" MENDOZA, O HOMEM E SUA BATALHA CONTRA A NATUREZA “ – passei uma semana em Mendoza trabalhando com o amigo Luiz Alberto Torres no corte dos vinhos produzidos em seu vinhedo Clos de los Gaúchos, plantado no Condomínio The Vines of Mendoza.
Em
Mendoza está a maior concentração de vinícolas do continente. São mais de 160.000
hectares de vinhas diversas, com 17.000 vinhedos cultivados. Até o começo da
década de 1990, o destino quase obrigatório dos turistas amantes de vinhos era
a região de Luján de Cuyo, localizada a 25 quilômetros da cidade de Mendoza. Lá
estão adegas famosas como Catena Zapata, Luigi Bosca e Norton.
Entretanto,
nos últimos 15 anos ocorreu uma revolução nesta região, uma vez que a crise
econômica de 2001, uma das mais graves da História do país, atraiu investidores
estrangeiros para Mendoza, entre eles Michel Roland que criou o Clos de los
Siete, comprando terras a preços inacreditáveis no belíssimo Vale do Uco, a uns
cem quilômetros da capital provincial (uma hora e meia de carro), onde hoje
existem cerca de cem vinícolas. Entre elas, estão Diamands, Clos de Los Siete,
La Azul, Atamisque, Zorzal, Achával Ferrer, Viña Cobos entre outras.
Os
departamentos de Tunuyán, Tupungato e San Carlos estão envolvidos pelos cumes
arredondados do Cordón del Plata e escoltados pela majestosa Cordilheira dos
Andes, que oferecem um clima excepcional, fornecendo a tão célebre amplitude
térmica, que permite um grande desenvolvimento da videira. Seus cultivos têm
uma extensão de 10.000 hectares, e são irrigados pelo rio Tunuyán Superior, com
altitudes entre os 1.200 e os 900 metros acima o nível do mar.
Há
nesta região aproximadamente 13.000 hectares de vinhedos, caracterizada pela
sua capacidade para produzir uvas de excelente qualidade, da qual se obtém
vinhos aptos para guardas prolongadas. É atualmente uma das zonas mais
requeridas pelos investidores, especialmente pela sua capacidade para o
desenvolvimento de uma vitivinicultura de altitude.
As
cepas tradicionalmente cultivadas foram o Semillon e o Malbec; junto a eles, em
menor medida, Bonarda e Barbera, e outras castas vem sendo introduzidas com
sucesso entre elas a Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Syrah e Chardonnay
(áreas mais baixas).
O
projeto The Vines of Mendoza Private Vineyards é a experiência de possuir um
vinhedo no Vale do Uco, com a qual você sempre sonhou, tendo a chance de
trabalhar com o enólogo consultor, mundialmente aclamado, Santiago Achával e uma
equipe de experts capitaneados por Pablo Martorell e Mariana Onofri, para criar
os vinhos de cada proprietário.
A
The Vines of Mendoza elabora cerca de 300 safras customizadas em sua bodega a
cada ano, para mais de 125 proprietários dos vinhedos privativos, além de produzir
o próprio rótulo Recuerdo, pontuado pela Wine Spectator e pela Wine Advocate
com 92 pontos.
Estar
em Mendoza é uma grande oportunidade para avaliar a evolução dos vinhos
argentinos, uma vez que a província produz cerca de 75% do vinho argentino. E
não faltam novidades, entre elas o crescente aparecimento de rótulos de Petit
Verdot (aliás, são poucos os lugares no mundo onde provei varietais desta
casta, que em Bordeaux quando aparece em cortes, poucas vezes vai além dos 3%
na mistura final), alguns rótulos de Tannat (até então, sempre visto como uma
casta emblemática uruguaia) e uma melhoria consistente dos rótulos de Cabernet
Sauvignon.
Claro
que os vinhos de Malbec (seja monovarietais ou em blends) ainda são a grande
maioria dos rótulos presentes nas prateleiras, criando grande consistência pela
qualidade obtida (Robert Parker vaticinava que a Malbec seria a casta da moda
em 2015 !), mas ainda há ainda grande espaço para outras uvas como Merlot,
Tempranillo, Bonarda, Syrah...
Ou
seja, ainda teremos oportunidade de provar grandes vinhos vindos da região,
pois o desenvolvimento de novos vinhedos e vinhos parece nunca parar!
Como
já estive em várias épocas do ano na região, sempre observo os cumes da Cordilheira
dos Andes, ora cobertos de neve, ora semi cobertos. Mas desta vez, os cumes estavam
encobertos por nuvens que foram se concentrando sob a forma de uma tempestade.
De
repente, me lembrei da Abertura 1812 de Tchaikovsky, com o som dos canhões na
batalha de Borodino. Em 1812 os exércitos Napoleônicos tinham invadido a
Rússia, e pouco tempo depois estavam às portas de Moscou. O Czar decidiu que
não deveria ceder mais terreno e colocou seu exercito a pouco mais de 100 kms
da capital, mais de 100 mil homens e 600 canhões para deter Napoleão na famosa
batalha de Borodino. Os russos perderam a batalha, porém causaram tantas baixas
no exército inimigo que junto a outros fatores, obrigaram Napoleão a se
retirar. Quase 70 anos depois o Czar da Rússia pediu a Tchaikovsky uma
composição para comemorar o aniversário daquela batalha junto ao aniversário da
coroação do Czar. Quando executada em lugares abertos são usados canhões para simbolizar
a revanche russa
Mas porque esta história ?
No
Vale do Uco não há grandes problemas de tempestades e especialmente a chuva com
granizo. Neste momento em que as uvas brancas estão praticamente maturadas e as
tintas em sua última fase da pintura, a chuva já seria um pesar. O granizo
seria um desastre !
Nas
regiões próximas do Vale, a incidência de granizo é freqüente e os produtores
argentinos aprenderam que o bombardeio das nuvens pode ser a diferença entre
perder ou ganhar a batalha. O som dos canhões se confunde com o resmungar das
nuvens carregadas, que respondem com trovoadas graves e sonoras por pelo menos
duas horas.
Mas
no final da tarde as nuvens vão se tornando menos densas, chove de maneira
grossa por 20 minutos e o sol vem dar seu adeus para as videiras. Neste dia, o
homem ganhou a batalha contra a natureza !
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