UM VINHO DIGNO DE UM TROPEIRO “ – Estrada reta, rodeada por planícies com leves colinas e um horizonte amplo. O clima é predominantemente úmido e os solos variados. Um cheiro de assado no ar e muitas garrafas de mate nos remetem aos pampas e aos rios e nações que formam a Bacia do Prata. Estamos ao sul do nosso sul e o que mais o denuncia é esta taça de vinho tinto cor violeta intenso, de perfume discreto, quase austero, que nos convida a saber a que veio. O país é o Uruguai e a cepa faz promessa de vida longa ao vinho e a quem o consome! O feijão está no centro da nossa mesa, juntamente com o seu principal parceiro, o arroz, mas também em uma série de receitas diferenciadas. Faz parte das leguminosas e é muito rico em ferro, fibras e proteínas. Ao fazer um levantamento dos pratos típicos brasileiros, além de estar no feijão com arroz, é surpreendente a sua presença do feijão de norte a sul, incorporado de algum modo às culinárias regionais. Assim, após a feijoada, foi a vez do Feijão Tropeiro e vem mais por aí!
A denominação “tropeiro” se refere, especialmente, aos homens que transportavam
gado e mercadorias, a cavalo, no Brasil colonial, a partir do século
XVII. Eram homens rudes e seus alimentos eram guardados em alforjes de couro,
no lombo das mulas, em longas jornadas. Como boa mineira, eu e muitos somos
absolutamente “apaixonados” pelo feijão tropeiro, não apenas pelo feijão, mas
pelos seus acréscimos: farinha de mandioca, ovos, torresmo, linguiça...enfim,
aquela “fartura” proteica e calórica que ele traz.
O
prato é muito representativo da cozinha mineira, mas também muito consumido em
São Paulo e Goiás e apreciado por muitos brasileiros. O feijão tropeiro,
harmonizado no quarto encontro do Projeto O vinho em nossa mesa , não
tinha nada da rusticidade dos tropeiros que lhe deram origem, pelo contrário,
veio cercado de sofisticação e muito bom gosto.
Pela
foto do prato, preparado pelo Chef
Jaime Solares, temos uma idéia dele e da estética do lugar que nos
recebeu. Uma mistura de botequim com alusões à Borracharia/Posto de Gasolina e
um ar meio retrô, que me remeteu a cenas de clássicos de diretores alemães,
filmados nas desérticas highways americanas, como Paris Texas, de Wim
Wenders e Bagdá Café, de Percy Adlon. Imaginação fértil? Pode ser! Mas o lugar
é um charme e vale a pena conhecer!
A Borracharia
Gastropub fica de fato dentro (ou ao lado) de um posto de gasolina, na Av.
Afonso Pena, 4321, Serra. Eles nos receberam num dia mais frio e chuvoso para a
harmonização às cegas com o feijão tropeiro. Participaram 9 vinhos, escolhidos
pelos convidados, que levaram em conta certos aspectos técnicos, como: ter boa
acidez, para fazer frente à gordura das carnes; ter intensidade e estrutura
suficiente para não ser subjugado pela potência do prato; trazer toques
defumados, conferidos pela passagem em madeira para se harmonizar com as carnes
defumadas; ter taninos já tratados pela longevidade, de forma a acompanhar o
peso do prato, mas sem entrar em choque com as partes salgadas do feijão
tropeiro; ser produto de variedades de uva com toques semelhantes aos herbáceos
do prato. Pessoalmente, não achei um prato muito simples de harmonizar,
especialmente por juntar alguns ingredientes difíceis, como o feijão em
abundância (embatumado com a farinha) e os ovos, ambos muitos pastosos e com
longa permanência em boca.
Mas encontramos o
vinho – com estrutura para acompanhar o prato e capacidade para lhe conferir
certa vivacidade. E o segredo foi ser um varietal da Carmenère, uva que une
doçura e toques vegetais herbáceos, elementos que se alinham com o gosto terroso
do feijão. Vamos à breve descrição de cada harmonização:
Vinho Michelangelo Custoza DOC Novo Continente - Único branco levado
ao encontro. Italiano, da região do Veneto. Trata-se de um vinho com certa
cremosidade e dulçor, já evoluído. De modo geral, foi considerado muito leve
para acompanhar o prato, mostrando um final de boca amargo após o contato do
feijão, embora há quem tenha considerado que funcionou bem, especialmente com o
ovo, elemento difícil de harmonizar.
