“ FILMES ONDE GASTRONOMIA E VINHOS É O TEMA COMUM “ – Há muito tempo que comer é muito mais que saciar simplesmente a fome; É sem dúvida, um dos grandes prazeres que a humanidade aperfeiçoou ao longo dos tempos, saindo desde a carne crua consumida na época do Homem das cavernas, até os jantares requintados que temos notícias. Cozinhar é uma arte cada vez mais sofisticada e por sorte, o cinema tem tido este tema como algo recorrente.
Interessante então falar que religião sempre teve o
papel “regulador” dos vícios e da sociedade, a fim de organizar e doutrinar
segundo sua perspectiva. Os hábitos por trás do alimento são questionados desde
a Grécia Antiga. Para a doutrina Católica, alimentar-se é um ato humano cuja
única função é manter o corpo saudável, e o excesso da comida, bem como o
prazer sentido no ato, são um estímulo do pecado da Gula.
A Gula, derivando de “goela” em latim, como pecado, surge
para frear o apetite desregrado, principalmente da nobreza, uma vez que
entende-se por gula, não só o ato de comer, mas também o de beber, e (ou) de se
embriagar, opondo-se ao ideal de moderação, ou o que Aristóteles consideraria
como a virtude da temperança.
A Igreja entende que a gula torna-se responsável por
pecados bem mais graves, tal como o acaloramento dos sentidos que conduz a
luxúria, uma vez que o excesso de carnes (principalmente) e molhos picantes,
excitaria o corpo e o espírito ! E até mesmo a preguiça como consequência, uma
vez que o comer demasiadamente causaria uma languidez dos sentidos e uma
ociosidade condenada.
A gula, principalmente na Idade Média, Moderna e ainda
início da Idade Contemporânea, foi um pecado altamente condenável. Será que
conseguiremos vencer seus chamados ? Para provocar seus sentidos, resolvi
listar alguns bons filmes sobre o assunto da culinária para deliciar os seus olhos.
●
A FESTA DE BABETTE – Talvez seja o
filme que podemos dizer, tenha despertado o interesse das pessoas pela
gastronomia, vinhos e suas harmonizações. Uma misteriosa francesa, fugindo da
guerra civil, torna empregada de duas irmãs num pequeno povoado dinamarquês,
onde leva vida simples e recolhida, mas coloca intenso amor em tudo que cozinha.
Na desolada costa da Dinamarca vivem Martina e Philippa, as belas e
envelhecidas filhas de um devoto pastor protestante que prega a salvação
através da renúncia. As irmãs sacrificam suas paixões da juventude em nome da
fé e das obrigações, e mesmo muitos anos depois da morte do pai, elas mantém
vivos seus ensinamentos entre os habitantes da cidade. Mas com a chegada de
Babette, uma misteriosa refugiada da guerra civil na França, a vida para as
irmãs e seu pequeno povoado começa a mudar. Logo Babette as convence a tentar
algo realmente ousado - um banquete francês! Sua festa, é claro, escandaliza os
mais velhos do lugar. Quem é esta surpreendentemente talentosa Babette, que tem
apavorado os moradores desta devota cidade com a perspectiva deles perderem
suas almas por deleitarem-se com prazeres terrenos? Bonito e bem peculiar.
Questiona moralismo, valores bem arcaicos e preconceitos. Da cena do jantar até
o final é lindo, lindo. A Festa de Babette, (Babettes Gæstebud), é um filme
franco-dinamarquês de 1987, dirigido por Gabriel Axel. Roteiro adaptado da obra
de Karen Blixen, cujo pseudônimo era Isak Dinesen, o anonimato se justifica,
uma vez que mulheres escritoras não seriam vistas de forma “positiva” em uma
sociedade machista e hipócrita. Ganhador do Oscar de Melhor filme estrageiro em
1988.
● SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS - Miles
Raymond (Paul Giamatti) é um homem depressivo, que tenta se tornar um escritor.
