“ CASTAS TINTAS ITALIANAS – Parte I “ – Juntamente com a França, um dos maiores produtores mundiais, a Itália chega algumas vezes a produzir mais de 60 milhões de hectolitros em um ano. No início dos anos 90, a Itália possuía 1,4 milhões de hectares de vinhas, porém com a norma européia de reduzir a quantidade de vinhas plantadas, essa área foi diminuída para 856 mil hectares em 2004.
Normalmente a Itália exporta mais vinhos do que
qualquer outro país da Europa, sendo grande parte produtos baratos utilizados
para blends e exportados principalmente para Alemanha e França.
Diferentemente da França e Espanha, as vinhas são
cultivadas praticamente em todas regiões da península italiana, desde os Alpes
no norte até as ilhas próximas à África. A viticultura está enraizada na
consciência nacional, na sua imaginação e em seu dia a dia e até os anos 80 era
inconcebível para um italiano sentar-se a mesa para comer sem um vinho.
Daí a relação do italiano com o vinho não ser
necessariamente hedonista. O italiano normal está longe de ser um
“connoisseur”, sendo um herdeiro de milhares de anos do cultivo das vinhas e
produção de vinhos. Se há um “paradoxo francês”, este é o chamado “paradoxo
italiano”, ou seja: Um país com imensa tradição em vinhos, onde as legiões
romanas espalharam a viticultura por todo oeste da Europa e ainda em parte da
África e Oriente, em que o vinho é
presente na vida e nos costumes da “Bota”, acaba tendo o vinho “obscuro” diante
da consciência nacional - a maioria dos italianos não sabe e nem quer saber
como as uvas cresceram e foram transformadas em vinho !
Enquanto a França e Alemanha desempenharam o papel
fundamental no início da era da vinificação moderna, onde os vinhos circulavam
em garrafas com rótulos indicando a procedência e o produtor (hábito que já
existia nas ânforas de vinho do Egito Antigo), na maior parte da Itália (exceto
Piemonte, Toscana e algumas regiões isoladas) a bebida era sempre vendida a
granel mesmo depois da Segunda Guerra Mundial. Pouquíssimos vinhos eram
exportados até 1970, sendo que parte significante deles era destinada às grandes
colônias de imigrantes italianos no norte da Europa, Estados Unidos e América
do Sul (a Argentina, por exemplo era um dos maiores mercados de Barolo logo
após a Segunda Guerra).
Conhecimentos sobre a viticultura e enologia de vinhos
não-italianos são praticamente inexistentes na Itália, sendo que a circulação
de vinhos estrangeiros é limitada para as elites de poucas grandes cidades. O
livro e Guia de Vinhos de Luigi Veronelli escrito no final dos anos 50 foi o
primeiro sobre vinhos italianos em geral em mais de 350 anos, desde a obra de
Andrea Bacci em 1595. Até mesmo no início dos anos 90, a apreciação de vinhos
era uma atividade com pouca significância para os italianos, pois era um hábito
mais normal do que beber um copo de água.
Considerar a história do vinho na Itália é considerar
a história da própria Itália. Vinho e a civilização italiana são praticamente
sinônimos. Os antigos gregos já conheciam a importância da viticultura na
península quando batizaram a região de “Enotria”, ou “ Terra dos Vinhos” .
As regiões de produção de vinho foram durante a Idade
Média sendo divididas depois da Queda do Império Romano, face às invasões
bárbaras e batalhas travadas entre famílias dominantes, de forma que há
regionalizações significativas, bastando lembrar das batalhas entre Siena e
Florença por conta dos vinhedos do “Chianti Classico”. Por exemplo, no Piemonte
predominam as uvas Nebbiolo e Barbera, e elas não estarão presentes em nenhuma
outra região italiana. Na Toscana predomina a Sangiovese e ela pouco aparece em
outras regiões italianas.
AS UVAS PREDOMINANTES E SUAS
REGIÕES
PIEMONTE –
Ao lado das DOC mais conhecidas como Barbera d’Asti,
Barbera d’Alba e Barbera Del Monferrato, existem algumas apelações menos
conhecidas como Rubino, Gabiano e Colli Tortonesi no extremo sudeste do
Piemonte.
A Barbera é a uva mais plantada no Piemonte,
contabilizando mais de 50% das DOC de vinhos tintos da região. Sem dúvida é a
mais adatável e vigorosa das três principais castas tintas do Piemonte, fazendo
com que acha uma ampla gama de estilos. Mesmo nas zonas DOC específicas, a
barbera tende a variar muito, desde notas frescas de cerejas, acidez marcante e
leve rusticidade até vinhos ricos, robustos e aveludados. Muito disso depende
de onde o produtor escolheu plantar as uvas e também as técnicas de vinificação
empregadas.
Obviamente isso é verdade em qualquer vinho, porém a
Barbera é um caso interessante de estudos sobre como uma uva reage a diferentes
solos, climas e técnicas.
