segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

CHAMPAGNE - PARTE 1


CHAMPAGNE - Parte 1  ” – Chegamos ao mês de dezembro, com início das Confraternizações de Final de Ano e os amigos leitores do VINOTICIAS perguntam qual o melhor espumante para as Festas, qual a diferença entre Champagne e  Espumante e resolvi escrever esta artigo para ajudar a explicar certas dúvidas.
De todos os vinhos do mundo, apenas um é atribuído a um inventor – o Champagne. Dom Pierre Perignon, monge beneditino, tesoureiro da Abadia de Hautvillers, foi desenvolver as atividades vinícolas da comunidade, e teria criado o vinho entre 1668 a 1715. Hautvillers possuía um modesto vinhedo de cerca de dez hectares e recebia dízimos em uvas das aldeias vizinhas, especialmente de Ay e Avenay, onde a Pinot Noir era plantada. Os dízimos eram recolhidos em barris durante a colheita, preenchidos com uvas pisadas. A região não conseguia produzir vinho tinto de qualidade, e seus brancos eram em geral desbotados.
Dom Perignon organizou a colheita para criar um vinho totalmente branco. Depois trabalhou as técnicas de plantio, colheita e preservação de modo a tornar o vinho mais aromático, além de sedoso e com sabor persistente. Suas regras foram registradas em 1718, três anos após sua morte, pelo cônego Godinot, que o sucedeu como tesoureiro: 1- só usar uvas Pinot Noir na produção do vinho. 2- podar as videiras para não ultrapassarem 90 cm de altura e produzir poucos cachos, 3- colher com todo o cuidado para que as uvas ficassem intactas e tão frias quanto possível, fazer a colheita nas primeiras horas da manhã. Descartar uvas partidas ou machucadas. 4- Não pisar as uvas e nem permitir que as cascas macerem no sumo.
Dom Perignon era abstêmio e se alimentava praticamente de queijo e frutas. Provava as uvas colhidas à tardinha e deixadas descansar numa janela, para serem experimentadas na manhã seguinte. Misturava as uvas conforme seu amadurecimento e sabores, fazendo uma lista diária do que seria colhido nas parcelas do vinhedo.  O vinho era instável, com tendência a interromper a fermentação com o primeiro frio do outono e retomá-la com o primeiro calor da primavera. Guardado em barris não oferecia problema, mas dom Perignon descobriu que o vinho se cansava e perdia todo aroma, preferindo então engarrafá-lo o mais depressa possível. Mas as garrafas não agüentavam as pressões internas surgidas no processo de uma segunda fermentação e costumavam explodir, lançando estilhaços de vidro para todo lado. O moderno processo de remuage só teria início 100 anos depois, bem como o desenvolvimento de técnicas que permitiram o aparecimento de garrafas mais resistentes.
Vinhos espumantes não eram novidade na França. Já se conheciam os Blanquette e Cremant de Limoux, provenientes das colinas que cercam a cidade Limoux, produzidos com uvas Mauzac, Chenin Blanc, Mauzac Blanc e Pinot Noir, utilizando o Méthode Traditionnelle. Há documentos que mostram que já era consumido em 1531. Geralmente têm aromas elegantes e de boa complexidade, com toques cítricos, de fermentos e panificação, toques florais. Na boca mostram-se redondos e muito agradáveis.
No entanto, a história do Champagne começa muito antes disto tudo, uma vez que a região sempre foi uma área de progresso e cenário de guerras. Nesta região o rei franco Clóvis venceu os visigodos, assumiu o cristianismo como religião e fundou a dinastia francesa. Desde então, os reis franceses passaram a ser coroados em Reims. Séculos mais tarde, Napoleão (grande amante de Champagne) se fez coroar em Reims. Quando em 1240 o Conde Thibaud IV retornou das cruzadas, ele trouxe as primeiras mudas de uma casta que seus descendentes acreditam ser a Chardonnay. A partir desta época, o conde passou a ser conhecido também como o conde de Champagne.
O champagne foi o vinho da corte francesa. Luís XIV durante sua vida só bebeu champagne (teria tomado vinho tinto da Borgonha no final da vida, por conselho médico). Há a lenda da taça do champagne ter sido moldada no seio de Maria Antonieta no reinado de Luís XVI. Entretanto este vinho só conseguiu seu sucesso devido ao uso da garrafa e da rolha. A garrafa já existia desde os fenícios, que inventaram o vidro. Era artesanal, mas proliferou durante a Revolução Industrial. O tipo mais resistente à pressão do vinho foi criado pelos ingleses. O uso da rolha foi sugerido por monges espanhóis que visitaram a região.
Até 1846 o Champagne sempre foi um vinho suave e doce. Foram os ingleses que pediram nesta época para que Perrier-Jouet fizesse um vinho seco, que acompanhasse as refeições. A maison não aceitou inicialmente a encomenda, mas em 1870 apareceram os primeiros vinhos secos, chamados com desdém pelos franceses como English Cuvée. Hoje o Brut domina o mercado.
A Ruinart é a mais antiga maison da região. Foi criada em 1729 por Nicolas Ruinart, seguindo a tradição de produção de champagne do seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, contemporâneo de Dom Perignon.
A região sofreu com a Phylloxera e poucos vinhedos restaram intactos, entre eles um da Maison Bollinger. Hoje em dia este Champagne é o preferido de James Bond !!!

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