Miles é fascinado por vinhos e decide dar como presente de despedida de
solteiro a Jack (Thomas Haden Church), seu melhor amigo, uma viagem pelas
vinículas do Vale de Santa Inez, na California. Eles partem juntos na viagem,
mas logo se envolvem com duas mulheres. Jack conhece Stephanie (Sandra Oh), a
funcionária de uma vinícola local, que faz com que ele queira anular seu
casamento, que está marcado para daqui a poucos dias. Já Miles se interessa por
Maya (Virginia Madsen), uma garçonete que tem o mesmo apreço por vinho que ele.
● O JULGAMENTO DE PARIS – É um filme
americano de 2008, dirigido por Randall Miller e que tem como destaque Bill
Pullman, baseado em fatos reais, e retrata os primeiros tempos da indústria do
vinho em Napa Valley nos anos 70. O momento retratado no filme foi o da
degustação às cegas organizada em 24 de maio de 1976, em Paris, pelo então
comerciante de vinhos Steven Spurrier (hoje diretor da renomada revista ingleza
de vinhos Decanter). Seria um acontecimento normal, se o evento não
representasse uma tentativa de desmoralização do vinho produzido na Califórnia
em meio a comemoração do centanário da Independência Americana. O resultado da
degustação, entretanto, foi a derrota histórica para os vinhos franceses e
significou um importante empurrão para o desenvolvimento da produção do vinho não
só da Califórnia mais em todos os demais espaços do Novo Mundo. Naquele
momento, caiu o mito de que necessariamente os melhores vinhos são os
franceses, ou aqueles do Velho Mundo, pois provou-se que é possível produzir
vinhos de qualidade em outra áreas. O destaque da degustação foi a garrafa da
vinícola Chateau Montelena, que ganhou como melhor vinho branco e até hoje
produz excelentes safras. O vinho Chateau Montelena 1973 virou uma lenda e acabou
colocando a região no mapa dos melhores produtores da bebida.
● RED OBSSESSION – É um filme
australiano, feito em 2013, como um documentário com entrevistas com produtores
e amantes de vinho. E as entrevistas ocorrem por todo mundo. Lembra de certa
forma pelo que ouvi a Mondovino. Narrado por Russell
Crowe, o filme nos leva em uma viagem extraordinária de Bordeaux para Pequim, a
partir da paixão e arte do vinho até os mercados de vinhos falsificados
notórios no Extremo Oriente e nas mais afamadas casas de leilões que abastecem
as adegas de colecionadores bilionários. Explora o caso de amor improvável
entre o Ocidente e Oriente pelo vinho, numa visão tradicional e sedutora, mostrando
que a demanda não tem precedentes na história, e sendo o vinho um produto de
produção limitada, o novo cliente oriental quer tudo que possa obter (daí o
termo ser a Obsessão Vermelha). Será que o mercado China será a bolha que nunca
estoura ou a maior ameaça a reputação de séculos dos vinhos de Bordeaux?
● MONDOVINO – neste filme, Bordeaux,
Napa, Florença, Toscana, Cafayate (Argentina) e Pernambuco aparecem como
cenários do vinho. Através destas regiões o diretor Jonathan Nossiter apresenta
os caminhos do vinho e a globalização dos sabores. Histórias de grandes
vinicultores como a família Mondavi, o maior produtor de vinho da Califórnia, e
também de pequenos como a família De Montilli, que luta para manter suas terras
e as características de seu vinho são ouvidos e confrontados. Quem sobreviverá
num mundo de grandes empresas e globalização? Como os produtores artesanais
poderão sobreviver a toda esta pressão do mercado? Explora uma tese: a de que o
crítico Robert Parker está influenciado por suas críticas a globalização pelo
gosto intenso de fruta madura e nota de carvalho, típico dos vinhos de Bordeaux,
tornando este tinto num padrão mundial, juntamente com a consultoria e
trabalhos de Michel Rolland de Pomerol, ou o domínio de grandes grupos como a Mondavi,
uma empresa de capital aberto com sede em Napa com uma história familiar de
produção de vinho. Fabricantes de vinho em todo o mundo, muitos usando Rolland
como consultor, buscando intensificar sua estrutura, cor e paladar, em
detrimento de elegância e complexidade, argumentam valorizando alguns, que o
vinho que deve refletir o caráter da terra onde a uva é cultivada, outros
falando que o que deve predominar é o gosto do cliente, caminhando para esta
globalização. Mondovino, portanto, é um documentário sobre o impacto da
globalização sobre diferentes regiões vinícolas do mundo e um profundo
questionamento sobre o futuro de pequenos e grandes produtores.
