“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “QUEM É
REI NÃO PERDEU A MAJESTADE “ – Começo o artigo de hoje relembrando e me atrevendo a adaptar
um comum e recorrente dito popular: quem é rei não perdeu a majestade. Vou
adiante, caro leitor, perguntando-lhe o que há de comum entre o neorrealismo
onírico de Fellini, a literatura rica, brasileiríssima e peculiar de Guimarães
Rosa, a poesia heterônima e cativante de Fernando Pessoa, a música inovadora e
elegante de João Gilberto e Tom Jobim, o talento e perfeição do mestre Auguste
Escoffier, o néctar sagrado contido numa garrafa de um Romanée Conti e o nosso
querido Vecchio Sogno? Respondo: em todos os casos se tratam de
clássicos de comprovada competência em seu ramo de atuação e que, de uma forma
ou de outra, geraram frutos atemporais e, por isso, jamais (espero) se tornarão
obsoletos ou temas clichês.
Ao
contrário do que ocorre na maioria das casas ditas de alta gastronomia da
cidade, não há sinais de “super atenção” no atendimento. Toda brigada
demonstrou domínio sobre os itens do cardápio, bem como, eficiência e discrição.
O famigerado esnobismo, que vez ou outra encontramos em Lourdes, passou longe
da casa de Ivo Faria em todas as vezes que lá estive.
No
cardápio, o que não faltam são pratos típicos da culinária Italiana. De
qualquer maneira, a orientação clássica da cozinha da bota não impede que Ivo
Faria e sua equipe lancem mão, de maneira competentíssima, de ingredientes,
modos de preparos e de receitas da culinária brasileira e mineira. Ouso dizer
que, em terras mineiras, ali se faz a melhor fusão entre vertentes
gastronômicas. O melhor desta mistura pode ser provado optando-se pelo menu
degustação de 4 pratos (R$ 116,00), e foi o que fiz.
Como
entrada, o camarão estufado com palmito pupunha e cuscuz marroquino ao molho de
pitanga e dourado estava divino, todos os ingredientes com cocção e temperos
perfeitos, a textura do pupunha e do cuscuz complementaram com extremo bom
gosto o prato. Os andares de salmão com recheio de tomate e champignon, purê de
inhame, manteiga queimada, molho de abobrinha e azeitonas pretas estavam
corretíssimos, sendo que o inhame roubou a cena com seu sabor e textura
exuberantes.
Um pouco
abaixo do que já tinha sido provado, o lombo de cordeiro recheado com parma e
muçarela de búfala, risoto de castanhas portuguesas e molho de uva moscatel se mostrou um pouco
pesado e salgado. O uso do presunto poderia, certamente, ser descartado. De
outro lado, o saborosíssimo risoto e o molho agridoce deram um toque refinado e
delicioso ao prato.
Fechando o
jantar, o correto figo ao forno com recheio de caramelo e sorvete (Easy Ice)
três sabores (goiaba, queijo e creme) passou tímido. Ao excelente menu
degustação, faltou um “Gran Finale”. Apesar de não comprometer, a sobremesa não
demonstrou personalidade, sendo que a fruta passou despercebida ao lado dos
bons sorvetes, que também não chamaram a atenção. À parte do menu, vale à pena
provar a sensacional polenta trufada ao forno com ovo e molho de 3 funghis (R$
38,00), e o tradicional ossobuco de vitela com risoto parmigiano (R$ 68,00).
Aqui ressalto como é bom ver ovo num prato. Infelizmente, os chefs brasileiros,
de maneira geral, não exploram todo potencial que este ingrediente pode dar a
um prato. Ponto a Ivo faria que o fez com grande competência.
Apesar
de bastante premiada, não vi algo de muito criativo na Carta de Vinhos, achei
diminuta a oferta de rótulos por taça.
Entretanto, destaque deve ser dado aos muito bem servidos copos de
espumante, diferentemente do que se vê na maioria das casas, onde a taça é
preenchida, no máximo, pela metade, no Vecchio foram servidas quase
transbordando. No geral, há os nomes
mais comuns dos catálogos de Mistral, Decanter e Grand Cru. Apesar de termos um
consumo per capto, ainda muito tímido no Brasil, um restaurante como o Vecchio
Sogno merece uma seleção mais criativa e que privilegie, de maneira
consistente, os produtores nacionais e seus excelentes espumantes – não me
canso de bater nesta tecla. Nota-se também, que a casa pratica uma margem de
lucro maior do que um enófilo acharia atraente, inibindo o consumo de rótulos
de maior expressão. No quesito serviço de vinhos, tanto copos como o serviço do
sommelier agradaram bastante.
Ao
final de um ótimo jantar, assim como ao término de um grande filme, livro ou
concerto, fica claro que estivemos diante de clássicos, que, à parte de
modismos passageiros, mantêm sua assinatura, personalidade e estilos,
intactos. Não só em razão da
impressionante regularidade técnica demonstrada ao longo dos mais de 15 anos de
existência, como também, pela criatividade do cardápio, pelo eficiente e cortês
atendimento, e pelo ambiente extremamente refinado e de bom gosto, tenho total
tranquilidade em dizer que, sem sombra de dúvidas, o Vecchio Sogno de Ivo Faria
continua a ser o melhor restaurante de Minas Gerais, sendo justificadamente e
merecidamente um “hors concours” nas premiações gastronômicas existentes em Minas Gerais. Salute e buon appetito nel Vecchio Sogno Ristorante!
Avaliação: (**)
•
Atendimento: 14,20 / 15,00
• Apresentação e Estrutura da
casa: 12,95 / 15,00
• Comida: 38,45 / 40,00
• Cartas (cardápio e
vinhos/bebidas): 11,90 / 13,00 e 4,00 / 7,00
• Proposta/execução/criatividade:
9,0 / 10,00
Total: 90,50
*** (extraordinário)- entre 96 e
100 pontos;
**+ (extraordinário) - igual a 95
pontos;
** (excelente) - entre 90 e 94 pontos;
*+ (excelente) - igual a 89
pontos;
* (muito bom) - entre 84 e 88
pontos;
SERVIÇO: Vecchio Sogno Ristorante - Rua Martim
de Carvalho, 75 – Santo Agostinho I Tel.: (31) 3292-5251. Horário de
funcionamento: Segunda a quinta – das 11hs às 00h30min; sextas – das 11hs
às 2hs; sábados – das 18hs às 02hs e domingos – das 12hs às 18hs. Aceita todos
os cartões de crédito.
Contatos: Gourmet à Solta por Felipe
Victoria - felipebrg@hotmail.com















