segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

EXISTE O VERDADEIRO CONNAISSEUR ?


EXISTE O VERDADEIRO CONNAISSEUR ? ” – Há alguns anos atrás, vi um filme (Contos do Terror, no episódio "O Barril de Amontillado", baseado em conto de Edgar Allan Poe), no qual Vincent Price e Peter Lorre desempenhavam papéis brilhantes. O primeiro vivia a pele de um aristocrata sommelier acostumado a bons vinhos e o segundo o de um beberrão (mas com grande capacidade de reconhecer o vinha à sua taça). Colocados um frente ao outro, deveriam descobrir quais vinhos estavam degustando. Uma a uma as taças foram sendo bebidas e eles, acabaram acertando os vinhos apesar do espanto geral, uma vez que o sommelier teria toda condição de acertar região de produção e safra, mas um beberão ?
Isto me faz lembrar que muitas vezes somos estimulados a pensar que o conhecimento vem antes do que a prática, mas com o tempo as coisas podem se inverter. Dificilmente somos capazes de reconhecer vinhos sem termos bebido com atenção alguma “litragem” e discutido origens, técnicas de degustação, etc. No cinema a coisa pode ser assim, fácil para quem conhece, ou para quem estava acostumado a beber muito; mas na realidade, saber qual vinho estamos bebendo é uma façanha digna de nota, se não lermos o rótulo.
Com a globalização as uvas saíram dos seus habitats naturais e ganharam ares internacionais, especialmente as francesas, que foram plantadas por toda parte, buscando criar vinhos no estilo de Bordeaux ou Borgonha. Em seus novos territórios, essas uvas criaram excelentes vinhos, que nem sempre guardam semelhanças com os terroirs originais do Velho Mundo. Influenciadas por condições climáticas excepcionais, as videiras deram vinhos com fruta exuberante e alta potência alcoólica, criando um verdadeiro estilo Novo Mundo, que encanta muitos iniciados pelo fato de serem na sua maioria, vinhos arrebatadores e prontos para a taça.
O grande desafio que proposto para um enófilo é o teste às cegas. Sem saber o que será servido, ele é chamado a descrever o que está bebendo. Rodrigo Fonseca costuma dizer que não há nada que nos deixe mais humildes no Mundo do Vinho, do que uma prova às cegas. Em dezembro de 2004 (puxa, já se passaram 10 anos !), a EXAME PRIMEIRA PESSOA convidou três especialistas  para uma prova às cegas. Aguinaldo Zackia Albert, Lamberto Percussi e Ricardo Bohn Gonçalves, foram escolhidos por sua vasta experiência.
A degustação aconteceu na Enoteca Fasano/SP, às 11 horas da manhã, parte do dia em que os paladares estão mais apurados. Nos copos, cinco amostras cuidadosamente escolhidas por Manoel Beato, o sommelier principal do grupo Fasano. Na ordem, foram servidos o Sauvignon Blanc 2003 Villard (importado pela Decanter), o Châteu de Pibarnon 1999 (Expand), o Cotes de Beaune Joseph Drouhin 2002 (Mistral), o Cabernet Sauvignon Reserva 2002 da Argentina Terrazas (LVMH), e o supertoscano Lê Bronche 1999 (Enoteca Fasano). Foram confrontadas perguntas sobre as origens, os tipos de uva, as safras e quanto pagariam pelo vinho. O índice de acerto foi de 50%, considerado muito bom, porque atualmente as produções estão bastante niveladas e as uvas que indicam determinadas regiões se espalharam por todo o mundo.
Na primeira taça, o trio não teve dúvida de que se tratava de um vinho feito com a cepa Sauvignon Blanc. A cor amarelo-palha e os aromas leves e frutados, lembrando maracujá e frutas cítricas, foram citados por todos como as pistas principais. A questão foi a sua procedência: Nova Zelândia ou Chile?  “- O estilo do vinho lembra a Nova Zelândia, mas pode ser um chileno moderno”, arriscou Zackia. Era chileno.
Na segunda taça, a dificuldade foi maior. Ninguém apostou na uva Mourvèdre, característica de Provença, no sul da França. “- Foi a pegadinha da degustação”.
Na Pinot Noir, o terceiro copo, a própria cor do vinho - um vermelho violáceo mais claro, denunciou a origem para os especialistas. Os aromas de cereja e especiarias confirmaram a primeira impressão e todos cravaram, corretamente, a região de Borgonha, na França.
As duas últimas garrafas mostraram como se pode confundir numa prova às cegas. Produzidos com a Cabernet Sauvignon, os vinhos tinham estilos totalmente diversos. Na primeira, ninguém conseguiu descobrir a uva. Percussi chegou até a apontar que os dois poderiam ter Cabernet, mas desistiu no último momento. “Tem um aroma de chocolate, ameixa seca”, disse Percussi. No final, acabou apostando também na uva Malbec. No quinto e último vinho, não houve dúvida de que se tratava de um autêntico representante do Velho Mundo. “É um vinho bem encorpado, exuberante”, elogiou Gonçalves.
Existem algumas técnicas que facilitam a descoberta do vinho. A primeira é a anotação de detalhes para identificar a bebida. Reconhecer cores, aromas e, por último, as sensações gustativas. Nas uvas brancas, por exemplo, são comuns os aromas cítricos, os de abacaxi, pêra, maçã-verde e maracujá. Nas tintas, as associações passam por cereja, cassis, ameixa, amora, especiarias, couro e uma vasta gama de gostos e cheiros não tão presentes no dia-a-dia do brasileiro, criando um imenso conjunto de informações e variáveis.
Depois das anotações, o passo seguinte é recorrer à memória para identificar e classificar todas as pequenas, porém importantíssimas, pistas. E a resposta correta sobre o vinho não é fácil para ninguém, a ponto da crítica inglesa Jancis Robinson, uma grande referência na área, dizer que seria mais difícil ser aprovada no Master of Wine hoje, do que em 1984, quando ela fez o teste.
Belo Horizonte conta hoje com uma série de cursos básicos, e todos eles são um bom ponto de partida para quem se interessar mais pelo vinho. Afinal, ninguém nasceu sabendo ! ...

Um comentário:

  1. Concordo Marcio! Cada vez mais complicado descortinar corretamente um vinho, casta, procedência e idade!! Só com exercícios muito intensos, constantes e apurados de degustação. A grande produção mundial passou por um processo de pasteurização enorme mas, por sorte, de uns anos pra cá, alguns produtores voltaram-se para suas castas e "terroirs"... Talvez, isso nos traga mais felicidade nas taças e um grau de acerto maior nas próximas degustações!!! Abraços, Lamberto Percussi

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