domingo, 31 de março de 2013

“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “QUEM É REI NÃO PERDEU A MAJESTADE “ –


“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “QUEM É REI NÃO PERDEU A MAJESTADE “ – Começo o artigo de hoje relembrando e me atrevendo a adaptar um comum e recorrente dito popular: quem é rei não perdeu a majestade. Vou adiante, caro leitor, perguntando-lhe o que há de comum entre o neorrealismo onírico de Fellini, a literatura rica, brasileiríssima e peculiar de Guimarães Rosa, a poesia heterônima e cativante de Fernando Pessoa, a música inovadora e elegante de João Gilberto e Tom Jobim, o talento e perfeição do mestre Auguste Escoffier, o néctar sagrado contido numa garrafa de um Romanée Conti e o nosso querido Vecchio Sogno? Respondo: em todos os casos se tratam de clássicos de comprovada competência em seu ramo de atuação e que, de uma forma ou de outra, geraram frutos atemporais e, por isso, jamais (espero) se tornarão obsoletos ou temas clichês.
            Em mais uma visita ao Vecchio Sogno, fui tocado por algo de poesia e também pelos sabores, texturas e aromas provados e sentidos por lá. Vez ou outra há sempre alguém para criticar o trabalho e a casa de Ivo Faria, porém, desde que foi aberto – em 1995 – o restaurante vem acumulando dezenas de prêmios Brasil afora, bem como, em minha opinião, reina absoluto no posto de melhor mesa de Minas Gerais. Localizado dentro da Assembleia Legislativa do Estado, podemos dizer que o Vecchio Sogno tem em sua ambientação/decoração um ar aristocrático, conservador e elegante. Desta maneira, num primeiro momento, o ambiente pode intimidar os mais despojados e informais, porém, em linhas gerais, o lugar é muito confortável, bonito e aconchegante.  O uso de madeira mesclada com as cores branca e vermelha dá um tom refinado aos salões. Complementando o cenário, é bastante comum termos ao vivo músicas sendo tocadas no lindíssimo piano de cauda exposto em frente ao bar.
            Ao contrário do que ocorre na maioria das casas ditas de alta gastronomia da cidade, não há sinais de “super atenção” no atendimento. Toda brigada demonstrou domínio sobre os itens do cardápio, bem como, eficiência e discrição. O famigerado esnobismo, que vez ou outra encontramos em Lourdes, passou longe da casa de Ivo Faria em todas as vezes que lá estive.
            No cardápio, o que não faltam são pratos típicos da culinária Italiana. De qualquer maneira, a orientação clássica da cozinha da bota não impede que Ivo Faria e sua equipe lancem mão, de maneira competentíssima, de ingredientes, modos de preparos e de receitas da culinária brasileira e mineira. Ouso dizer que, em terras mineiras, ali se faz a melhor fusão entre vertentes gastronômicas. O melhor desta mistura pode ser provado optando-se pelo menu degustação de 4 pratos (R$ 116,00), e foi o que fiz.
Como entrada, o camarão estufado com palmito pupunha e cuscuz marroquino ao molho de pitanga e dourado estava divino, todos os ingredientes com cocção e temperos perfeitos, a textura do pupunha e do cuscuz complementaram com extremo bom gosto o prato. Os andares de salmão com recheio de tomate e champignon, purê de inhame, manteiga queimada, molho de abobrinha e azeitonas pretas estavam corretíssimos, sendo que o inhame roubou a cena com seu sabor e textura exuberantes.
Um pouco abaixo do que já tinha sido provado, o lombo de cordeiro recheado com parma e muçarela de búfala, risoto de castanhas portuguesas  e molho de uva moscatel se mostrou um pouco pesado e salgado. O uso do presunto poderia, certamente, ser descartado. De outro lado, o saborosíssimo risoto e o molho agridoce deram um toque refinado e delicioso ao prato.
Fechando o jantar, o correto figo ao forno com recheio de caramelo e sorvete (Easy Ice) três sabores (goiaba, queijo e creme) passou tímido. Ao excelente menu degustação, faltou um “Gran Finale”. Apesar de não comprometer, a sobremesa não demonstrou personalidade, sendo que a fruta passou despercebida ao lado dos bons sorvetes, que também não chamaram a atenção. À parte do menu, vale à pena provar a sensacional polenta trufada ao forno com ovo e molho de 3 funghis (R$ 38,00), e o tradicional ossobuco de vitela com risoto parmigiano (R$ 68,00). Aqui ressalto como é bom ver ovo num prato. Infelizmente, os chefs brasileiros, de maneira geral, não exploram todo potencial que este ingrediente pode dar a um prato. Ponto a Ivo faria que o fez com grande competência.
            Apesar de bastante premiada, não vi algo de muito criativo na Carta de Vinhos, achei diminuta a oferta de rótulos por taça.  Entretanto, destaque deve ser dado aos muito bem servidos copos de espumante, diferentemente do que se vê na maioria das casas, onde a taça é preenchida, no máximo, pela metade, no Vecchio foram servidas quase transbordando.  No geral, há os nomes mais comuns dos catálogos de Mistral, Decanter e Grand Cru. Apesar de termos um consumo per capto, ainda muito tímido no Brasil, um restaurante como o Vecchio Sogno merece uma seleção mais criativa e que privilegie, de maneira consistente, os produtores nacionais e seus excelentes espumantes – não me canso de bater nesta tecla. Nota-se também, que a casa pratica uma margem de lucro maior do que um enófilo acharia atraente, inibindo o consumo de rótulos de maior expressão. No quesito serviço de vinhos, tanto copos como o serviço do sommelier agradaram bastante.
            Ao final de um ótimo jantar, assim como ao término de um grande filme, livro ou concerto, fica claro que estivemos diante de clássicos, que, à parte de modismos passageiros, mantêm sua assinatura, personalidade e estilos, intactos.  Não só em razão da impressionante regularidade técnica demonstrada ao longo dos mais de 15 anos de existência, como também, pela criatividade do cardápio, pelo eficiente e cortês atendimento, e pelo ambiente extremamente refinado e de bom gosto, tenho total tranquilidade em dizer que, sem sombra de dúvidas, o Vecchio Sogno de Ivo Faria continua a ser o melhor restaurante de Minas Gerais, sendo justificadamente e merecidamente um “hors concours” nas premiações gastronômicas existentes em Minas Gerais. Salute e buon appetito nel Vecchio Sogno Ristorante!
Avaliação: (**)
• Atendimento: 14,20 / 15,00
• Apresentação e Estrutura da casa: 12,95 / 15,00
• Comida: 38,45 / 40,00
• Cartas (cardápio e vinhos/bebidas): 11,90 / 13,00 e 4,00 / 7,00
• Proposta/execução/criatividade: 9,0 / 10,00
Total: 90,50
*** (extraordinário)- entre 96 e 100 pontos;
**+ (extraordinário) - igual a 95 pontos;
** (excelente) - entre 90 e 94 pontos;
*+ (excelente) - igual a 89 pontos;
* (muito bom) - entre 84 e 88 pontos;

