vinho, idade média das vinhas, sistema
de vinificação, tempo de maturação e afinamento em garrafa também contam muito
nesta hora, sem esquecer a taça adequada. Quanto mais tenho tido a oportunidade
de degustar vinhos feitos há 15, 20 anos, mais observo a questão. Neste ano de
2015, tive a oportunidade de degustar por duas vezes, em ocasiões diferentes,
vinhos fraceses de 1997 e um espanhol de 1917. E como estavam ótimos ! No
esplendor de sua vida, no momento certo para serem aproveitados ao máximo.
Guardados por muitos anos na garrafa, estavam excelentes (decantados para
separar a borra e ir sentindo a evolução deles na taça).
O
raciocínio é válido para a maioria dos grandes clássicos franceses, italianos e
portugueses. Evidentemente, há certos tipos de vinhos que estão prontos para
serem degustados e já são excelentes tão logo que vão para o mercado, como os
brancos frutados Sauvignon Blancs chilenos, ou os Malbecs argentinos em sua
maioria próprios para o dia-a-dia. Bebê-los em sua juventude será o ideal. Eles
são feitos para isto.
Um bom
estudo de todas as características da uva, região produtora, qualidade do
produtor, importador, ajudarão a saber quanto tempo o vinho poderá precisar
para expressar todo o seu auge. Lembro que muitas vezes o conjunto vinho, taça,
temperatura correta de serviço e harmonização é muito mais importante do que
pensamos.
Quantos
de nós não determina que um vinho só possa ser degustado quando um fato
especial acontecer: Quando o time for campeão de futebol, ou não for
rebaixado!. Quando o filho formar em Direito, ou a filha se casar ! Nascer o primeiro
neto ! São tantas as oportunidades especiais! A vida passa rapidamente, e a
cada dia percebo que perdemos oportunidades maravilhosas de passar os melhores
momentos com as pessoas que amamos.
Se
você escolher que esta é a hora para beber aquele vinho especial, faça-o em
grande estilo. Nada é eterno!. Compartilhar a vida em cada taça de vinho, com
os melhores amigos, ou num momento de reflexão, tornando cada momento um
instante especial parece-me a melhor política. A vida é muito curta para se
beber maus vinhos! Para se fazer a colheita, elaborar vinhos, ter Denominação
de Origem, há muitas regras; para
apreciar um bom vinho há uma única regra: faça-o com gosto, aproveite o
momento, divirta-se, tenha uma boa taça
e um bom motivo... deguste!