terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

ROMANÉE-CONTI , O VINHEDO ONDE NASCE UM VINHO MÍTICO




ROMANÉE-CONTI , O VINHEDO ONDE NASCE UM VINHO MÍTICO

A história da Domaine de la Romanée-Conti é tão rica quanto longa. São onze séculos de registros que remontam aos monges da Ordem de St. Vincent, no século X. A propriedade teve vários donos até ser adquirida pelo príncipe de Conti, que acrescentou seu nome ao vinhedo. Na Revolução Francesa foi confiscada e, em 1794, foi leiloada e trocou de mãos por diversas famílias até que Duvault-Blochet adquiriu a propriedade e anexou os vinhedos de Richebourg, Échézeaux e Grands-Échézeaux, em 1896.  Aubert de Villaine, um remanescente desta família, está à frente do vinhedo até os dias de hoje.

Em 1942, por conta de dificuldades enfrentadas na II Guerra, parte do vinhedo foi vendido à família Henry Leroy, um negociante da região. Em 1946, as vinhas foram atacadas pela praga da philoxera e todo o vinhedo foi arrancado e replantado. Entre 1946 e 1951 não foram lançadas safras de Romanée-Conti. Em 1952 a colheita foi reiniciada e os primeiros resultados foram decepcionantes.

De lá para cá, na medida em que o as garrafas se tornaram disputadas por amantes de vinhos finos, brigas entre as famílias proprietárias foram constantes, até que Aubert de Villaine tornou-se, a partir de 1992, o principal responsável pelos vinhos da Domaine, quando a parceria com outro mito da Borgonha, Lalou Bize-Leroy, foi encerrada.

Aubert de Villaine tem a dimensão do que seus vinhos representam para a França e para o mundo. Ele é adepto da prática orgânica desde 1986 e mais recentemente da biodinâmica, aquela que rejeita o uso de defensivos químicos e acredita na influência dos astros sobre as vinhas. Uma equipe permanente de 25 funcionários trabalha no vinhedo usando tração animal no tratamento do solo. Para ele, num terroir perfeito como a Domaine de la Romanée-Conti  o melhor é a menor interferência possível.

Para quem participar do Roteiro Enogastronômico pela Borgonha, Alsácia e com uma pitada do Jura, no dia 5 de junho estaremos visitando este vinhedo, de onde nasce um vinho mítico.

A BORGONHA E SUAS ABADIAS



A BORGONHA E SUAS ABADIAS

A Borgonha foi berço de importantes ordens religiosas. Duas delas tiveram papel relevante na história da cristandade e do vinho, consagrado como o sangue de Jesus.
Na sociedade medieval, o Clero tinha grande poder econômico, influência e privilégios impares. As ordens religiosas recebiam grandes doações de terras e bens (inclusive vinhedos), eram os abades que exerciam cargos administrativos, as ordens estavam isentas do pagamento de impostos (assim como a nobreza), tinham seus próprios tribunais e dedicavam-se à cultura e ao saber.

A Abadia de Cluny, na Borgonha, hoje em ruínas, transmite uma sublime mensagem, porque essa foi habitada pela “alma da Idade Média”. Foi fundada em 910 pelo Bem-aventurado Bernon em terras doadas pelo Duque da Aquitânia, Guilherme o Piedoso. Nesta Abadia viveram quatro grandes Abades santos — Santo Odon, São Maïeul, Santo Odilon e São Hugo.

Com Bernon, vieram alguns monges, os primeiros religiosos da nova abadia, que se enquadrava no projeto de reforma religiosa promovida por Bento de Aniane (750-821), o qual pretendia unir todos os mosteiros da Europa Ocidental sob a observância da Regra Beneditina. Por esta filiação, se constata o papel que Cluny desempenhou na difusão da reforma da Igreja mais tarde lançada de forma empenhada pelo papa Gregório VII (1073-1085), a denominada "reforma gregoriana". Cluny estava diretamente sujeita à Santa Sé e na época do seu apogeu, Cluny congregava mais de 1180 mosteiros dependentes na Europa, dos quais mais de 800 só na França. Depois da segunda metade do século XII, a abadia e a ordem de Cluny entraram em declínio, causado principalmente pelo aparecimento de outras ordens monásticas, como os Cistercienses, ou ordens mendicantes (como os Franciscanos, Dominicanos), além de cônegos regulares.
Cluny foi destruída pelo furor dos adeptos da Revolução Francesa a partir de 1789, restando apenas suas ruínas e sua história.