SERVIÇO: Vecchio Sogno Ristorante - Rua Martim de Carvalho, 75 – Santo Agostinho I Tel.: (31) 3292-5251. Horário de funcionamento: Segunda a quinta – das 11hs às 00h30min; sextas – das 11hs às 2hs; sábados – das 18hs às 02hs e domingos – das 12hs às 18hs. Aceita todos os cartões de crédito.
Contatos: Gourmet à Solta por Felipe Victoria  - felipebrg@hotmail.com

“PUTAIN” por Mariana Franchini – DICAS DE GASTRONOMIA EM PARIS - "LE RELAIS GASCON"

“PUTAIN” por Mariana Franchini – DICAS DE GASTRONOMIA EM PARIS: E se eu tiver vontade de uma salada? Normalmente, salada não é um prato que inspira muitos desejos. Eu também pensava assim até ter tido a oportunidade de comer uma das melhores saladas da minha vida no restaurante Le Relais Gascon. Tinha acabado de sair de um show e, como era um pouco tarde, caminhei um pouco para descobrir um lugar aberto. E esse restaurante foi realmente uma ótima surpresa. Aberto de segunda a segunda e com a cozinha o dia todo aberto, o Le Relais Gascon é um restaurante super indicado para quem está fazendo turismo e que nem sempre presta atenção ao relógio (os restaurantes fecham relativamente cedo a cozinha do almoço e depois é preciso esperar até 19 horas para o primeiro serviço do jantar).
O Le Relais Gascon é um restaurante de comida do sudoeste francês, mas a boa surpresa são mesmo as "Salades Géants". Com preço entre 10,50€ e 15,50€, essas saladas são servidas num prato enorme e não é só alface e tomate não! A minha preferida é a Salade du chef (peito de frango, ovo cozido, alface, tomate e batatas fritas no alho) e a Salade Gascon também é uma boa pedida, afinal, não só é servida com magrets fumés mas também com um bom pedaço de fois gras. Detalhe: essas batatas fritas no alho são incríveis.
Mas o cardápio não é só de saladas. Aconselho o Cassoulet (um tipo de feijoada com feijão branco, pato e linguiça), o Demi-poulet aux herbes (meio frango cozido em ervas) ou o Boeuf Bourguignon. Tudo é bem gostoso e o preço é bem camarada comparado com diversos outros em Paris. O restaurante tem dois endereços em Montmartre e, normalmente, não precisa fazer reserva. No entanto, não são aceitos nenhum cartão de crédito nem cheques.

Le Relais Gascon - 6, rue des Abbesses / 75018 Paris / 0142585822 - Metro: Abbesses
ou Le Relais Gascon - 13, rue Joseph de Maistre / 75018 Paris / 0142521111 - Metro: Blanche

quarta-feira, 27 de março de 2013

HARMONIZAÇÕES COM BACALHAU NA PÁSCOA

HARMONIZAÇÕES COM BACALHAU NA PÁSCOA

BACALHAU: é um peixe nobre de aroma e sabor acentuados que não costuma combinar com vinhos brancos muito leves. Os vinhos brancos mais encorpados e com toque (leve) de madeira costumam casar melhor com o prato. Mas se a opção for um tinto, a escolha é por um mais leve, para que os taninos não sobreponham ao sabor do peixe, e neste caso um Pinot Noir ou um Touriga Nacional irão muito bem.

Com bolinhos de bacalhau fritos a sugestão e de vinhos verdes bem refrescados e refrescantes para limpar a boca da gordura. Outra opção: uma cerveja bem gelada!

Por ser um peixe “diferente”, o bacalhau aceita mais de um tipo de vinho. Para um bacalhau desfiado, com creme de leite, cenoura ralada e gratinado com parmesão, o ideal será um Vinho Verde, de baixa graduação alcoólica e que deve ser servido próximo dos 12°C de temperatura.

Para um prato de bacalhau dourado no azeite, acompanhado de batatas ao murro, alho, cebola, brócolis e azeitonas verdes, o ideal seria um vinho tinto mais intenso, que dê ainda mais força à receita. Neste caso a Touriga Nacional mostra seu valor !

