“ EXISTE O VERDADEIRO CONNAISSEUR ? ” – Há alguns anos atrás, vi um filme (Contos do Terror, no episódio "O Barril de Amontillado", baseado em conto de Edgar Allan Poe), no qual Vincent Price e Peter Lorre desempenhavam papéis brilhantes. O primeiro vivia a pele de um aristocrata sommelier acostumado a bons vinhos e o segundo o de um beberrão (mas com grande capacidade de reconhecer o vinha à sua taça). Colocados um frente ao outro, deveriam descobrir quais vinhos estavam degustando. Uma a uma as taças foram sendo bebidas e eles, acabaram acertando os vinhos apesar do espanto geral, uma vez que o sommelier teria toda condição de acertar região de produção e safra, mas um beberão ?
Isto
me faz lembrar que muitas vezes somos estimulados a pensar que o conhecimento
vem antes do que a prática, mas com o tempo as coisas podem se inverter. Dificilmente
somos capazes de reconhecer vinhos sem termos bebido com atenção alguma
“litragem” e discutido origens, técnicas de degustação, etc. No cinema a coisa
pode ser assim, fácil para quem conhece, ou para quem estava acostumado a beber
muito; mas na realidade, saber qual vinho estamos bebendo é uma façanha digna
de nota, se não lermos o rótulo.
Com
a globalização as uvas saíram dos seus habitats naturais e ganharam ares
internacionais, especialmente as francesas, que foram plantadas por toda parte,
buscando criar vinhos no estilo de Bordeaux ou Borgonha. Em seus novos territórios,
essas uvas criaram excelentes vinhos, que nem sempre guardam semelhanças com os
terroirs originais do Velho Mundo.
Influenciadas por condições climáticas excepcionais, as videiras deram vinhos
com fruta exuberante e alta potência alcoólica, criando um verdadeiro estilo
Novo Mundo, que encanta muitos iniciados pelo fato de serem na sua maioria,
vinhos arrebatadores e prontos para a taça.
O
grande desafio que proposto para um enófilo é o teste às cegas. Sem saber o que
será servido, ele é chamado a descrever o que está bebendo. Rodrigo Fonseca
costuma dizer que não há nada que nos deixe mais humildes no Mundo do Vinho, do
que uma prova às cegas. Em dezembro de 2004 (puxa, já se passaram 10 anos !), a
EXAME PRIMEIRA PESSOA convidou três especialistas para uma prova às cegas. Aguinaldo Zackia
Albert, Lamberto Percussi e Ricardo Bohn Gonçalves, foram escolhidos por sua
vasta experiência.
A
degustação aconteceu na Enoteca Fasano/SP, às 11 horas da manhã, parte do dia
em que os paladares estão mais apurados. Nos copos, cinco amostras
cuidadosamente escolhidas por Manoel Beato, o sommelier principal do grupo
Fasano. Na ordem, foram servidos o Sauvignon Blanc 2003 Villard (importado pela
Decanter), o Châteu de Pibarnon 1999 (Expand), o Cotes de Beaune Joseph Drouhin
2002 (Mistral), o Cabernet Sauvignon Reserva 2002 da Argentina Terrazas (LVMH),
e o supertoscano Lê Bronche 1999 (Enoteca Fasano). Foram confrontadas perguntas
sobre as origens, os tipos de uva, as safras e quanto pagariam pelo vinho. O
índice de acerto foi de 50%, considerado muito bom, porque atualmente as
produções estão bastante niveladas e as uvas que indicam determinadas regiões
se espalharam por todo o mundo.
Na
primeira taça, o trio não teve dúvida de que se tratava de um vinho feito com a
cepa Sauvignon Blanc. A cor amarelo-palha e os aromas leves e frutados,
lembrando maracujá e frutas cítricas, foram citados por todos como as pistas
principais. A questão foi a sua procedência: Nova Zelândia ou Chile? “- O estilo do vinho lembra a Nova Zelândia,
mas pode ser um chileno moderno”, arriscou Zackia. Era chileno.
Na
segunda taça, a dificuldade foi maior. Ninguém apostou na uva Mourvèdre,
característica de Provença, no sul da França. “- Foi a pegadinha da
degustação”.
Na
Pinot Noir, o terceiro copo, a própria cor do vinho - um vermelho violáceo mais
claro, denunciou a origem para os especialistas. Os aromas de cereja e
especiarias confirmaram a primeira impressão e todos cravaram, corretamente, a
região de Borgonha, na França.
As
duas últimas garrafas mostraram como se pode confundir numa prova às cegas.
Produzidos com a Cabernet Sauvignon, os vinhos tinham estilos totalmente
diversos. Na primeira, ninguém conseguiu descobrir a uva. Percussi chegou até a
apontar que os dois poderiam ter Cabernet, mas desistiu no último momento. “Tem
um aroma de chocolate, ameixa seca”, disse Percussi. No final, acabou apostando
também na uva Malbec. No quinto e último vinho, não houve dúvida de que se
tratava de um autêntico representante do Velho Mundo. “É um vinho bem
encorpado, exuberante”, elogiou Gonçalves.
Existem
algumas técnicas que facilitam a descoberta do vinho. A primeira é a anotação
de detalhes para identificar a bebida. Reconhecer cores, aromas e, por último,
as sensações gustativas. Nas uvas brancas, por exemplo, são comuns os aromas cítricos,
os de abacaxi, pêra, maçã-verde e maracujá. Nas tintas, as associações passam
por cereja, cassis, ameixa, amora, especiarias, couro e uma vasta gama de
gostos e cheiros não tão presentes no dia-a-dia do brasileiro, criando um
imenso conjunto de informações e variáveis.
Depois
das anotações, o passo seguinte é recorrer à memória para identificar e
classificar todas as pequenas, porém importantíssimas, pistas. E a resposta
correta sobre o vinho não é fácil para ninguém, a ponto da crítica inglesa
Jancis Robinson, uma grande referência na área, dizer que seria mais difícil
ser aprovada no Master of Wine hoje, do que em 1984, quando ela fez o teste.
Belo
Horizonte conta hoje com uma série de cursos básicos, e todos eles são um bom
ponto de partida para quem se interessar mais pelo vinho. Afinal, ninguém nasceu
sabendo ! ...
Concordo Marcio! Cada vez mais complicado descortinar corretamente um vinho, casta, procedência e idade!! Só com exercícios muito intensos, constantes e apurados de degustação. A grande produção mundial passou por um processo de pasteurização enorme mas, por sorte, de uns anos pra cá, alguns produtores voltaram-se para suas castas e "terroirs"... Talvez, isso nos traga mais felicidade nas taças e um grau de acerto maior nas próximas degustações!!! Abraços, Lamberto Percussi
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