segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O CHATEAU CLOS DE VOUGEOT

O CHATEAU CLOS DE VOUGEOT ” – Há alguns filmes que marcam a nossa vida e a “Festa de Babette” é um deles.  A Festa de Babette, (Babettes Gæstebud), é um filme franco-dinamarquês de 1987, dirigido por Gabriel Axel. Roteiro adaptado da obra de Karen Blixen, cujo pseudônimo era Isak Dinesen, sendo que o anonimato se justifica, uma vez que mulheres escritoras não seriam vistas de forma “positiva” em uma sociedade machista e hipócrita como a dinamarquesa daquela época.
A história se passa numa península da Dinamarca no ano de 1871, onde duas irmãs, devotas de seu falecido pai, um rigoroso pastor luterano, pregavam a salvação através da renúncia. Babette é uma mulher desconhecida que lhes bate à porta em busca de trabalho e abrigo, e que mais tarde revelaria que seria uma refugiada da guerra civil francesa.
Uma vez acolhida, Babette observa que todos na vila possuem um hábito “um tanto curioso” referente ao ato de comer; alimento básico apenas para sobrevivência, sem cor, sem sabor ou algo que estimule o sentido do paladar. No início, Babette tentou recompor o que uma vez foi esse tipo de alimentação e aos poucos, utilizou de seu aprendizado para oferecer mais sabor aquela comida e aos poucos tentar modificar a mentalidade dos aldeões.
Certo dia, Babette recebe uma correspondência informando que havia sido premiada na loteria, e ela decide usar todo o dinheiro, oferecendo um jantar para as duas mulheres que lhe acolheram e seus respectivos convidados em forma de agradecimento por sua hospitalidade.
Babette se dedica em tempo integral ao jantar, os pratos são servidos em ordem específicas, talheres, prataria, copos e taças são postos a mesa, ninguém nunca havia visto nada igual até então, com exceção do General convidado. Enquanto isto, como previamente combinado, os moradores religiosos do vilarejo tentam manter o foco na fé, nas preces e na doutrina aprendida, mas, em contrapartida, o General aprecia todos os pratos que ali são expostos, de forma simples e genuinamente convidativa. Aos poucos, os participantes começam a perceber uma naturalidade no comer, algo que não interfere diretamente em sua religião e que desmistifica o conceito de pecado inserido no prazer de comer. Ao fim do banquete todos estavam extasiados, “alimentados de corpo e alma”.
Deixemos de lado as questões sobre as reflexões filosóficas deste maravilhoso filme sobre o pecado da gula, e observamos que na ordenação dos pratos servidos, algo muito importante é a específica harmonização dos vinhos e neste aspecto um deles me cativou por completo o Clos de Vougeot.
         O Château du Clos de Vougeot fica na Route des Vins de Bourgogne (rota dos vinhos da Borgonha), no vilarejo de Vougeot, na metade do caminho entre Dijon e Beaune. Situado em meio aos belos vinhedos no coração da Côte de Nuits, é o mais famoso mosteiro/castelo da região. A particularidade do Clos de Vougeot é que apesar de estar situado em pleno vinhedo, lá não se degusta nenhum vinho. Mesmo sem degustação, vale a pena fazer uma visita só para ver as gigantescas prensas de uva originais do séc. XII, e o belo pátio interior do mosteiro.
A história do Clos de Vougeot ou Clos-Vougeot começou no início do século XII quando os monges cistercienses plantaram suas primeiras uvas e iniciaram a construção deste grandioso mosteiro, chamado de castelo, o “Château Clos de Vougeot”, uma arquitetura medieval cercada por um muro de pedra, que só foi concluída cerca de 800 anos depois, no final do século XVIII.
Este muro de pedras, chamado em francês de “clos”, é usado para indicar um vinhedo cercado (murado), em geral de pequena dimensão e alta qualidade, de onde nascem grandes vinhos. Situado a 800 metros de Romanée-Conti, entre Musigny e os Grands Echézeaux, Clos de Vougeot é a maior apelação Grand Cru da Borgonha, é o maior vinhedo cercado da França, sua superfície é de 50 hectares de vinhas, mas uma enormidade para os padrões da região. As vinhas pertencem a mais 80 viticultores diferentes que produzem e comercializam seus vinhos de forma totalmente independente.
Se durante a Idade Média o mosteiro foi um berçário de vinhas que a Ordem Cisterciense ia espalhando por onde se instalava, com a Revolução Francesa, o Clos de Vougeot foi desapropriado da Igreja (consequência do decreto constituinte que colocou todos os bens eclesiásticos a disposição da nação em 1789), foi fracionado, e revendido sucessivamente ao longo dos dois últimos séculos. Destaque para a venda a Leonce Boquet, em 1889, que lhe empreendeu uma importante reabilitação. Anos depois o seu novo proprietário Etienne Camuzet, vendeu-o para a Confrèrie da Chevaliers du Tastevin (Confraria dos Cavaleiros do Taste Vin), sobre a qual escrevemos no primeiro artigo deste ano.
Atualmente o Château Clos de Vougeot é aberto a visitação, abrigando em suas instalações um grande pátio, o poço, a cozinha dos abades, o dormitório dos monges convertidos, a dispensa, a coleção de tastevin, os lagares e maravilhosas prensas medievais, a enoteca e a tumba de Léonce Boquet. 
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Chateau serviu como quartel-general nazista, e não foi dinamitado por pouco, apesar das ordens de Berlim.
O vinho do Clos de Vougeot é um Grand Cru tinto, elaborado a partir da Pinot Noir, com rendimento máximo de 40 hectolitros/hectare, na região de Nuits-St-Georges, na Borgonha. Apesar de toda a fama, o vinho do Clos de Vougeot nem sempre é certeza de prazer, uma vez que a diversidade na qualidade dos rótulos dependerá das particularidades das parcelas do terreno onde foram colhidas as uvas. Os terrenos do topo do Clos fazem os melhores vinhos, os do meio, vinhos bons e os da base, vinhos regulares que às vezes se beneficiam injustamente dos preços alcançados pela apelação.
Além do efeito safra, não tenha dúvida que o nome do produtor será fundamental para você não “desperdiçar” seu dinheiro. Alguns produtores são confiáveis como Bouchard Père et Fils, Georges Mugneret, Louis Jadot, Faiveley, François Labet / Château de La Tour e Joseph Drouhin. Para os demais, vale a pena consultar os Guias de Vinhos especializados da região.
Durante o Roteiro que empreenderemos pela Borgonha entre 02 a 15 de junho, a visita ao Chateau Clos de Vougeot será sem dúvida, um dos pontos altos da programação. Um Roteiro imperdível!

Nenhum comentário:

Postar um comentário