Se a receita do parto for mais seca, um vinho tinto, para dar força ao prato poderá ser o mais indicado. Se o bacalhau é feito no azeite (frito ou grelhado) ou é acompanhado com algum molho, passa a ser ideal um branco ou um vinho verde. O Douro também traz ótimas opções em brancos (Altano), bem como os brancos do Alentejo (Herdade do Esporão, Pêra Manca Branco) e da Bairrada (Flipa Pato Ensaios Branco, por exemplo). Luis Pato Vinhas Velhas Branco, ou com um belo Arinto ou Antão Vaz do Alentejo, como os ótimos vinhos do Paulo Laureano. Se quiser mudar para a Espanha, use um ótimo Verdejo ou Albariño. Se quiser um vinho da América do Sul, experimente o Albariño ou o Chardonnay do Bouza. Será um show !!!

Os tintos do Alentejo são muito indicados por serem de coloração rubi estimulante, com taninos bem equilibrados e prolongados no final. Os taninos servem para equilibrar com a força e o sal do bacalhau. Além disto, os vinhos do Alentejo costumam ter boas relações que qualidade-preço, que beneficiam o amante do vinho. Entretanto, não deixe de degustar um Douro, ou um Dão, ou mesmo um Tejo, pois nada melhor do que surpreender-se.

Se o bacalhau for cozido com batata e couve, em fio de azeite, num prato que conjuga o amido doce do vegetal e o salgado suave do bacalhau temos que avaliar o gosto forte da comida com um vinho que tenha corpo, frescura, mineralidade e boa dose de fruta e vegetal fresco. Um alvarinho cairia bem. Uma surpresa poderia ser um Chenin Blanc do Loire ou mesmo um Muscadet, que são vinhos de boa mineralidade e frescura, capazes de ligar bem com o vegetal, o grosso da batata e o bacalhau.

Se o bacalhau for feito no forno com natas, batata e pão dormido em nacos, a opção seria por vinhos onde a madeira confira alguma untuosidade ao vinho, com notas de tosta leve. Uma boa indicação seria o Redoma Reserva Branco, e numa opção pelo Novo Mundo, um Montes Alpha Chardonnay sairia muito bem. Se preferir um tinto, opte por um vinho que tenha frescura suficiente para o prato e ao mesmo tempo a madeira que mostra seja suave.

Sugestões de Vinhos:

- Conde Valdemar Fermentado em Barrica 2010 - Rioja – Espanha: Branco barricado e com personalidade, típico e tradicional vinho da região de Rioja, na Espanha. Ele é elaborado apenas com a casta viura. Seco e complexo, traz um amadeirado marcante. Importado pela MISTRAL.

- Loureiro Muros Antigos Vinho Verde 2010 – Minho – Portugal: Amarelo-palha cristalino. Puros e expressivos aromas frutados de nectarina madura e banana, amalgamados a notas de mel. Delicioso equilíbrio entre o frescor e a suavidade, final limpo e fragrante. W&S 90 pontos. Importado pela DECANTER.

- Alvarinho Soalheiro 2010 - Minho – Portugal: No caso de receitas mais substanciais, como a bacalhoada, esse alvarinho encorpado e amanteigado, traz equilíbrio justo ao sabor predominante do peixe. Importado pela PORTO A PORTO.

- Morgadio da Torre Alvarinho 2010 - Sogrape Vinhos – Portugal: Vinho Verde de grande qualidade, ricamente perfumado e com potencial de envelhecimento. Morgadio da Torre recebeu o Prêmio de Excelência no Concurso dos Vinhos Verdes de Portugal em 2005. Importado pela ZAHIL, representada em BH pela REX-BIBENDI.

- Herdade do Esporão Reserva Branco – considere este vinho um coringa. Não tem erro ! Uma excelente relação qualidade-preço.

- Apollonio Laicale – Itália - Branco exótico e encorpado, com 12 meses em barricas de carvalho. Delicioso, principalmente se for para acompanhar bacalhau em postas largas, regado com azeite e acompanhado de batatas.  Fermentado em carvalho e envelhecido 12 meses em barricas francesas. Cor de amarela com reflexos dourados. Aroma frutado e intenso; sabor diferenciado com toques de especiarias e baunilha. Vinho branco com alma de tinto. Importado pela CASA DO VINHO.

- Demougeot Bourgogne Vieille Vignes 2008 – França -Tinto macio, sem taninos (o que evita o resultado com um gosto metalizado).  Produzido com a uva Pinot Noir. Importado pela CASA DO VINHO.

- Château Camplazens La Reserve 2009 – França - Acompanha muito bem o bacalhau brandade. Mais frutado, menos tânico. Importado pela CASA DO VINHO.

- Nino Negri Grumello 2008 – Itália- Ideal para ser degustado com um bacalhau mais sofisticado, que utiliza azeite trufado na finalização. Nebiollo aromático, elegante e bem equilibrado sem taninos agressivos. Vinho sedutor, aveludado com aromas de violetas secas, morango e amêndoas. Na boca, seco, quente e macio. Importado pela CASA DO VINHO.

- Quinta do Tedo Douro 2007 – Portugal - Ótimo com bacalhau desfiado. Tinto português macio. Vinho artesanal feito com as uvas touriga nacional, tinta roriz e touriga franca. Com vinificação no tradicional lagar com pisa a pé, passa 12 meses em barricas de carvalho francês com um ano de uso. De cor violeta profunda, tem boa complexidade aromática. No nariz, apresenta amora, groselha preta, baunilha, pão tostado e casca de laranja e, na boca, é equilibrado, com bom corpo e boa densidade, maduro e frutado, com final longo e persistente. Importado pela CASA DO VINHO.