●
UM BOM ANO – Aos 11 anos, Max
Skinner (Freddie Highmore) é cuidadosamente educado na arte de saborear vinhos
por seu tio Henry (Albert Finney), dono de um vinhedo na França. Adulto, Max
(Russell Crowe) torna-se um bem-sucedido homem de negócios em Londres, sem
qualquer tempo para degustações mais duradouras. Ele trabalha no mercado
financeiro de Londres e é um workaholic que tem em sua rotina estressante o seu
maior vício. Vida muita distante da educação que recebeu, dada pelo tio Henry
em um bucólico e lindo vinhedo na Provence. Max foi ensinado a apreciar um bom
vinho e a usufruir da tranquilidade da vida bucólica, ensinamentos que o tempo
o fez esquecer, mas que é obrigado a relembrar quando recebe a notícia do
falecimento de seu tio, deixando-o como único herdeiro. Prevendo bons negócios,
resolve fazer uma rápida viagem para visitar a propriedade. Mas, uma vez ali,
percebe que não será tão fácil vender o lugar que lhe traz tantas lembranças de
infância e quando viaja para ajustar detalhes a fim de vendê-lo, Max acaba
passando uma temporada no local, deixando-se seduzir pelo inebriante clima
francês.
Max
não só viaja para Provence, mas viaja, também, para seu passado. Como já era
esperado o workaholic se deixa apaixonar (ou se reapaixona) pela beleza e
tranquilidade do local. É lá que ele reencontra uma antiga paixão: Fanny
Chenal, interpretada por Marion Cotillard, o deixa ainda mais confuso.Um Bom Ano
explora diversos antagonismos corriqueiros e de fácil identificação. Tem-se o
passado versus o presente, o dinheiro versus a paixão, o urbano versus o
bucólico, enfim, diversos dilemas que se impõem ao personagem principal e que
apreciamos enquanto voyers da vida alheia, degustando um pouquinho de tudo sem
ter de nos limitar às escolhas que competem ao personagem. Aliás, a escolha é o
de menos, como o enredo é delicioso não nos importamos com o tempo, é um
delicioso passeio por distintas atmosferas. A excitação da vida corrida e da
rotina de trabalho no mercado financeiro londrino dá lugar as belíssimas
locações e a beleza sufocante dos vinhedos franceses, tudo isso regado a vinho
e a lições de como produzi-lo.
●
A 100 PASSOS DE UM SONHO – No sul da
França, Madame Mallory (Helen Mirren) é uma respeitada e autoritária dona de um
restaurante estrelado no famoso guia Michelin que está cada vez mais preocupada
com um estabelecimento indiano, concorrente, que abriu do outro lado da rua do
seu empreendimento. Ela trava uma verdadeira guerra contra o vizinho, mas aos
poucos conhece o filho do seu adversário, Hassan Kadam (Manish Dayal), um
garoto com verdadeiro talento para a culinária. Os dois tornam-se amigos, e
Mallory passa a guiá-lo pelos conhecimentos da refinada gastronomia francesa, sem
abandonar a tradição indiana, encorajando-o a alçar vôos muito mais altos.
A
trama é basicamente a mesma de Chocolate,
filme estrelado por Juliette Binoche, com algumas diferenças. A maior delas é
que aqui o diretor quer falar do caldeirão cultural do mundo globalizado. As
soluções que o filme encontra para a harmonia numa França contaminada por
movimentos de extrema direita e xenofóbicos são para lá de ingênuas. Há também
tumultos políticos na Índia, descritos como “uma eleição ou outra”.
Não
que algo disso seja o tema do filme, pelo contrário. As questões vem à tona
apenas em um momento, e é como se o diretor pedisse desculpa por falar disso –
sem nunca, é claro, nomear a questão. Assim, “A 100 Passos de um Sonho” se
limita em ser quase duas horas de programa culinário, sem dar as receitas.