A origem da Ordem de Cister remonta à fundação da Abadia de Cister (em latim, Cistercium; em francês, Cîteaux), na comuna de Saint-Nicolas-lès-Cîteaux, na Borgonha, em 1098, por Roberto de Champagne, abade de Molesme. Ele e alguns companheiros monges, deixaram a congregação monástica de Cluny para retomar a observância da antiga regra beneditina, como reação ao gigantismo e desvio dos objetivos iniciais da Ordem de Cluny.
A ordem de Cister teria um papel importante na história religiosa do século XII, vindo a impor-se em todo o Ocidente por sua organização e autoridade. Uma de suas obras mais importantes foi a colonização da região a leste do Elba, onde promoveu simultaneamente o cristianismo, a civilização ocidental e a valorização das terras.
 
Para muitos, São Bernardo é o pai da Ordem Cisterciense, mas, ao ingressar em Cister, fundado em 1098, encontrou um grupo de monges com um projeto bem determinado. Tratava-se de um mosteiro reformado, como muitos de seu tempo, em que se procurava viver a vocação monástica de uma forma mais autêntica, sem compromissos com o mundo, seus negócios e interesses, buscando só a Deus na pobreza, no despojamento, no trabalho das próprias mãos, no silêncio e na oração.

Os cistercienses seguiam a Regra de São Bento, escrito que reflete a sabedoria espiritual daquele que é considerado o patriarca dos monges do Ocidente e que viveu na Itália, no século VI. O pequeno núcleo de Cister desenvolveu-se rapidamente, chegando a ser uma grande influência na Igreja, pouco tempo depois de sua fundação. São Bernardo teve um relevante papel na expansão e difusão da Ordem e de sua espiritualidade no século XII.
O importante é que foram os monges destas Ordens que espalharam as videiras pela Europa, uma vez que a atividade era ligada a alimentação dos monges além da consagração do serviço religioso. Os mosteiros se tornaram verdadeiras vinícolas, seja pelas práticas de condução dos vinhedos, de vinificação e berçários de difusão de mudas  de videiras.

Para quem participar do Roteiro Enogastronômico pela Borgonha, Alsácia e com uma pitada do Jura, uma bela oportunidade de conhecer parte desta rica história religiosa. No dia 04 de Junho visitaremos a Abadia CLUNY.  No dia 07 visitaremos a Abadia Cisterciense de FONTENAY onde provaremos um exclusivo almoço e no dia 08 provaremos os famosos queijos elaborados pelos monges da Abadia de CISTER.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

ALSÁCIA, ONDE A FRANÇA É MAIS ALEMÃ ...




ALSÁCIA, ONDE A FRANÇA É MAIS ALEMÃ .... ” - A Alsácia é sem dúvida uma região diferenciada na França. A descrição de sua arquitetura, em grande parte repleta de casinhas em “enxaimel*”, sua gastronomia e vinhos lembram muito mais a Alemanha. Situada entre as margens do rio Reno, a leste, que delimita hoje a fronteira franco-alemã, e a cordilheira de Vosges, a oeste, a Alsácia tem uma história conturbada, pontilhada de guerras e conflitos, o que fez com que fosse considerada, por várias vezes e de forma alternada, território alemão e francês. Não é à toa que grande parte dos sobrenomes dos produtores soa muito mais alemão do que francês !

A história nos fala que entre os anos 962 e 1648 a região fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico, que a cedeu para a França, pelo Tratado de Westfália, a parte sul de seu território. Pouco mais tarde, em 1681, a parte setentrional, onde se situa Estrasburgo, foi também anexada ao território francês, e desta forma, durante um longo período (até 1871), a Alsácia juntamente com a Lorena, foram partes integrantes da França.
Quando a França, em 1871, perdeu a guerra contra o Império Alemão, a região voltou ao domínio teutônico, só voltando a ser território francês em 1919, com a vitória dos aliados na I Guerra Mundial, pelo Tratado de Versalhes.
A Alsácia permaneceria francesa até 1940, quando as forças do III Reich invadiram a região e a anexaram. A retomada francesa viria em 1945, com a derrota alemã. Hoje a Alsácia é uma de suas regiões mais ricas e de extrema importância política e econômica, lembrando que se situa em Estrasburgo a sede do Parlamento Europeu.
A Alsácia possui desta forma uma forte identidade cultural, às vezes francesa, às vezes alemã, o que torna a visita a essa belíssima região, arduamente reconstruída depois da destruição da Segunda Grande Guerra, uma experiência extremamente rica, curiosa, e porque não dizer “imperdível”.