Normalmente vinhos
Barbera possuem elevado nível de acidez natural e relativamente poucos
taninos, possuindo uma coloração rubi profunda. As variações são os níveis de
extração de fruta e os diversos níveis de taninos provenientes dos estágios em
tonéis de carvalho. As pessoas que bebem Barbera pela primeira vez costumam se
assustar com sua acidez cortante e praticamente muitos a abandonam sem terem
provado os vinhos de melhor qualidade e preços mais significativos)
Provavelmente a mais notável característica dos
Barbera “modernos” é o peso do extrato de fruta que se percebe no palato. O
Barbera de hoje em dia é muito mais intenso e encorpado que os do passado.
A maioria dos produtores de Barolo e Barbaresco
possuem pelo menos um rótulo de Barbera D’Alba ou D’Asti, sendo que muitos
deles são de vinhedos únicos com estrutura e preço que podem chegar a equiparar
com alguns Barolos.
Encontrada com certa facilidade na Argentina, onde
seus vinhos são geralmente mais frutados e menos ácidos. Produz ótimos vinhos
varietais de médio corpo e taninos bem estruturados. De cor rubi, seus aromas
lembram frutas vermelhas como amora, cereja, ameixa e framboesa. Percebe-se
ervas finas (talvez hortelã) e especiarias. No paladar, sente-se algum frescor
aliado a uma acidez equilibrada. Harmoniza-se a massas com molho de tomate
fresco, queijos amarelos, aves, carpaccio e carnes leves.
● NEBBIOLO-
Considerada pelos italianos a uva rainha, produz os famosos vinhos barolos e
barbarescos. Sua estrutura é poderosa, maciça e super tânica. Quando jovem,
pode causar impacto na boca, parecendo rude. Porém, com o envelhecimento,
evolui para uma deliciosa mescla de sutileza e poder. Estes vinhos devem ser
associados ao alimento. São produtos de cor granada, encorpada. Os aromas nos
remetem a flores como violetas, a fumo e café. No paladar, sente-se boa acidez,
aliada a taninos presentes equilibrados e boa persistência. Combinam bem com
carnes de caça como coelho, javali, vitela, carnes assadas, risotos encorpados,
molhos espessos, funghi e trufas.
● DOLCETTO-
uva típica da região do Piemonte, plantado mais precisamente nas proximidades
de Alba, é uma das castas que mais produz vinhos. Não são tão nobres, mas são
seguramente os mais bebidos para acompanhar o dia a dia. São vinhos de corpo
leve, cor vermelho rubi. No nariz, lembram frutas vermelhas e especiarias. No
paladar, costumam ser elegantes e sedosos. Acompanham bem risotos de aspargos
ou funghi, polenta macia, raviolli dal plin, agnolotti, aves e carnes brancas.
Dentre os principais produtores da região, vale
destacar primeiramente Gaja e seus barbarescos incríveis, Cordero di
Montezemolo, Batasiolo, Prunotto, Renato Ratti e Marchesi di Barolo, entre
tantos....
TOSCANA –
● SANGIOVESE -
Encontrada por toda Toscana e muitas outras regiões, a sangiovese recebe
diferentes nomes em vários locais: prunollo gentile em Montepulciano, brunello
em Montalcino, morellino perto de Grosseto, todas consideradas cepas
individuais da Sangiovese. Genericamente
essas subvariedades caem em duas categorias básicas: as de bagos grandes
(sangiovese grosso, que incluem a prugnolo e brunello), e outra de bagos
pequenos, sangioveto, a versão de Chianti.
Alguns dizem que a casca espessa da sangiovese grosso
é o que dá aos brunello sua tanicidade marcante e capacidade de envelhecimento.
Outros dizem que tratar a brunello ou prugnolo como variedades distintas não
faz sentido, pois as diferenças de personalidade por causa da mesma uva ser
plantada em locais diferentes. O que todos concordam é o caráter único da
variedade: Na sangiovese você não tem apenas o aroma e sabor de cerejas negras
como também nota características totalmente típicas de vinhos da Toscana. Um
bom Chianti, Brunello di Montalcino ou Vino Nobile di Montepulciano, possui
notas de bosque, defumados e cerejas da
floresta; as notas de especiarias e vegetação rasteira se misturam com a doçura
da fruta.
A Sangiovese é muito vigorosa (precisa ser bem podada
para concentrar a fruta), sensível ao seu meio ambiente e apresenta dificuldade
para amadurecer completamente ( esse o motivo dos Chiantis à moda antiga terem
uma “pegada” de acidez bastante marcante). A variedade também possui baixo
nível de antocianos (fenóis naturais presentes na casca da uva e que dão a cor
ao vinho), sendo o Brunello uma exceção. É por isso que algumas variedades
menos conhecidas, tais como canaiolo e colorino entravam nos cortes dos antigos
Chianti, e também o motivo da cabernet sauvignon e merlot terem se tornado importantes
na Toscana nos últimos 30 anos, a partir do conceito criado pelos
“Supertoscanos”.