Hallström se contenta com as obviedades das metáforas culinárias e o poder
transcendental da comida unindo culturas. O longa é uma adaptação do livro de
Richard C. Morais, aqui traduzido como “A Viagem de Cem Passos”. O título
original faz referência a cem pés, que é uma medida de comprimento equivalente
a pouco mais de 30 metros. Passos ou pés, o fato é que o número marca a
distância entre dois vizinhos, que sendo rivais, simbolizam a sutileza versus a
ousadia, simplicidade versus exagero, razão versus emoção e forma versus
tempero. Tradição, ambos têm de sobra !
É
de se lamentar, no entanto, que o filme se contente com isso, pois parte de
bons personagens e atores. Ao centro, como narrador e protagonista, está o jovem
Hassam (Manish Dayal), cuja família foge da Índia e se instala na Europa, meio
que por acaso nesse pequeno vilarejo, cujo único restaurante tem uma estrela do
conceituado guia Michelin (a ponto de atrair políticos importantes) e é
dirigido com pulso firme por Madame Mallory (Helen Mirren).
Hassam
é filho do teimoso Papa Kadam (Om Puri), que abre um espalhafatoso restaurante
indiano bem em frente ao estabelecimento da francesa. Ele conta com o talento
culinário de seu filho e a ajuda dos outros três para tocar o lugar, mas
encontra na vizinha uma inimiga e sabotadora. Então, o filme se contenta com
clichês sobre personagens: franceses são esnobes, as porções são mínimas;
indianos são alegres e cozinham abundantemente etc. Além disso, há também o
envolvimento amoroso de Hassam com Margueritte (Charlotte Le Bom), a sous chef
do restaurante francês que aspira à posição principal dentro da cozinha – mas,
no filme, as posições centrais parecem caber apenas aos homens.
Ao
final, não é de se espantar encontrar os nomes de Oprah Winfrey e Steven
Spielberg como produtores do filme. “A 100 Passos de um Sonho” é exatamente o
tipo de história que a apresentadora gosta – de superação com uma profundidade
falsa – e Spielberg providencia o lado “diversão para toda a família”. E aí
estão as raízes de alguns dos maiores problemas nesse filme, que fazem dele um
passatempo mediano e previsível.
●
SIMPLESMENTE MARTHA – Filme alemão
no qual, Martha (Martina Gedeck), com seu modo charmoso e obsessivo, cria
verdadeiras obras de arte cozinhando num pequeno restaurante em Hamburgo. No
entanto, tem uma vida com o cotidiano monótono, é introvertida e praticamente
não possui vida própria, dedicando-se obcessivamente ao trabalho. Tudo muda
quando sua irmã morre em um acidente, deixando para ela o encargo de cuidar de
Lina (Maxine Foerste), sua sobrinha de oito anos. Sua vida fica completamente
dividida, pois não tinha ninguém com quem repartir seus momentos e claro, a
menina a tira da sua rotina monótona, mas totalmente segura. Um stress a fasta
do restaurante e então aparece Mario (Sergio Castellito), um extrovertido cozinheiro
italiano que consegue trazer um pouco de alegria para as duas. No momento em
que Martha e Mario começam um romance, o pai de Lina, que há muito tempo estava
desaparecido, surge querendo levá-la para a Itália. Não vou contar tudo, para
deixar algo mais para você descobrir ...
●
SEM RESERVAS – Uma refilmagem do
alemão Simplesmente Martha, e assim, muitas falas são exatamente as mesmas do
filme alemão. Na sua essência o filme americano é mais alegre, mais colorido,
fala menos de comida. O ambiente é trasnferido para Nova York, onde Zeta-Jones
é a chef de um restaurante bem conceituado, rígida consigo e com suas comidas.
Por conta de seu stress, ela é obrigada por sua chefe a fazer terapia para
mudar seu temperado forte. Sua sobrinha, interpretada por Abigail Breslin
(Pequena Miss Sunshine), vai morar com ela após a morte da mãe (irmã da Chef).
Ao mesmo tempo, sua chefe contrata um cozinheiro extravagante para ajudá-la.
Com esses ingredientes a comédia romântica gira em torno das relações entre os
três personagens e as consequências de mudanças em nossas vidas.