● O VINHO NA ALSÁCIA - A Alsácia é uma região de grandes brancos, todos muito característicos, que não encontram paralelo em nenhuma outra região do mundo. Resumidamente, as castas principais são a fantástica Riesling, a exótica Gewürztraminer, a Pinot Gris e a Pinot Blanc, todas adquirindo aqui um caráter único e especial. São vinhos que podem ser muito finos, complexos e de grande classe. Os mais simples são refrescantes e saborosos, combinando muito bem com peixes e frutos do mar. A região também produz alguns bons Pinot Noir e, no caso de alguns produtores, fantásticos vinhos de sobremesa, além do reputado espumante Crémant dAlsace.
Região produtora de vinhos da Alsácia se estende por 110 km desde a cidade de Thann, perto da fronteira suiça, até Marlenheim, ao norte, próximo de Estrasburgo. A região se divide em duas sub-regiões: Alto Reno e Baixo Reno.
Percorrer a chamada “Rota do Vinho”, que corta todo o território, e visitar suas encantadoras cidades medievais e seus vinhedos realmente vale a pena. Colmar, Turkheim, Riquewir, Ribeauvillé, Selestat, Obernai e finalmente Estrasburgo, a metrópole regional, com todos seus encantos e sua rica vida cultural e gastronômica.
A variedade de microclimas e solos que se encontra pelo caminho é enorme, o que possibilita ao “vigneron” alsaciano adaptar da maneira mais sábia as uvas regionais aos terrenos mais adequados. O peso do conceito de terroir é aqui levado tão a sério quanto na Borgonha, e o resultado são vinhos brancos de grande caráter, equilíbrio e fineza. Granito, argila, calcário, areia, greda, são os elementos que constituem esse rico mosaico de terrenos, fruto do desmoronamento de partes das montanhas do maciço de Vosges e da Floresta Negra, ocorrido há cerca de 50 milhões de anos.
Na semana que vem continuamos com o tema falando sobre as uvas aqui cultivadas, bem como sobre os grandes produtores da Alsácia.

*Enxaimel - O Enxaimel, como nós o conhecemos, é um momento na história que as casas deixaram de usar estacas fincadas no solo para dar estabilidade à estrutura. As madeiras passaram a usar encaixes para formar estruturas rígidas para somente depois, serem preenchidas com paredes e esta se tornou a sua maior característica. O telhado inclusive deve ser colocado antes de preencher os vãos, para que seu peso torne a estrutura mais firme.
Muitas pessoas pensam que o Adobe é Enxaimel. Adobe são vários tijolos empilhados formando gradativamente a estrutura da casa. As colunas de madeiras existentes são apenas apoiadas e usadas mais como batentes de portas e janelas.
O enxaimel continua sendo usado da mesma forma há 2000 anos, sendo característico da Alemanha, onde passou por grandes mudanças e aperfeiçoamentos, influenciando os períodos Gótico, Renascimento, Barroco e Romântico e ainda hoje segue evoluindo em técnica e conceitos.

SANCERRE GUY SAGET 2012



Vinho da Semana 07/2015 ● SANCERRE GUY SAGET 2012 – LOIRE – FRANÇA - O Loire produz alguns vinhos brancos de grande charme, combinações perfeitas para peixes e frutos do mar. Para muitos, a casta Sauvignon Blanc atinge aqui seu auge, nas denominações de Pouilly-Fumé e Sancerre. O Vouvray, o Savennières e o Muscadet também são saborosos e de um frescor irresistível. Nos tintos, reina a casta Cabernet Franc e vinhos como o Chinon, são cheios de fruta.
 O Sancerre é um dos mais celebrados, deliciosos e tradicionais brancos da França, elaborado no Loire com a uva Sauvignon Blanc. Bastante aromático e refrescante, com um toque levemente defumado, cheio de charme. Um clássico para acompanhar mariscos, ostras e frutos do mar. A família SAGET começou sua história dedicada à vinha e ao vinho em 1790. Atualmente a nona geração está a frente dos negócios, sendo que Jean-Louis assumiu a casa da família há 20 anos, ampliando o Domaine instalado em Pouilly-sur-Loire, para além da denominação. Seus rótulos de Sancerre e Pouilly-Fumée estão reconhecidamente entre os melhores da região.
● Notas de Degustação: um vinho de cor amarelo claro, cristalino. No nariz aparecem aromas de maçã verde, frutas cítricas (limão) e abacaxi branco, nota floral e vegetal, com toque ao fundo defumado, mineral, como pedra de isqueiro. No paladar mostra bom ataque ácido, dando frescor imediato e convidando ao segundo gole. Longo e prazeroso final de boca. Faz salivar bastante. Fácil de beber e de gostar.
● Estimativa de Guarda: Não guarde, beba aproveitando os dias quentes de verão, ou à beira da piscina, mas este não é um vinho despretencioso, merecendo acompanhamento de comida.
Notas de Harmonização: Frutos do mar, mariscos e peixe, além de carnes brancas e queijo de cabra. Vai muito bem com cozinha japonesa (sushi, sashimi). Sirva gelado entre 8 a 10ºC.
Onde comprar: MISTRAL - Rua Cláudio Manoel, 723 - Savassi - BH. Tel.: (31) 3115-2100