- Velenosi Rêve – Itália - sugestão interessante para o bacalhau com natas. Branco equilibrado, intenso, fresco, crocante, gordo, mas com certa mineralidade. Uma madeira discreta cai bem. Para quem quer uma opção mais refinada. Vinho de grande estrutura e voluptuosidade, penetrante e muito persistente. Importado pela CASA DO VINHO.

- Rives Blanques Odyssée – França - Bom para quem prefere um vinho branco reserva. O estágio em barricas de carvalho confere mais untuosidade ao vinho, deixando-o mais gordo na boca e com leve tostado. Maduro, amanteigado e jovem, com algumas frutas frescas. O carvalho é bem integrado e sutil. Um branco deslumbrante, com excelente equilíbrio e varias camadas de aromas e sabores. Uma nota expressiva de flor branca, maçã vermelha madura e nectarina. O paladar de médio corpo é ligeiramente cremoso com toques de tostado, especiarias doces e com sabor de amêndoas no retrogosto. Importado pela CASA DO VINHO.

AFINAL , QUAIS SÃO OS TIPOS DE BACALHAU:

É hora de buscar o melhor bacalhau para tornar ainda mais especial o almoço com a família na Páscoa. Embora a maioria dos vendedores - algumas vezes por desconhecimento, outras por má fé - se restringem a vendê-lo como "bacalhau", este peixe pode ser encontrado em quatro diferentes tipos:

Saithe: Domina 65% do mercado brasileiro. O número, claro, também se explica pelo preço, já que é o mais acessível ao consumidor. Porém, não necessariamente o baixo valor remete à baixa qualidade. Com um sabor bastante acentuado, é o preferido para os famosos bolinhos de bacalhau, certamente a mais popular de todas as receitas envolvendo este peixe. Quando cozido, a macia carne desfia com facilidade.

Zarbo: O menor entre todos os tipos. Não representa parcela significativa das vendas no Brasil, mas nem por isso deixa de ter o seu sabor. Vai muito bem com pratos desfiados, caldos, pirões e também bolinhos.

Ling: Junto com o Zarbo, representa apenas 10% das vendas no Brasil. É o mais estreito dos tipos. A carne é bem branca e saborosa, ideal para assados e grelhados.

Cod: O mais nobre dos bacalhaus, pode ser encontrado em duas diferentes espécies, o Gadus Macrocephalus e o Gadus Morhua - o mais saboroso e requisitado. Ambos são mais largos na parte da cabeça e vão afinando ao longo do corpo.

Gadus Macrocephalus: Pescado nos mares do Pacífico, é o mais "bonito" entre todos os tipos. Mais branco e mais grosso do que o Morhua, acaba ganhando a preferência do consumidor nos mercados pelo aspecto visual. Porém, é mais fibroso que o Morhua, o que o torna um pouco menos refinado. Para diferenciar um do outro, basta se atentar a uma faixa branca que se encontra tanto nas nadadeiras quanto no rabo, o que não ocorre no Morhua.

Gadus Morhua: O verdadeiro e original "bacalhau da Noruega" é pescado nos mares do Atlântico, mais especificamente na região dos países nórdicos. Possui uma coloração mais para palha do que para branco, o que o diferencia do Macrocephalus. Também é um pouco mais fino, o que faz com que muitos desavisados o deixe de lado na hora da compra. Quando cozido, costuma liberar lascas, o que torna seu gosto ainda mais especial.

UM VINHO DOCE PARA O FINAL

Harmonização realizada, degustada e aprovada, hora de complementar o almoço, claro, com um delicioso chocolate.

As inúmeras opções de ovos, bombons e afins deixam qualquer um confuso na hora de escolher a sobremesa. Porque não um tradicional Vinho do Porto, Vinha da Madeira ou um Pedro Ximenez para acompanhar o chocolate ? Com seu teor alcoólico e doçura, acompanham com propriedade o chocolate e abrilhantam ainda mais a Páscoa.

- Emina Oxto D.O – Espanha - Região: Ribera del Duero/Espanha – Uva: Tempranillo. Fortificado na região do Douro espanhol. Cor: cardeal escuro com tons castanhos. Nariz intenso e profundo com aromas de geléia de frutas maduras como amora, framboesa, figos e cerejas passificadas. Complexos toques de tabaco e frutas secas destacando amêndoas e avelã tostada. Na boca destaca-se o equilíbrio de sabores de cerejas passas com taninos próprios da tempranillo. Final longo e elegante. Como os melhores vinhos do Porto, além de acompanhar uma saborosa mousse de chocolate, também combina com doces, frutas secas, alguns queijos e um bom charuto. Importado pela CASA DO VINHO.

- Barbeito Reserva Malvasia - 5 anos – Doce – Portugal - Região: Madeira/Portugal. Uva: 100% Malvasia. Vinho envelhecido em carvalho por 5 a 7 anos pelo método de canteiro. Harmoniza com queijos azuis e sobremesas a base de caramelo e chocolate. Importado pela CASA DO VINHO.

- Velenosi Visciole – Itália - Região: Marche/Itália. Uva: Lacrima di Morro d’Alba + licor de cerejas ácidas. Bouquet intensamente prazeroso. Sensuais e persistentes morangos, framboesa, frutos silvestres maduros, aromas de compotas, pêssego e pêra madura. Muito macio na boca, altamente persistente sem perder o frescor. Fascinante, bom corpo, bom sabor e acidez, bem equilibrado. Estimula seu paladar, notas de frutos silvestres frescos e maduros, flores, mirtilo, cerejas. Imperdível quando acompanhado de chocolate com cereja e bombons em geral. Importado pela CASA DO VINHO.