●
TOAST - Em 1957 um garotinho de 9
anos tem uma mãe que é péssima cozinheira, ela acredita em comida natural ou
fresca, o que desperta nele o desejo por cozinhar e comer coisas saudáveis. Com
a morte da mãe chega uma empregada - Helena Bonham Carter -, uma cozinheira fantástica que logo vira sua
madrasta, criando entre eles uma rivalidade por quem faz os melhores pratos
para o pai. Feito originalmente para a TV britânica, é um filme adorável, e que
coloca em cheque várias emoções.
●
RATATOUILLE – O desenho animado
também tem explorado o tema. Neste filme, um ratinho chamado Remy, de olfato
apurado, vai para Paris viver seu sonho e tornar-se um grande chefe de cozinha,
mesmo contra os desejos de sua família e do óbvio problema de ser um rato em
uma profissão totalmente inapropriada para roedores. Ele sempre é expulso das
cozinhas que visita. Um dia, enquanto estava nos esgotos, ele fica bem embaixo
do famoso restaurante de seu herói culinário, Auguste Gusteau (Brad Garrett).
Ele decide visitar a cozinha do lugar e lá conhece Linguini (Lou Romano), um
atrapalhado ajudante que não sabe cozinhar e precisa manter o emprego a
qualquer custo. Remy e Linguini realizam uma parceria, em que Remy fica
escondido sob o chapéu de Linguini e indica o que ele deve fazer ao cozinhar. O
desenho da Pixar ganhou o Oscar de animação e fez imenso sucesso.
●
JULIE & JULIA - Duas histórias
paralelas acontecem neste filme. Em 1948, Julia Child (Meryl Streep) é uma
americana que passou a morar em Paris devido ao trabalho de seu marido, Paul
(Stanley Tucci). Em busca de algo para se ocupar, ela se interessou por
culinária e passou a apresentar um programa de TV sobre o assunto. Cinquenta
anos depois, Julie Powell (Amy Adams) está prestes a completar 30 anos e está
frustrada com a vida que leva. Em busca de um objetivo, ela resolve passar um
ano cozinhando as 524 receitas do livro de Julia Child, "Mastering the Art
of French Cooking". Ao longo deste período Julie escreve para um blog,
onde relata suas experiências. Meryl Streep e Amy Adams respectivamente estão
ótimas e os pratos são apetitosos.
●
COMER, REZAR, AMAR - Julia Roberts é
uma mulher em busca de sentido para sua vida e abandona tudo para fazer uma
viagem de auto-conhecimento pela Índia, Bali e Itália, onde descobre o prazer
da gastronomia. Um filme baseado num best-seller de auto-ajuda e é natural que
no resumo final, como esperado, só se salvem as paisagens e as comidas.
●
A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE –
Qualquer criança fica pensando como se faz um chocolate tão gostoso como
aqueles que comemos na nossa infância, que aliás tinham gosto do tempo que
passamos sem maiores responsabilidade. O livro de Roald Dahl nos deu um tíquete
para conhecer a fábrica de Willy Wonka para desvendar esse mistério. Há uma
refilmagem da versão de 1971, estrelada por Gene Wilder, mas a de Tim Burton (a
recente) também é muito boa.
● O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER & O
AMANTE - Um gangster janta todas as noites na companhia de sua esposa em um
sofisticado restaurante, mas seus modos grosseiros fazem com que ela se
interesse por um outro frequentador, com quem faz sexo no próprio restaurante, sendo
acobertados pelo cozinheiro francês. Claro que esse triângulo não termina bem. O
cardápio vai do sublime ao escatológico. Lindamente iluminado pelo fotógrafo
Sacha Vierny, com figurinos de Jean-Paul Gaultier, sob a batuta do arquiteto
visual Peter Greenaway é um filme que vale a pena ser visto.
● SABOR DA PAIXÃO - Penélope Cruz faz o
papel de uma brasileira, que cozinha divinamente e faz do restaurante de seu
marido, vivido por Murilo Benício, na Bahia, um grande sucesso. Ela, entretanto,
é traída pelo marido e decide mudar-se para San Francisco, onde assume um
programa de culinária na TV. O roteiro é muito fraco, mas a comida é boa.