MADEMOISELLE DE T CHATEAU DE TRACY POUILLY-FUMÉ 2012



Vinho da Semana 07/2015 – MADEMOISELLE DE T CHATEAU DE TRACY POUILLY-FUMÉ 2012 – LOIRE – FRANÇA - Clássica denominação da uva Sauvignon Blanc no Loire, dá origem a vinhos cultuados, brancos secos, minerais, profundos, refrescantes. Didier Dagueneau foi um mito da região, morto precocemente, em 2008, em acidente de ultraleve, mas outros produtores seguem seu caminho. As uvasdo Chateau de Tracy são provenientes de videiras de 5 anos de idade conduzidas sobre a filosofia da ''lutte raisonée*'', prezando pelo tratamento orgânico nas vinhas e com o mínimo de intervenção química. O rendimento foi de 43hl/ha. Prensagem pneumática, com rápida maceração pelicular. Vinificação por parcelas em temperaturas controladas. Amadurecimento sobre as lias finas, com posterior colagem e filtração grosseira. Amadurece 8 meses sobre as lias finas no inox, com periódicas bâtonnages.
 ● Notas de Degustação: Amarelo-palha brilhante, com reflexos verdeais. Aromas com notas cítricas (limão), esfumaçado e toques de flores brancas. No paladar mostra uma acidez bem delineada e permeada de frutas cítricas. Típico e de apaixonante equilíbrio, num vinho muito elegante e complexo.
● Estimativa de Guarda: eu beberia de imediato, pensando na nota de frescor e fruta de boa intensidade, sem pensar em guarda prolongada. Entretanto, o vinho agüenta fácil 5 anos.
Notas de Harmonização: Frutos do mar, mariscos e peixe, além de carnes brancas e queijo de cabra. Vai muito bem com cozinha japonesa (sushi, sahimi, etc.). Sirva gelado entre 8 a 10ºC.
Reconhecimentos: GUIDE HACHETTE 2012: 3 estrelas em 3 GILBERT & GAILLARD: 88 Pontos.
Onde comprar: Em BH - Enoteca Decanter - Rua Fernandes Tourinho, 503 – Funcionários – Belo Horizonte / MG. Telefone: (31) 3287-3618. Royal Vinhos - Loja Cruzeiro - Uma tradicional adega, localizada no Mercado do Cruzeiro. End.: Rua Ouro Fino, 452 - Lojas 22 e 23 / Bairro Cruzeiro - Mercado Distrital – Tel.: (31) 3281-3539 - Belo Horizonte | MG

Vale a pena saber: ''lutte raisonée'' - A proliferação de fertilizantes sintéticos, pesticidas, herbicidas e fungicidas na década de 1950 tornou a França o maior consumidor de fito-químicos na Europa. A subsequente degradação do solo se seguiu, matando as formas de vida microbianas necessárias que suportam os solos saudáveis. Lutte raisonnée, "luta fundamentada" literalmente (em francês), ou "controle supervisionado" (em Inglês), é uma reação ao uso de tais produtos químicos, considerada como uma abordagem pragmática para a agricultura, onde os tratamentos químicos são feitos apenas quando absolutamente necessário.
A biodiversidade nas vinhas é incentivada por meio do plantio de culturas de cobertura, aração rigorosa dos solos, bem como a utilização de adubos e compostos naturais para fertilizar as videiras. Alguns produtores usam isso como um primeiro passo para a agricultura biológica completa. Outros acham que é um meio termo entre os métodos convencionais e as exigências mais restritas ditadas pelas agências certificadoras orgânicas.
Há um amplo espaço de interpretação relativa destes métodos. Alguns agricultores trabalham através de agências de certificação, como a Terra Vitis, na sequência de um conjunto específico de especificações e requisitos. Outros fazem de forma independente, seguindo metodologias orgânicas, e reservando tratamentos apenas quando as condições são ótimas (por exemplo, quando não há vento).
Zoólogos introduziram conceitos mais respeitadores do ambiente, tais como manejo integrado de pragas, ou “confusão hormonal”, o que impede a reprodução de determinadas pragas que ameaçam as videiras. A redução de sprays não só contribui para a saúde das vinhas e do próprio ecossistema, mas também para a saúde dos viticultores (que representam a maior porcentagem de casos de câncer entre os agricultores).