segunda-feira, 15 de setembro de 2014

UM VINHO DIGNO DE UM TROPEIRO


UM VINHO DIGNO DE UM TROPEIRO “ – Estrada reta, rodeada por planícies com leves colinas e um horizonte amplo. O clima é predominantemente úmido e os solos variados. Um cheiro de assado no ar e muitas garrafas de mate nos remetem aos pampas e aos rios e nações que formam a Bacia do Prata. Estamos ao sul do nosso sul e o que mais o denuncia é esta taça de vinho tinto cor violeta intenso, de perfume discreto, quase austero, que nos convida a saber a que veio. O país é o Uruguai e a cepa faz promessa de vida longa ao vinho e a quem o consome! O feijão está no centro da nossa mesa, juntamente com o seu principal parceiro, o arroz, mas também em uma série de receitas diferenciadas. Faz parte das leguminosas e é muito rico em ferro, fibras e proteínas. Ao fazer um levantamento dos pratos típicos brasileiros, além de estar no feijão com arroz, é surpreendente a sua presença do feijão de norte a sul, incorporado de algum modo às culinárias regionais. Assim, após a feijoada, foi a vez do Feijão Tropeiro e vem mais por aí! A denominação “tropeiro” se refere, especialmente, aos homens que transportavam gado e mercadorias, a cavalo, no Brasil colonial, a partir do  século XVII. Eram homens rudes e seus alimentos eram guardados em alforjes de couro, no lombo das mulas, em longas jornadas. Como boa mineira, eu e muitos somos absolutamente “apaixonados” pelo feijão tropeiro, não apenas pelo feijão, mas pelos seus acréscimos: farinha de mandioca, ovos, torresmo, linguiça...enfim, aquela “fartura” proteica e calórica que ele traz.
       
 

O prato é muito representativo da cozinha mineira, mas também muito consumido em São Paulo e Goiás e apreciado por muitos brasileiros. O feijão tropeiro, harmonizado no quarto encontro do Projeto O vinho em nossa mesa , não tinha nada da rusticidade dos tropeiros que lhe deram origem, pelo contrário, veio cercado de sofisticação e muito bom gosto.
Pela foto do prato, preparado pelo Chef Jaime Solares, temos uma idéia dele e da estética do lugar que nos recebeu. Uma mistura de botequim com alusões à Borracharia/Posto de Gasolina e um ar meio retrô, que me remeteu a cenas de clássicos de diretores alemães, filmados nas desérticas highways americanas, como Paris Texas, de Wim Wenders e Bagdá Café, de Percy Adlon. Imaginação fértil? Pode ser! Mas o lugar é um charme e vale a pena conhecer! 

  
A Borracharia Gastropub fica de fato dentro (ou ao lado) de um posto de gasolina, na Av. Afonso Pena, 4321, Serra. Eles nos receberam num dia mais frio e chuvoso para a harmonização às cegas com o feijão tropeiro. Participaram 9 vinhos, escolhidos pelos convidados, que levaram em conta certos aspectos técnicos, como: ter boa acidez, para fazer frente à gordura das carnes;  ter intensidade e estrutura suficiente para não ser subjugado pela potência do prato; trazer toques defumados, conferidos pela passagem em madeira para se harmonizar com as carnes defumadas; ter taninos já tratados pela longevidade, de forma a acompanhar o peso do prato, mas sem entrar em choque com as partes salgadas do feijão tropeiro; ser produto de variedades de uva com toques semelhantes aos herbáceos do prato. Pessoalmente, não achei um prato muito simples de harmonizar, especialmente por juntar alguns ingredientes difíceis, como o feijão em abundância (embatumado com a farinha) e os ovos, ambos muitos pastosos e com longa permanência em boca.
 Mas encontramos o vinho – com estrutura para acompanhar o prato e capacidade para lhe conferir certa vivacidade. E o segredo foi ser um varietal da Carmenère, uva que une doçura e toques vegetais herbáceos, elementos que se alinham com o gosto terroso do feijão. Vamos à breve descrição de cada harmonização: 

  Vinho Michelangelo Custoza DOC Novo Continente - Único branco levado ao encontro. Italiano, da região do Veneto. Trata-se de um vinho com certa cremosidade e dulçor, já evoluído. De modo geral, foi considerado muito leve para acompanhar o prato, mostrando um final de boca amargo após o contato do feijão, embora há quem tenha considerado que funcionou bem, especialmente com o ovo, elemento difícil de harmonizar. 