● COMO ÁGUA PARA CHOCOLATE – Tita (Lumi
Cavazos) nasceu na cozinha do rancho de sua família, quando sua mãe (Regina
Torné) estava cortando cebolas. Logo em seguida seu pai morre de um ataque
cardíaco fulminante, por ter sua paternidade questionada. Com isso Tita é
vítima de uma tradição local, que diz que a filha mais nova não pode se casar
para que cuide da mãe até sua morte. Ao crescer Tita se apaixona por Pedro Muzquiz
(Marco Leonardi), que deseja se casar com ela. Sua mãe veta o matrimônio,
devido à tradição, e sugere que ele se case com Rosaura (Yareli Arizmendi), a
irmã dois anos mais velha de Tita. Pedro aceita, pois apenas assim poderá estar
perto de Tita. Proibidos de se amarem, Tita encontra outra forma de
compartilhar sua paixão com Pedro: a comida. Coloca tanta paixão no que faz que
transfere suas emoções e assim sendo, se estava alegre, todos riem sem saber
por que. Se estava triste, o choro des particpantes das refeições é imediato.
Lindo de ver.
● LE CHEF (2012) - Jean Reno é um chef
em Paris prestes a perder seu emprego caso perca sua terceira estrela Michelin.
O que é uma história muito real para muitos chefs franceses atuais, fazendo com
até mesmo cheguem ao suicídio. Ele se reafirma, depois de muitas brigas, ao
conhecer um jovem e espirituoso chef, que será seu braço direito para se
reinventar e encontrar um novo caminho. Jacky Bonnot, 32
anos, é um amador da alta cozinha, com um talento inato e o sonho de sucesso
num restaurante de topo. A sua situação financeira leva-o, entretanto, a
aceitar pequenos trabalhos que tem grande dificuldade em manter. Até ao dia em
que se cruza com Alexandre Lagarde, reputado chefe com várias estrelas, cuja
confortável situação é colocada em risco pelo grupo financeiro proprietário do
seu restaurante.
● LE CHEF (2014) - Carl Casper (Jon
Favreau) é o chef de um restaurante badalado de Los Angeles, mas volta e meia
enfrenta problemas com o dono do local (Dustin Hoffman) por querer inovar no
cardápio ao invés de fazer sempre os pratos mais pedidos pelos clientes. Um
dia, um renomado crítico gastronômico (Oliver Platt) vai ao restaurante e
publica uma crítica bastante negativa, baseada justamente no fato do cardápio
ser pouco criativo. Furioso, Casper vai tirar satisfação com ele e acaba
demitido. Pior: a briga vai parar na internet e se torna viral, o que lhe fecha
as portas nos demais restaurantes. Sem saída, ele recebe a ajuda de sua
ex-esposa (Sophia Vergara) para reiniciar a vida no comando de um trailer de
comida.
● O SABOR DE UMA PAIXÃO - Abandonada
pelo namorado, uma jovem americana Abby (Murphy) se vê de repente em Tokyo
totalmente perdida e sozinha, sem falar uma palavra de japonês, em meio a uma
cultura completamente diferente da sua. Tentando reorganizar a sua vida, ela percebe
estar frequentando o restaurante de ramen tipico de seu bairro, e depois de
observar os mágicos efeitos que a comida do restaurante tinha sobre os seus
clientes, Abby se convence de que o seu destino é se tornar chef de cozinha
especializada em Ramen. Ela consegue convencer o chef japonês tirano e
temperamental onde ela trabalha, a ensiná-la a arte de se fazer um bom ramen.
Apesar do péssimo relacionamento entre os dois, ambos descobrem juntos o
ingrediente mais importante de todos: cozinhar com amor. Um final surpreendente
quando ela consegue vencer a resistência do chef japonês.
● ESTÔMAGO - É a história de Raimundo
Nonato, migrante nordestino, e seu aprendizado de vida em uma capital do sul do
Brasil. Aprendizado de vida, mas sobretudo de cozinha, pois é através desta
arte que Nonato descobre a si mesmo e se relaciona com os outros. É nas
cozinhas rudimentares de bares e pequenos restaurantes (e até em uma cela de
prisão) que Nonato vive e realiza sua sina. Ele vai para a cidade grande na
esperança de ter uma vida melhor. Contratado como faxineiro em um bar, logo ele
descobre que possui um talento nato para a cozinha. Com suas coxinhas Raimundo
transforma o bar num sucesso. Giovanni (Carlo Briani), o dono de um conhecido
restaurante italiano da região, o contrata como assistente de cozinheiro. A
cozinha italiana é uma grande descoberta para Raimundo, que passa também a ter
uma casa, roupas melhores, relacionamentos sociais e um amor: a prostituta Iria
(Fabiula Nascimento).