Um bom espumante no estilo Asti pode harmonizar-se muito bem com a Colomba Pascal, juntando seu frescor e sabor ao doce, criando ao final desta Páscoa, uma  experiência enogastronômica inesquecível.


segunda-feira, 25 de março de 2013

“ A ALEMANHA E SEUS VINHOS – PARTE I ”


A ALEMANHA E SEUS VINHOS – PARTE I ” – No período de 24 a 26/3/2013, acontece a 20ª edição da feira européia mais importante do setor de vinhos, a “ProWein” em Düsseldof. Com um volume de importação de 14,9 milhões de hl, a Alemanha representa um dos maiores importadores mundiais de vinhos e situa-se no 4º lugar do ranking dos maiores mercados consumidores de vinho, com um volume de consumo de 20 milhões de hl.
            Apesar de toda esta pujança do mercado, o vinho alemão ainda permanece para muitos de nós, indelevelmente ligado ao “vinho da garrafa azul”. Pode ter sido a primeira taça de muitos que se iniciavam no vinho na década de 70, mas certamente estes padrões estabelecidos com tanto sucesso naquela época ficaram para trás.
Sem dúvida o vinho alemão é um grande injustiçado, e grande culpa disto fica por conta de produtores que invadiram os mercados com vinhos adocicados, ligeiros que podem tinham seu charme, mas não refletiam, nem refletem o alto nível da viticultura do país. A verdade é que nem só de Liebfraumilch vive a Alemanha!
            
A Alemanha tem os vinhedos mais ao norte no mundo, indo até os limites de onde as uvas podem amadurecer, em latitude de 49 a 51 graus. A maioria dos vinhedos, são plantados as margens do Rio Reno e Mosela, ou dos seus afluentes, uma vez que os cursos d`água agem como moderadores do clima e refletem a insolação sobre as vinhas, ajudando no amadurecimento dos cachos.
            Qualquer quantidade de calor que possa se obter do reflexo do sol no rio é fundamental, eis o porque dos melhores vinhedos ficarem próximo as encostas dos rios. O solo também tem sua contribuição, pois a maior parte dos vinhedos da Alemanha são plantados em locais de solos rochosos que retêm calor, como ardósia e basalto, resultando em perfis sedutoramente minerais.
            Desta forma é comum as uvas da Alemanha serem pobres em açúcar e ricas em acidez!. Isso pode significar um baixo percentual alcoólico e transparência, sem coloração intensa nos vinhos, que não precisam ser filtrados. Os vinhos sequer precisam de leveduras comercias para fermentarem e também não fermentam nem amadurecem em carvalho novo. A ênfase fica por conta do frescor e elegância.

A colheita acontece entre o final de setembro e novembro e algumas uvas ainda permanecem por mais tempo, até janeiro. Durante esse período as uvas amadurecem devagar pois as altas temperaturas são raras. Como conseguinte tem-se excelentes uvas brancas, como a riesling que esbanja grande elegância. A Alemanha é um grande produtor de vinhos brancos. O que mais impressiona é que a produção de vinhos tintos representa somente 18% da produção total (geralmente representados pelos potentes tintos da casta “Dornfelder”, ou um seco e fresco “Spätburgunder”, nome local da Pinot Noir) e o restante é voltado para vinhos brancos e espumantes.
            Surpreendentemente, há mais de 140 uvas diferentes utilizadas na produção do vinho, mas o maior consumo fica por conta de 20 delas. A Riesling é a “rainha” entre as uvas brancas e os tintos da Pinot Noir começam a ter reconhecimento internacional, com inspirados elogios de críticos como Jancis Robinson.

Níveis de qualidade do vinho alemão:
Tafelwein, que designa um vinho de mesa comum, normalmente feito a partir de uvas maduras e geralmente servido em jarras de 1 litro. Em outras palavras, uma bebida boa e barata. Menos de 5% da produção.
Deutscher Landwein – designa os vinhos vindos de uma das 19 regiões Landwein, normalmente secos. A lei exige uvas mais maduras que para o Tafelwein, tornando portanto, a qualidade melhor. É Uma nova categoria de Tafelwein, criada no ano de 1982. O equivalente ao Vin de Pays da França. Não pode ser doce, e tem que ser Trocken ou Halbtrockn, com o máximo de 18 gramas de açúcar por litro e o mínimo de 9% de álcool. 5% da produção
Qualitätswein bestimmter Anbaugebiete (QbA). que corresponde a "vinhos de qualidade de regiões específicas", uma designação oficial para um vinho de boa qualidade a partir de uma região específica, Bereich ou vila. Vinhos com pretensões de qualidade, mas não cortam completamente (açúcar teve de ser adicionada ao suco de uva para que o vinho alcançasse um mínimo de álcool). 30 a 80% da produção.
A principal exigência para um vinho ser QbA é que, como a transcrição literal do nome sugere, todo o vinho da garrafa seja procedente de uma das 13 regiões vinícolas especificadas da Alemanha. Também as uvas devem atingir um nível mínimo de maturidade, em termos de "peso do mosto", que nada mais é do que a concentração dos sólidos dissolvidos no mesmo. Este material dissolvido é composto em sua maioria (90%), de açúcares fermentáveis. Desta forma, o "peso do mosto" é uma indicação segura do potencial alcoólico do mesmo, sendo expresso em unidades tais como os graus Oeschle ou Brix. O "peso do mosto" mínimo para o vinho obter a classificação QbA é cuidadosamente especificado para cada variedade de uva e para cada região vinícola específica.
            Além disso, os vinhos devem ser produzidos a partir de variedades recomendadas de uvas, recebendo após a aprovação um número para ostentar no rótulo, o chamado número AP (Amtiliche Prüfungsnummer). O AP é constituído por 10 a 12 dígitos e certifica que o vinho passou pelos super valorizados testes oficiais alemães, cujos procedimentos incluem uma análise quantitativa do vinho e uma degustação às cegas, realizada por produtores e outros degustadores, com o objetivo de se detectar eventuais defeitos no vinho analisado. Estes testes estão muito longe de ser rigorosos, já que o índice de aprovação é muito acima dos 90%. O número AP identifica o local onde os testes foram realizados, a localização dos vinhedos, o código do engarrafador e o ano em que o vinho foi testado.
            Ao contrário do que ocorre com os Qualitätswein mit Prädikat, os vinhos QbA podem ter o seu teor de álcool aumentado, por enriquecimento do mosto, um processo mais abrangente que a simples adição de açúcar ao mosto (chaptalização), pois inclui, além do açúcar, parcelas de mosto concentrado e mosto concentrado retificado. Estes últimos são na verdade um xarope de açúcares de uva, com elevada concentração, obtido dos vinhos excedentes principalmente da França e da Itália.
Qualitätswein mit Prädikat (QmP). que corresponde a "Vinho de Qualidade com Distinção", uma designação oficial para o vinho de qualidade de uma determinada Bereich, aldeia ou vinha. Esta é a mais alta classificação do vinho alemão. Os principais produtores fazem diversas incursões nos vinhedos para colher as uvas somente no momento que atingem esse nível. Fazendo a colheita em outubro e novembro (ou até além) as uvas continuam a amadurecer lentamente e desenvolvem grande concentração de fruta e caráter, embora mantendo altos níveis de frescor e acidez.
Para a semana que vem descomplicamos a questão da classificação dos vinhos da Alemanha e a leitura de seus rótulos.