Cabernet Sauvignon
Sta Colina Demi-Sec 2010 Coop. Nova
Aliança - Um
vinho simples, facilmente encontrável em supermercados brasileiros, que busca
atender a preferência de muitos por vinhos suaves. A ideia foi justamente
verificar a adequação. De modo geral, foi considerado muito leve, frutado e com
baixa acidez para ser gastronômico e principalmente para acompanhar a estrutura
do feijão tropeiro.
Enoteca Dal Pizzol
2011- Dal Pizzol Vinhos Finos- Vinho premium da gaúcha Dal Pizzol Vinhos
Finos, com corte bordalês, produção em pequena quantidade (6290 gfas) e em
safras especiais. Corpo médio, com boa acidez e nariz um pouco fechado. Sua
acidez ajuda a ajustar a gordura e, apesar de não ser corpulento, consegue
acompanhar o tropeiro razoavelmente bem.
Carmignano Riserva
Elzana Fattoria Ambra DOCG 2009 Cepage Noble - Toscano, com
composição majoritária de Sangiovese. Aromas marcantes, com bom equilíbrio
entre corpo, álcool e acidez, harmoniza bem, mas quando em contato com partes
mais gordas, fica insuficiente.
Gran
Reserva Carmenere Serie Riberas 2011 Concha y Toro - Campeão da
harmonização! Ao
primeiro gole, ficou bem perceptível a sua maior aptidão. Nariz herbáceo,
toques achocolatados e defumados de sua evolução em barrica, com corpo para
acompanhar e ajudar a construir o prato, mantendo-se nítido. Os toques
herbáceos da carmenère se ajustaram bem ao feijão e à couve.
Tempranillo
Salamandra Bodegas Lurton 2011 – Zahil- Tinto espanhol, no
nariz traz frutas carnudas e maduras, com notas tostadas. Cresce em boca:
frutado, com taninos finos. Consegue acompanhar, mas deixa um final adocicado
além da medida, quando em contato com o feijão.
EA Cartuxa 2013 - Adega
Alentejana- Linha
mais comercial da Adega Cartuxa, com corte tradicional dos tintos alentejanos
(Alicante Bouschet, Aragonez, Castelao e Trincadeira). Jovem e fácil de beber,
com taninos finos, boa acidez e equilíbrio. Em contato com a comida, funciona,
mas fica diminuído, talvez pelo estilo elegante, que contrasta a rusticidade do
prato. Mesmo assim, foi o terceiro mais votado.
Châteaux Les Arqueys 2010 – Supernosso -
Bordalês,
no estilo leve e gastronômico dos Bordeaux genéricos. Ficou muito aquém da
estrutura do prato.
Foral Reserva Douro
2010 - Aliança Vinhos de Portugal - Segundo colocado. Corte tradicional do
Douro português (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca), que, como os
demais, é corpulento, imponente, de cor intensa e aromas de frutas pretas
maduras. Formou um bom par com o tropeiro, no limite de se tornar mais
expressivo do que a comida.
Mais
votados para harmonizar com Feijão Tropeiro
Assim
terminou mais um O Vinho em Nossa Mesa (ver mais em Sobre Vinhos )
nas Gerais, que segue rumo a encontros em outros estados nas próximas
sessões. Apesar do chileno ter feito um ótimo par com o Feijão
Tropeiro, mais uma vez os vinhos portugueses apresentaram vocação para a
cozinha brasileira. Ou teria sido a nossa cozinha oriunda de gostos semelhantes
ao que é feito por lá?
Nove vinhos
degustados, na ordem de servico (Fotos: Miriam Aguiar, Divulgação Vinícolas e
domínio publico). Sobre Autora: Míriam
Aguiar
é pesquisadora do mercado de vinhos, com Doutorado na USP e Pós-doutorado na
UMR Innovation Montpellier, autora de livro e artigos sobre o tema e editora do
Blog “Os vinhos que a gente bebe”










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