segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O QUE FOI AFINAL A PHYLLOXERA ?


" O QUE FOI AFINAL A PHYLLOXERA ? “ – Um assunto que sempre gera perguntas durante os Cursos de Vinho é a questão do que foi a praga da Phylloxera (também há a grafia filoxera) que atacou os vinhedos europeus em meados do 1800. Para explicar melhor o assunto, pesquisei o tema e escrevi o presente artigo.
Na verdade, as primeiras tentativas de produção de vinho nos Estados Unidos podem ser consideradas um desastre. Os colonos americanos tiveram um grande apoio francês durante as guerras de libertação do domínio inglês (Alguns historiadores dizem que Luis XVI perdeu a cabeça na guilhotina por financiar a Independ~encia Americana, deixando as finaças francesas em bancarrota). Assim, os imigrantes franceses que vieram para o Novo Mundo trouxeram vinhas da variedade européia vitis vinifera, que estavam acostumados a plantar e conduzir, e já haviam se mostrado produtivas no Velho Mundo.
 
Entretanto, por razões desconhecidas na época, os seus vinhedos experimentais definharam e morreram; tendo o clima sido considerado como o grande vilão, quando, na verdade, o pequeno pulgão da filoxera foi provavelmente a razão para estas falhas.
As vinhas nativas do Novo Mundo eram capazes de florescer e crescer, maturando suas uvas, mas produzindo sabores e aromas que não atendiam a expectativa européia, acostumada aos vinhos criados com uvas da própria Vitis vinifera. Somente algumas áreas do novo continente foram capazes de cultivar com sucesso as videiras nativas, como Vitis labrusca, vitis aestivalis, vitis rupestris e Vitis riparia, e produzir vinhos aceitáveis para alguns americanos e europeus.
No entanto, durante meados do Século XIX existia um forte interesse em botânica, especialmente na alta classe social da Inglaterra Vitoriana. Durante os anos de 1850 e 1860, uma videira americana chamada Isabella provou ser muito popular como decoração ornamental em jardins e foi enviado em massa para a Europa a partir dos Estados Unidos. As vinhas tinham sido transferidas por anos sem danos ao meio ambiente europeu, mas, com a invenção de uma caixa de vidro chamada de “Caixa de Transporte Ward” (em 1835), que mantinha as condições das plantas se desenvolverem durante sua jornada ao exterior, os parasitas que se alimentam das vinhas foram capazes de sobreviver à viagem e se desenvolveram nos jardins e vinhedos da Europa.
Há ainda outra teoria que propõe que os navios a vapor faziam a travessia do oceano mais rápido que as viagens anteriores, o que permitiu que os pulgões sobrevivessem ao trajeto. Pensava-se que se a vinha viesse infectada com pulgões, eles teriam morrido no momento em que a longa viagem por mar fosse concluída. Mas os navios a vapor e a estrada de ferro reduziram drasticamente o tempo de viagem pelo interior dos Estados Unidos e ao exterior, permitindo que os insetos sobrevivessem.
As vinhas infectadas raramente foram utilizadas para a produção de vinho, mas elas foram cultivadas em grandes jardins com vinhedos nas proximidades. Desta maneira, a filoxera foi introduzida na Europa.
           Devido ao ciclo de vida da filoxera e a sua propagação lenta inicialmente, mas exponencial, os efeitos da sua presença não foram observados durante vários anos. O inseto foi identificado já em 1863 por um entomologista na Universidade de Oxford chamado JO Westwood depois que ele recebeu amostras do inseto de um subúrbio de Londres, mas seus efeitos sobre as videiras européias nativas ainda era desconhecida.
Naquele mesmo ano, várias vinhas da região de Rhone da França foram infectados, mas a causa não era aparente até vários anos depois. O primeiro registro documentado da doença aconteceu em 1863, no Languedoc, na França. Misteriosamente, as vinhas iam murchando e morrendo. Na ocasião, os viticultores não notaram a presença do inseto e compararam o processo de evolução da doença ao da tuberculose. Rapidamente, a praga espalhou-se pela França e pela Europa. Em 15 anos, 40% das vinhas da Europa estavam arrasadas.