“PUTAIN” por Mariana Franchini – DICAS DE GASTRONOMIA EM PARIS: Chez Janou


“PUTAIN” por Mariana Franchini – DICAS DE GASTRONOMIA EM PARIS: Chez Janou - Próximo do meu querido Marais e há alguns quarteirões da Place de Voges fica o simpático restaurante Chez Janou. Esse restaurante de cozinha da Provance se tornou um dos meus endereços preferidos e é o lugar onde levo meus amigos de passagem pela cidade para comer o melhor Magret de Canard de Paris.
Se você não é fã de Magret como eu, o menu é repleto de outras delícias da cozinha francesa. Minhas entradas preferidas são o Petit Chèvre rôti au Romarin e as Tostades de Saint Nectarine. Além disso o cardápio propõe diversas saladas. 
Se como eu, você não vai cair na tentação de pedir o Magret de Canard, indico o Farcis Provençaux, um prato tradicional da cozinha francesa e que nada mais é que legumes recheados com carne e acompanhados por arroz branco. O Entrecôte Bistrot e o Brochette d'Agneau aux Épices também são boas pedidas.
A sobremesa é um caso à parte. Eu explico: você TEM que pedir a Mousse au Chocolat. Por quê? Porque eles vão deixar a travessa de Mousse na sua mesa e você poderá se servir a quantidade que você quiser. Prometo que isso acontece nesse restaurante parisiense.
Uma das especialidades da casa é também a carta de Pastis que conta com mais de 80 tipos diferentes. Os vinhos também estão bem representados, inclusive, por um vinho da casa bem simpático para abrir o apetite. Como restaurante não é muito grande e está sempre cheio, é aconselhável fazer reserva. 

SERVIÇO: Chez Janou - 2 rue Roger Verlomme 75004 – 0142722841 - Metro: Chemin Vert

“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “ DONA LAURA E A IDÍLICA POUSADA ALCOBAÇA “