● CHOCOLATE – Filme do diretor Lasse
Hallström, é baseado em romance homônimo de Joanne Harris, e conta a história
do vendaval causado por Vianne Rocher, com sua chegada a uma pequena cidade no interior
da França, onde resolve instalar sua loja de chocolates. Sua chegada à cidade
se dá num domingo, no momento em que se celebra a missa, e da qual participam os
moradores, sob forte vigilância do Conde de Reynaud. Vianne Rocher (Juliette
Binoche), uma jovem mãe solteira, e sua filha de seis anos (Victorie Thivisol)
resolvem se mudar para uma cidade rural da França. Lá decidem abrir uma loja de
chocolates que funciona todos os dias da semana, bem em frente à igreja local,
o que atrai a certeza da população de que o negócio não vá durar muito tempo. Vianne
é pouco afeita a agir de acordo com as convenções sociais, embora fosse ela
também prisioneira de sua própria tradição que a obrigava a vagar de cidade em
cidade, levada pelo vento norte, e distribuindo remédios de cacau, como seus
antepassados faziam havia várias gerações. Mulher, nômade, mãe solteira, nem
bem chega à cidade é convidada a estar presente na missa dominical, convite que
declina. Não bastassem estes ingredientes para atrair a ira do poder
político-religioso local, ela lhe acrescenta mais um: a abertura de uma loja de
chocolates no centro da cidade, em plena Quaresma, supostamente uma época de
“abstinência, reflexão e sincera contrição”, conforme sermão do padre proferido
no domingo da chegada de Vianne ao vilarejo. Porém, aos poucos Vianne consegue
persuadir os moradores da cidade em que agora vive a desfrutar seus deliciosos
produtos, transformando o ceticismo inicial em uma calorosa recepção.
● DIETA MEDITERRÂNEA – Um filme espanhol
do diretor catalão Joaquín Oristrel. Contando com a assessoria de grandes chefes
da culinária internacional, como o também catalão Ferran Adriá, o diretor conta
a história da jovem chef de cozinha Sofia (Olivia Molina) e seus dois amores –
o marido Toni (Paco León) e o amigo Frank (Alfonso Bassave). Sofia vive às
voltas com panelas e fogões desde criança, já que cresceu dentro do restaurante
dos pais, cuja cozinha um dia fica pequena demais para o seu talento. Casada
com Toni, ela aceita um convite do maître Frank para ser chefe de um grande
hotel cinco estrelas, e aí começam as confusões. Esse é um daqueles filmes que
você saboreia. Pertence a mesma linha de cinema que faz sucesso explorando o
tema da culinária: “A Festa de Babette”(1987), “Vatel, o Cozinheiro do
Rei”(2000), “Estômago”(2007), “Julie e Julia”(2009), ”Comer Rezar Amar”(2010),
para citar só alguns. E parece certo que tais filmes são apreciados porque
falam de uma arte necessária à vida prazeirosa. A cozinha, quando regida por
pessoas dotadas, torna-se um lugar de descobertas, de transformações, onde
sabores e cores são usados para deliciar nossos olhos e estômago. No filme, Sofia
consegue fazer com que o seu talento seja reconhecido pelos grandes “chefs”
europeus, entre os quais Ferran Adrià, que aparece em pessoa no filme. Adrià é
o “chef” de um dos mais famosos restaurantes do mundo, El Bulli, que fica em
Roses, na Costa Brava, Catalunha, ao norte de Barcelona (recém-fechado). Usando
novas tecnologias e buscando sabores inesperados aliados a texturas elaboradas,
ele desenvolveu uma cozinha criativa que dá o que falar. El Bulli era famoso
por seu menú degustação de 30 pratos, que convida as pessoas a provar sem saber
o que estão comendo. Tudo pela descoberta de paladares adormecidos pelo
quotidiano. O detalhe apimentado do filme é que Sofia é uma versão espanhola de
nossa dona Flor, criação de Jorge Amado, vivida por uma inesquecível Sonia
Braga nas telas. O filme é contado através de um “flashback” que vai desde o
nascimento de Sofia até o nascimento da narradora do filme, sua filha, que tem
um nome muito peculiar.