A verdade é que uma vez infectada, a vinha rapidamente murchava e começava a secar. Quando os pulgões foram observados, alguns especulam que eles foram um resultado da doença, não a causa, e culpou-se as falhas de vinha pelo excesso de chuva, ou o frio intenso do inverno passado. Nos anos seguintes, as primeiras infestações, muitos vinhedos apodreceram e os efeitos surgiram no resto da Europa, bem como, embora a principal concentração foi na França.
O impulso historicamente mais significativo foi a criação da Comissão de Combate a Doença da Vinha pela Sociedade Agrícola de Vaucluse. Esta sociedade incluía latifundiários, horticultores, entomologistas e Jules Émile Planchon, o chefe do Departamento de Ciências Botânico da Universidade de Montpellier. Eles investigaram campos com vinhas sadias e murchas e morrendo lentamente.
Nas raízes das plantas murchas podia-se ver a olho nu algumas manchas amareladas. Uma lupa revelou que elas eram aglomerados de insetos, que esgotavam a vinha mais forte.  No ano seguinte, Planchon, o entomologista Louis Vialla e Jules Lichtenstein foram despachados pela Sociedade Agrícola da França para continuar a investigação do pulgão, uma vez que haviam recebido correspondência do Entomologista do Estado de Missouri, Charles Riley. Ele escreveu que os pulgões encontrados por Planchon eram de fato os mesmos que haviam sido estudados nos Estados Unidos, mas que não tinha tido um efeito tão desastroso sobre as vinhas americanas.
Durante os primeiros anos, a filoxera manteve-se um flagelo incompreendido e por vários anos depois um inimigo invencível. Os cientistas haviam encontrado a causa da devastação que veio da América, mas a cura ainda não estava à vista. A Comissão Francesa reconheceu o trabalho de Planchon e ofereceu uma recompensa de 20 mil francos a quem pudesse encontrar uma cura para os ataques do pulgão.
Um botânico francês chamado Léo Laliman, que teve as duas espécies de videiras americanas e européias em seu jardim, relatou à Sociedade Agrícola da França que as videiras americanas haviam resistido à invasão da filoxera, enquanto as vinhas européias haviam perecido. Leo Laliman e Gaston Bazille, sugeriram a possibilidade de que a variedade de vitis vinifera podia ser enxertada em porta-enxertos de videiras americanas, resistentes à doença, resolvendo assim o problema. A tática foi testada e funcionou. Este processo não combinava a genética das duas plantas, e criava uma planta composta, e mais resistente. Mas ainda houve bastante discussão entre os viticultores até que o método fosse largamente utilizado na reconstrução das videiras mundo afora.
Durante a busca pela solução a praga, verificou-se que a filoxera era resistente a todos os inseticidas existentes no momento. A produção de vinho na França caiu 72% em 14 anos. De acordo com o Oxford Companion to Wine, "cerca de 85 por cento de todos os vinhedos do mundo são plantados em porta-enxertos que se presume serem resistentes à filoxera.
No entanto, para quem pensa que a crise estava resolvida, o Professor Battista Grassi estimava que apenas cerca de 10% das videiras da Itálias foram infectadas em 1912.
A razão para a propagação lenta era a natureza relativamente isolada das vinhas italianas e o hábito de crescimento de muitas vinhas através das árvores e arbustos.
O primeiro relato da filoxera na Itália foi perto do Lago de Como, mas as regiões mais duramente atingidas foram a Sicília e Calábria. A praga foi notada na Perugia em 1891, e chegou a Gubbio em 1899. Em um artigo do New York Times publicada dia 8 de novembro de 1895 o cônsul italiano estimava que os salários perdidos na Sicília, no início da década de 1890 totalizaram mais de trinta milhões de dólares. Muitos vinicultores italianos viram na crise francesa das vinhas, uma oportunidade econômica para exportar os seus vinhos, sem pensar que os riscos para sua própria economia eram eminentes. De fato, em 1909, cinco milhões de hectolitros de exportações de vinho italiano para a França fizeram cerca de 10% do vinho consumido pelos franceses.
Como a infestação atingiu a Itália mais tarde, e muito mais lentamente, sua erradicação foi muito mais facilmente abordada na Itália do que na França. Itália, junto com muitos outros países europeus, decretou uma proibição temporária de plantas que podiam ser portadoras da filoxera em seus vinhedos.