“ GOURMET A SOLTA” POR FELIPE VICTORIA – “ DONA LAURA E A IDÍLICA POUSADA ALCOBAÇA “ - Já pensou em um lugar onde há comida feita com total esmero, carinho e qualidade? Some-se a isso, uma hospedaria de extremo bom gosto, elegância e genuína simpatia. Tudo complementado e adornado por uma natureza pródiga, belíssima, rica e abundante. Será que existe? Sim, este recanto aparentemente idílico e utópico existe, está relativamente próximo de você (belorizontino), se encontra no distrito Petropolitano de Corrêas, é personificado na pessoa da simpática e atenciosa Dona Laura Góes, e atende pelo nome de Pousada da Alcobaça.
            O casarão onde se encontra a Pousada foi construído em 1914 por um industrial carioca para as férias de sua família. Em 1989, o sítio foi comprado por Dona Laura, que decidiu vender seu colégio, onde fora diretora por mais de 20 anos, para realizar o sonho de abrir uma pousada e um restaurante. Em 1990, após uma grande reforma de adequação ao que viria a ser uma hospedaria, nasceu a Pousada Alcobaça.
            Em estilo normando, a construção é belíssima e super romântica. Com seus apainelados de madeira, azulejos hidráulicos e treliças enredadas de trepadeira, o casarão é extremamente imponente e exuberante. Os jardins em estilo inglês/francês, milimetricamente desarrumados foram de idéia e concepção da proprietária. Há ainda no local, lagos com peixes, estátuas, centenas de espécies de flores, que parecem “acontecer” em seus lugares e a estonteante visão das pedras da Alcobaça e Alcobacinha. Todo este paraíso está inserido em uma rica mata Atlântica e é um deleite até mesmo aos mais contidos e racionais.
            A pousada é hoje conhecida por oferecer uma culinária sem rebuscamentos, de raízes e de comida feita com extremo carinho, dedicação e competência, ou como a própria anfitriã gosta de dizer, sua cozinha tem uma simplicidade requintada. Pode-se dizer que tudo no lugar foi pensado com extremo bom gosto, atenção aos mínimos detalhes e paixão, pela carismática e eficiente Dona Laura. Em poucas palavras, tudo ali reflete sua alma, sua sabedoria, carinho, classe e experiência de vida. Hóspedes e comensais são ali tratados como membros de sua família, e isso faz toda diferença.
O restaurante da Alcobaça encantou-me desde o primeiro minuto que ali estive. Da espaçosa e linda cozinha saem diariamente, pela manhã, bolos saborosíssimos, geléias deliciosas, ótimos pães Petrópolis, caprichadas omeletes, lindos waffles com maple e o que mais o hospede ousar desejar.  Já durante o almoço, é possível se fartar com o excelente pato ao molho de laranja (equilibrado, aveludado e saboroso, diga-se de passagem) acompanhado do ótimo e inusitado purê de maça. Pode-se também deixar-se levar pelo bom filé ao molho de vinho, guarnecido com legumes orgânicos e, com certeza, se alumbrar com o corretíssimo arroz de pato. Carro chefe da casa, o cozido português é famoso e atrai visitantes de todo lugar, bem como, a feijoada dos sábados, que é disputadíssima e, dizem, não deve nada a nenhuma outra oferecida Brasil a fora. As sobremesas, por sua vez, são gostosas, corretas e encarnam, essencialmente, o tão sábio conceito da simplicidade requintada. Como parte do esmero e cuidado dedicados à cozinha, todos os ingredientes usados para preparar essas delícias, têm como origem a horta e o pomar da própria pousada ou são escolhidos cuidadosamente no mercado local pela atenciosa anfitriã e proprietária. Ou seja, o que se come na Alcobaça é sempre fresquinho e muito bem escolhido, Uma “cuisine de terroir” no seu sentido mais íntimo.
  Em poucas palavras, digo que a comida de Dona Laura é o que se pode chamar de comfort food, bem como, sua hospedaria é a síntese do que chamamos de pousada de charme e de recanto romântico. Desfrutar de um final de semana ou alguns dias neste paraíso é uma dádiva para a alma, um descanso para o corpo, alívio para a mente e um presente para o estômago e paladar. Ali, cercado de todo esplendor natural da mata atlântica, aconchegado por todo o carinho, elegância e atenção da anfitriã e de seus funcionários, servido por uma comida honestíssima, autêntica e deliciosa e acompanhado do grande amor, posso dizer que fui agraciado com o que pode haver de melhor na vida. Se você precisa de um motivo para se encher de alegria e deseja passar momentos de contemplação e prazer, que tal dar uma fugidinha até Petrópolis e desfrutar deste pequeno/enorme paraíso? Garanto que valerá muito a pena e terá certeza disso, ao ser gentilmente recebido pelo carinho de Dona Laura e sua equipe/família.
Avaliação:  (*)
•           Atendimento: 11,80 / 15,00
•           Apresentação e Estrutura da casa: 12,85 / 15,00
•           Comida: 37,75 / 40,00
•           Cartas (cardápio e vinhos/bebidas): 12,50 / 20,00
•           Proposta/execução/criatividade: 8,70 / 10,00
Total: 83,60

Legenda: *** (extraordinário)- entre 96 e 100 pontos / **+ (extraordinário) - igual a 95 pontos /
** (excelente) - entre 90 e 94 pontos / *+ (excelente) - igual a 89 pontos / * (muito bom) - entre 84 e 88 pontos.

SERVIÇO: Pousada da Alcobaça - Rua Agostinho Goulão, 298 - Corrêas - Petrópolis/RJ
Telefone: (24) 2221-1240 - Site: www.poudadaalcobaca.com.br
Horário de funcionamento do restaurante: Todos os dias de 12hs às 22hs. Aceita todos os cartões de crédito. Apartamentos de casal com café da manhã incluído, a partir de R$ 385,00 a diária. Contatos: Gourmet à Solta por Felipe Victoria  - felipebrg@hotmail.com

domingo, 17 de março de 2013

GASTRONOMIA EM BH “GOURMET Á SOLTA” por Felipe Victoria – “ALTOS E BAIXOS NO PROMISSOR TRINDADE”


GASTRONOMIA EM BH “GOURMET Á SOLTA” por Felipe Victoria – “ALTOS E BAIXOS NO PROMISSOR TRINDADE” - O Bistrô Trindade vem, desde meados de 2012, passando por diversas mudanças, posso assegurar que estas reformulações fizeram muito bem tanto à proposta do lugar quando à sua ambientação.
O Restaurante, originalmente inaugurado por Fred Trindade e pelo restauranteur Marco Malzone, foi pensado tendo como foco a modernização e revisitação da culinária mineira e, neste propósito obtiveram êxito. Porém, em fins de 2012, Marco saiu da sociedade, assumindo em seu lugar o talentosíssimo Felipe Rameh, que acabara de deixar o restaurante O Dádiva. A mudança, indubitavelmente, deu uma injeção de ânimo e criatividade à casa, além de um reposicionamento de proposta  bastante interessante e oportuno.
            Se antes o foco era a culinária mineira, Rameh quis abrir o leque de abrangência de sua cozinha e implantou tanto no cardápio quanto na filosofia do restaurante o que podemos chamar de uma cozinha luso-caipira. Bem aos moldes do Ítalo-caipira que Jefferson Rueda, com grande competência, trabalha no seu elogiadíssimo Áttimo. Portanto, hoje a casa apresenta um cardápio dividido em 4 partes distintas, a saber: clássicos com filé, tradição brasileira, herança portuguesa e clássicos.