● O AMOR ESTÁ NA MESA - Filme dirigido
pelo cineasta francês Jean-Yves Pitoun, que também assina o roteiro, é uma
divertida comédia romântica. O longa faz uma imersão na culinária francesa, que
vem temperada com as confusões, as paixões e os sonhos de um jovem cozinheiro
americano. Expulso da Marinha por agredir um superior, Loren (Jason Lee) vende
sua motocicleta e segue rumo à França, para tentar uma vaga no famoso
restaurante quatro estrelas de Louis Boyer (Eddy Mitchell), um chef
perfeccionista e rabugento. É em meio a este agitado universo da cozinha,
cortes nas mãos e pratos jogados no lixo, que o aprendiz ganha, a aceitação de
seus colegas e de Gabrielle (Irène Jacob), filha de Boyer, por quem se
apaixona. Melhor reservar um restaurante para depois do filme!
● OS SABORES DO PALÁCIO – Um dos mais
recentes filmes sobre o tema e que ficou pouco tempo em exibição. Uma
cozinheira do interior da França é convidada a assumir a cozinha do Palácio do
Elisée, sendo a responsável pelas refeições do presidente francês, que queria
ter algo mais simples e com sabor do campo em sua mesa. Ela tem que enfrentar a
resistência dos chefs mais antigos do Palácio, mas é esperta o suficiente para
criar uma pequena e eficiente equipe que a salva dos percalços pelo caminho. O filme
é um desfile de cores e sabores deliciosos, com um desfile de pratos do
interior francês, nem sempre conhecidos dos brasileiros, mas tem sabores e aromas que nos remetem a outras sensações e emoções!
● VATEL – O filme Vatel: Um Banquete
para o Rei é um drama dirigido por Rolland Joffé, lançado no ano 2000. O elenco
conta com grandes nomes do cinema internacional, como Gérard Depardieu, Uma Thurman,
Tim Roth e Julian Sands. A história se passa no ano de 1671, quando o rei Sol -
Luís XIV vivia em Versailles, com todo luxo e riqueza. Longe de Versailles,
porém, o Príncipe de Condé estava completamente falido. Para solucionar tal
situação, o príncipe convidou o rei Luís XIV para passar um fim de semana na
sua província, desfrutando de uma série de entretenimentos e refeições, os
quais culminariam num suntuoso banquete. O intuito disso era fazer com que o
rei se encantasse de tal forma com o evento e o local que pudesse ajudar o
príncipe a tirar sua província daquela situação. Em contrapartida, o rei queria
que o príncipe o apoiasse nas negociações que levariam a França a declarar
guerra à Holanda. Para que o evento tivesse o efeito desejado, o príncipe
designou seu chef de cozinha e mordomo François Vatel para planejar e coordenar
todos os detalhes do evento. O evento realizado no filme enquadra-se na
categoria institucional, pois promove a imagem da província e de seu príncipe. O
filme mostra como Vatel e sua equipe preparam e executam os três dias de
festividades, desde as maquetes para os sofisticados cenários de cada dia de
festa, até a preparação de elaborados banquetes. O contraste entre os
subterrâneos rústicos onde os serviçais trabalham e onde as festas são
produzidas, além das salas e os jardins do chateau onde a nobreza se diverte e
aguarda por mais diversão devem ser notados. Também é possível perceber a
angustia de Vatel em busca da perfeição de formas, cores e efeitos para
surpreender o rei no Castelo de Chantilly e seus jardins. Os interiores do
castelo e as roupas de seus nobres personagens são a mais pura representação do
que passa pela nossa cabeça quando imaginamos o glamuroso estilo barroco
francês: escadarias intermináveis, candelabros, pisos de mármore, tetos
pintados, relógios, castiçais, salas douradas, espelhos, veludos, plumas, cores
exuberantes, brocados, sedas, fontes, lustres de cristal, fogos de artifício,
esculturas de gelo, imensos arranjos florais, banquetes intermináveis, enfim…
um luxo!

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