“DECANTAR
OU NÃO ? ” – Decantação: processo rápido de análise que permite
separar dois líquidos não miscíveis, ou um sólido de um líquido; separação de
fases por diferença de massa específica. Decantar: ato da decantação,
celebrar em cantos, celebrar.
Colhi estas
informações no Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Hollanda
Ferreira, porque muitas vezes considero que é melhor começar por tentar
entender o que as palavras dizem.
No
imaginário dos amantes do vinho, além das taças especiais que “desfilam” os
aromas e sabores do vinho e dos saca-rolhas, que acabam criando longas
coleções, nada há de mais surpreendente que um decantador, ou “decanter” – que
são jarras de cristal (às vezes de vidro também), onde se coloca o líquido das
garrafas de vinho. São acessórios de grande utilidade, que muita gente
desconhece, e que acabam por fazer pensar que o vinho é uma bebida inacessível
para os simples mortais, exigindo uma série de “frescuras” para entendê-lo.
Isto está mais próximo de uma má interpretação nossa, do que do vinho em si,
que no final das contas não tem nada de complicado, se soubermos usar o bom
senso.
A primeira
função da decantação é, portanto separar o vinho de eventuais depósitos que
possam ter se formado no fundo das garrafas, especialmente quando tratamos de
vinhos tintos guardados por alguns anos, ou de vinhos jovens não filtrados (que
tem sido uma maneira mais recente de vinificar, buscando deixar o produto o
mais natural possível!). Alguns vinhos com mais corpo e estrutura podem formar
“borras” na medida em que envelhecem, vistas sob a forma de escuros grânulos ou
massas disformes, que além de serem antiestéticos, tendem a turvar a bebida,
além de serem grosseiramente amargos na boca. Nesta situação a decantação é
indicada e o procedimento é relativamente simples: procure não agitar demais a
garrafa, especialmente se ela estava guardada deitada. Trate o vinho com
carinho, manipule-o de modo que a borra não se misture e vá para o fundo da
garrafa. Depois de abrir a garrafa vá despejando devagar e com cuidado no
decanter até sobrar mais ou menos um dedo de vinho no fundo dela, pois é ai que
a borra e resíduos tendem a se concentrar. Muitos puristas usam uma vela para
avaliar se o líquido que cai no decanter contém ou não resíduos, mas normalmente
isto não é necessário, fazendo muito mais parte do “mis-en-scene” para entreter
os amigos ou a namorada, entusiasmada com o conhecimento enológico do amado.
Para quem prefere equipamentos, há traquitanas como a da figura, peça típica de
museu ou para decorar um bar.
Existe,
entretanto uma segunda razão para decantar vinhos, especialmente aqueles tintos
de grande estrutura, corpo e potencial de guarda. Eles podem se beneficiar
muito com a decantação quando degustado ainda jovens. Como neste caso não há borra,
basta verter o líquido da garrafa dentro do decanter, agitar um pouco a jarra e
deixá-lo descansar por um pouco de tempo. Este processo cria um “envelhecimento
forçado” no vinho, fazendo sua “abertura”, intensificando aromas, que se tornam
mais complexos, deixando o vinho mais apropriado para ser degustado. Um
fenômeno semelhante com o do vinho que melhora ao longo do seu tempo de taça e
que geralmente nos deixa fascinados por lembrar que o vinho é uma bebida viva.
Alguns
jovens Barolos, Barbarescos, grandes espanhóis e portugueses, Bordeaux jovens,
californianos, australianos, chilenos e argentinos de peso, de grande
complexidade ganham muito com uma decantação de algumas horas antes de serem
bebidos. Este tempo pode representar algo entre uma a doze horas, dependendo do
tipo do vinho, e infelizmente não há uma tabela segura a ser seguida. Meu
conselho: abra com pelo menos uma hora e vá degustando, sentindo e celebrando
toda a experiência sensorial que o vinho pode dar. Já bebi chilenos que estavam
perfeitos com uma hora de decanters e outros que pediram três horas para chegar
no ponto. Numa degustação de Barolos, três horas foi pouco para eles se
abrirem, e ao final de cinco horas alguns já estavam bons. Natural que isto não
é sugerido para um almoço rápido ou uma noite onde haja propósitos mais
imediatos; há momentos na vida nos quais degustar um bom vinho é aproximar-se
com certeza de Deus!
Cuidado com
vinhos velhos, pois a decantação tem por propósito livrá-los da borra, e já
tendo atingido seu apogeu, estando suficientemente envelhecidos, não devem
ficar muito tempo dentro do decanter sob pena de morrerem. Neste caso, o melhor
é decantá-los pouco antes do serviço.
Vinhos do
dia-a-dia geralmente não precisam ser decantados, primeiro porque são feitos
para serem bebidos jovens, sendo suficientemente macios para consumo, tendo na
sua frutuosidade e simplicidade o principal fator de preferência, além de
raramente terem depósito.
Fundamental
para alguns, o importante é lembrar que o vinho bebido como experiência
sensorial deve dar prazer a quem o bebe, e o amante do vinho não deve se
intimidar por taças especiais, saca-rolhas mirabolantes ou decanters
cristalinos. Tudo tem o seu devido lugar, desde que se queira celebrar em
cantos, ou simplesmente celebrar!.