Cabernet Sauvignon Sta Colina Demi-Sec 2010        Coop. Nova Aliança - Um vinho simples, facilmente encontrável em supermercados brasileiros, que busca atender a preferência de muitos por vinhos suaves. A ideia foi justamente verificar a adequação. De modo geral, foi considerado muito leve, frutado e com baixa acidez para ser gastronômico e principalmente para acompanhar a estrutura do feijão tropeiro. 










Enoteca Dal Pizzol 2011- Dal Pizzol Vinhos Finos- Vinho premium da gaúcha Dal Pizzol Vinhos Finos, com corte bordalês, produção em pequena quantidade (6290 gfas) e em safras especiais. Corpo médio, com boa acidez e nariz um pouco fechado. Sua acidez ajuda a ajustar a gordura e, apesar de não ser corpulento, consegue acompanhar o tropeiro razoavelmente bem. 











 Carmignano Riserva Elzana Fattoria Ambra DOCG 2009     Cepage Noble - Toscano, com composição majoritária de Sangiovese. Aromas marcantes, com bom equilíbrio entre corpo, álcool e acidez, harmoniza bem, mas quando em contato com partes mais gordas, fica insuficiente.
   












Gran Reserva Carmenere Serie Riberas 2011 Concha y Toro - Campeão da harmonização! Ao primeiro gole, ficou bem perceptível a sua maior aptidão. Nariz herbáceo, toques achocolatados e defumados de sua evolução em barrica, com corpo para acompanhar e ajudar a construir o prato, mantendo-se nítido. Os toques herbáceos da carmenère se ajustaram bem ao feijão e à couve. 









    Tempranillo  Salamandra  Bodegas Lurton 2011 – Zahil- Tinto espanhol, no nariz traz frutas carnudas e maduras, com notas tostadas. Cresce em boca: frutado, com taninos finos. Consegue acompanhar, mas deixa um final adocicado além da medida, quando em contato com o feijão. 






 EA Cartuxa 2013 - Adega Alentejana- Linha mais comercial da Adega Cartuxa, com corte tradicional dos tintos alentejanos (Alicante Bouschet, Aragonez, Castelao e Trincadeira). Jovem e fácil de beber, com taninos finos, boa acidez e equilíbrio. Em contato com a comida, funciona, mas fica diminuído, talvez pelo estilo elegante, que contrasta a rusticidade do prato. Mesmo assim, foi o terceiro mais votado. 









Châteaux Les Arqueys 2010 – Supernosso - Bordalês, no estilo leve e gastronômico dos Bordeaux genéricos. Ficou muito aquém da estrutura do prato. 














 Foral Reserva Douro 2010 - Aliança Vinhos de Portugal - Segundo colocado. Corte tradicional do Douro português (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca), que, como os demais, é corpulento, imponente, de cor intensa e aromas de frutas pretas maduras. Formou um bom par com o tropeiro, no limite de se tornar mais expressivo do que a comida.
                              












 
Mais votados para harmonizar com Feijão Tropeiro 


Assim terminou mais um O Vinho em Nossa Mesa (ver mais em Sobre Vinhos ) nas Gerais, que segue rumo a encontros em outros estados nas próximas sessões.  Apesar do chileno ter feito um ótimo par com o Feijão Tropeiro, mais uma vez os vinhos portugueses apresentaram vocação para a cozinha brasileira. Ou teria sido a nossa cozinha oriunda de gostos semelhantes ao que é feito por lá?
 Nove vinhos degustados, na ordem de servico  (Fotos: Miriam Aguiar, Divulgação Vinícolas e domínio publico). Sobre Autora: Míriam Aguiar é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema e editora do Blog “Os vinhos que a gente bebe”

Nenhum comentário:

Postar um comentário