O governo forneceu estacas americanas, junto com os subsídios aos agricultores que plantassem vinhas enxertadas. Como resultado da introdução mais tarde, e a propagação mais lenta e subsídios governamentais, os vinhedos da Itália foram danificados muito menos do que os da França. Mesmo assim, a economia italiana viu-se corroída pelos efeitos da filoxera.
Ela reapareceu em 1916, às margens do Lago Trasimeno e só em 1933 chegou a Perugia novamente, assim como Foligno e Montefalco. Por que a chegada tardia e propagação lenta? O motivo foi o "atraso" da agricultura da Úmbria, que até a década de 1960  foi caracterizada por um regime conhecido como "policultura". Este sistema agrícola não foi baseado em parcelas de terra dedicada à monocultura;. Os campos tinham linhas amplamente espaçadas de "árvores de apoio" que proporcionaram uma estrutura em que as videiras podiam crescer, além de fornecer folhas para forragem para os animais. Intercaladas entre as árvores e as vinhas eram plantados grãos e hortas. As raízes das videiras neste sistema eram mais fortes do que as vinhas plantadas em monocultura.
Os cuidados com a possibilidade de proliferação da filoxera são relevantes, pois como se vê, ainda persiste em várias regiões. Como até hoje ainda não foi descoberto um remédio eficaz no combate à filoxera, recomenda-se a enxertia, em que a muda é formada por meio do enxerto da planta-mãe, com uma ou duas gemas, em uma estaca de um porta-enxerto. No entanto, ainda hoje, alguns produtores desafiam as probabilidades e a filoxera e plantam suas vinhas em pé franco, isso é, fincam diretamente as raízes da planta-mãe no solo, sem o uso de um porta-enxerto. E os que fazem uso desse expediente defendem com unhas e dentes essa opção.
Poucos vinhedos europeus resistiram sob a forma de pé-franco, mas a técnica vem sendo usada por alguns produtores, especialmente quando há solos arenosos na propriedade, pois sabe-se que o pulgão não se adapta e desenvolve nestes solos.
O Chile é um dos paraísos para os amantes dos vinhos cujas uvas provêm de vinhedos plantados em pé franco. Por conta da privilegiada condição geográfica, protegido por barreiras naturais, o país conseguiu escapar praticamente ileso da peste que abalou a viticultura mundial.
Uma grande dúvida que arrasta enólogos a uma discussão calorada é a questão da pureza de aromas e sabores de um pé franco em relação a uma vinha enxertada. Para muitos deles, as uvas plantadas em pé franco não são modificadas pelas características de um porta-enxerto. A qualidade e o refinamento melhora a cada vindima, assim como são refletidas com mais intensidade as características do terroir de onde elas vêm.
Para eles, é importante que um grande vinho expresse o terroir. Para alcançar isso (um vinho ter a expressão do seu terroir) é preciso de um sistema de enraizamento maduro e para ter um sistema de raízes maduro, é preciso que a vinha tenha alguma idade (profundidade). Então, todas as vinhas enxertadas possuem um certo limite de tempo de vida (muito menor se comparado com as não enxertadas) e, portanto, não conseguem alcançar a idade necessária para expressar completamente o terroir e a mineralidade. Assim, vinhedos enxertados produzirão, por definição, vinhos menos robustos do que os de pé franco.
Para estes produtores, apenas com vinhas em pé franco se consegue a máxima expressão do que os franceses chamam de terroir. Uma maneira de se obter uma planta de qualidade é plantar a vinha usando braços de outra vinha situada no mesmo vale e que tinha, naquele momento, entre 60 e 70 anos de idade. Essa outra vinha, com toda a certeza, derivada da vinha já plantada há muito tempo, teve sua adaptação ao clima, altura e solo realizada pela vinha original, a vinha-mãe, antes de plantar os seus ramos nos nossos. Se uma Tinta de Toro é diferente da Tempranillo é justamente por conta da adaptação secular à zona, adaptação esta que não sofreu nenhuma interferência até as duas últimas décadas do século passado, quando a Comunidade Europeia começou com a obrigação de plantar unicamente vinhas enxertadas sobre pés americanos.
As vinhas plantadas em pé franco sofrem menos, quando se deparam com situações extremas, justamente porque foram se adaptando ao longo do tempo, como que “endurecendo”’, exatamente como nós, seres humanos.

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