            Incrustado no coração do bairro de Lourdes, o Trindade tem uma ambientação muito agradável, sóbria e elegante. Fica nítida a preocupação que se teve ali em ressaltar algumas dualidades, como por exemplo; rústico/moderno; clássico/contemporâneo e caipira/urbano. Posso dizer que este trabalho de paradoxos foi feito com muito bom gosto e criatividade. Criatividade esta que está presente no interessantíssimo uniforme dos garçons que mescla a calça com barras acima dos tornozelos, mineiramente chamada de “pega frango”, típica de personagens do interior de minas, com a camisa branca, traje clássico na maioria dos restaurantes do mundo.
            Ao se pensar no atendimento do lugar, fica nítido que passam por diversas mudanças/reformulações e que contam com uma brigada de atendimento nova. Portanto, por diversas vezes o serviço se mostrou desastrado, confuso, lento e com traços de super atenção. Longe de ser esnobe ou incompetente, o que se vê ali é que a equipe carece de um maior entrosamento, de mais treino e de uma liderança mais atuante.
            De todas as mudanças por que vem passando o Trindade, certamente a maior diz respeito ao cardápio. Não faltam pratos interessantes e criativos, mesmo que não sejam feitos ainda com perfeição, há ótimas opções em todas as etapas da refeição. Os dadinhos de tapioca com melado e alecrim – provavelmente de influência do Mocotó de Rodrigo Oliveira – são deliciosos, crocantes e de muita personalidade. Extremamente saborosas, sequinhas e equilibradas são as tulipinhas de frango – que se assemelham a um carré de cordeiro - com mel e mostarda, prato este, que Felipe Rameh levou ao Madrid Fusión. Se por um lado as entradas foram irretocáveis, não se pode dizer o mesmo dos pratos principais. O porquinho prensado com legumes orgânicos, mexerica e mostarda estava gostoso e com ponto de cocção perfeito, porém, lhe faltou um acompanhamento de mais personalidade. O mesmo pode ser dito da carne de sereno, servida com mandioca e queijo coalho. Apesar de a carne estar deliciosa, macia e com textura perfeita, lhe faltou algo como companhia, um molho cairia muito bem como elemento agregador entre proteína e carboidrato. Já o arroz de pato decepcionou, mesmo sem estar ruim, era nítido o excesso de canela. O epílogo do jantar se mostrou um tom acima dos principais, porém, ainda abaixo das entradas. O pudim de leite, cremosíssimo, homogêneo, macio e extremamente saboroso, foi o ponto alto dentre as sobremesas, já o bom petit gateau de chocolate com cupuaçu e sorvete, careceu de um pouco mais da acidez proporcionada pela fruta que faria um oportuno e perfeito contraponto com a doçura um pouco excessiva do bolo de chocolate.
            Não posso dizer que a carta de vinhos teve o mesmo êxito que os demais quesitos aqui citados, ao contrário, causou-me enorme decepção. É realmente o grande e maior deslize da casa. Composta por não mais que 15 rótulos, não há opções interessantes e muito menos criativas. Infelizmente não existe na carta um trabalho de adequação/harmonização de rótulos com os pratos oferecidos. O predomínio de sulamericanos, leia-se, Argentina e Chile, deixa claro que a montagem e seleção das opções é extremamente ineficiente. Diante de tanta influência da culinária lusa, não seria interessante, ou até mesmo obrigatória, a oferta de alguns ótimos portugueses? Bairradas seriam sensacionais com alguns pratos! Bons nacionais, também não vi. Talvez por encontrarem muitos entraves na logística do produto, ou até mesmo por preconceito, tanto de clientes quanto de sommeliers, os restaurantes brasileiros passam longe de privilegiarem a produção nacional e seus excelentes espumantes.
            Em linhas gerais, a impressão que fica, é que o ingresso de Felipe Rameh na sociedade e na equipe fizeram muito bem ao Trindade. Mesmo apresentando alguns deslizes, não se pode esquecer que se trata de um estabelecimento ainda em montagem e maturação. De qualquer forma, é evidente e cristalino que a dupla que comanda a casa não está acomodada e que trabalharão duro para resolver problemas pontuais. Vê-se ali muita criatividade, motivação e, acima de tudo, vontade de fazer algo genuíno e autêntico. Por isso não tenho dúvidas de que apesar de hoje não ser um dos melhores restaurantes da capital, o Trindade em breve o será.
AVALIAÇÃO:
•           Atendimento: 10,40 / 15,00
•           Apresentação e Estrutura da casa: 12,50 / 15,00
•           Comida: 36,90 / 40,00
•           Cartas (cardápio e vinhos/bebidas): 12,80 / 20,00
•           Proposta/execução/criatividade: 7,80 / 10,00
Total: 80,40
LEGENDA:
*** (extraordinário)- entre 96 e 100 pontos;
**+ (extraordinário) - igual a 95 pontos;
** (excelente) - entre 90 e 94 pontos;
*+ (excelente) - igual a 89 pontos;
* (muito bom) - entre 84 e 88 pontos;

SERVIÇO: Trindade Bar e Restaurante
Rua Alvarenga Peixoto, 388 – Lourdes / Telefone: (31) 2512-4479
Horário de funcionamento: Sexta, Sábado e Domingo - 12hs às 17hs; Terça a Sábado - 18hs à 01h. Aceita todos os cartões de crédito.
Contatos: Gourmet à Solta por Felipe Victoria  - felipebrg@hotmail.com