Essa é uma categoria não oficial da Toscana, não
reconhecida pelo sistema de classificação dos vinhos italianos, mas que merece,
e muito, ser conhecida por todos os apaixonados por vinho!
Apesar de conceitos serem desenvolvidos desde 1940, na
década de 70, alguns produtores toscanos consideravam as normas jurídicas que
regiam a produção de vinho de Chianti demasiadamente restritivas. Para que um
vinho pudesse ser rotulado como Chianti, ele não poderia ter mais do que 70% de
Sangiovese em sua composição, e, necessariamente, deveria ter no mínimo 10% de
uma das uvas brancas nativas. Além disso, era proibida a mistura de uvas como
Cabernet Sauvignon, Merlot e Syrah, por não serem tipicamente italianas.
Essa foi uma época de crise para os vinhos Chianti,
quando estavam sendo considerados, inclusive, de baixa qualidade. E muitos
produtores optaram por fugir dessas regras tão restritivas, que impediam a
produção de um vinho de melhor qualidade, a fim de produzir os melhores vinhos
possíveis!
Os vinhos que surgiram fora destes regulamentos,
portanto proibidos de usar a rotulagem Chianti, eram obrigatoriamente
classificados como Vino da Tavola, que é o patamar mais baixo de vinhos da
Itália. Ironicamente, isso acontecia mesmo quando eram vinhos extraordinários,
como, de fato, muitos eram.
A qualidade excepcional destes vinhos estava ligada
não só à escolha de uvas, mas também à introdução de inovações no processo de
vinicultura, como a diminuição no rendimento dos vinhedos, a antecipação da
colheita de determinadas variedades, a utilização para vinhos brancos de
tanques de aço inox com temperatura controlada, a fermentação malolática dos
vinhos tintos, o uso de barris novos de carvalho da Eslovênia e da França,
entre outras.
O fato é que esses produtores precisavam de um termo
que diferenciasse, junto aos consumidores, esses grandes vinhos que estavam
sendo produzidos, afastando-os dos modestos Vinos da Tavola. Assim surgiram os
Supertoscanos, a maioria deles à base de Sangiovese, em corte com uvas típicas
de Bordeaux, ou por vezes sendo produzido até como varietal da cepa.
No final dos anos 80, a tendência de produzir vinhos
fora das regulamentações, e utilizando uvas originárias de Bordeaux, já estava
consolidada na Toscana, no Piemonte e no Veneto. Esse foi o momento em que
mudanças no sistema de classificação dos vinhos italianos foram implementadas
e, muitos dos vinhos comercializados como Supertoscanos puderam ser enquadrados
até como DOCG, em reconhecimento à sua alta qualidade. Atualmente, é possível
encontrar Supertoscanos DOCG Chianti, DOC Bolgheri, IGT Toscana, enquadrados no
novo sistema.
Felizmente, o prestígio do nome Chianti foi
merecidamente restabelecido, e, quem ganhou com essa crise, fomos nós, com o
surgimento dos Supertoscanos, esses grandes vinhos de estilo bordalês, mas de
caráter claramente italiano!Observando o cenário atual do vinho na Toscana, são
essas três – a perfumada sangiovese, a potente cabernet sauvignon e a aveludada
merlot, sozinhas ou combinadas são as que melhor definem a região.
Interessante lembrar que os CARMIGNANO, um tesouro
ainda pouco conhecido pelos amantes do vinho já eram “Supertoscanos” desde o
Império Romano e reconhecidos na Idade Média. Carmignano é uma comuna italiana
de 12.000 habitantes, localizada no norte da Toscana, a cerca de 20 km de
distância da Florença.
Seus vinhos vêm de vinhedos cultivados em colinas que
ficam ao redor da cidade de Florença. Esse é um local de vinhos tão
tradicionais quanto prestigiados. Na Roma Antiga, foram homenageados por
ninguém menos que Júlio César.
Desde o ano de 804 há registros em documentos
Florentinos da atividade agrícola na região. Por volta de 1500, Catarina de
Médici, cuja família controlou boa parte da Toscana por centenas de anos,
tornou-se rainha da França e sob essa influência a Cabernet Sauvignon foi
introduzida na região de Carmignano.
Na época, os Médici – uma das famílias mais poderosas
da antiguidade - selecionaram os vinhos daquela região, reconhecidamente
longevos, para presentear governantes amigos. Em 1716, Cosimo III, Grão-Duque
da Toscana, regulamentou a produção de vinhos de Carmignano, o que, para os
italianos, fez com que a região, de pouquíssimos hectares, se tornasse a
primeira DOC reconhecida do mundo. Desde essa época o blend era de Carbernet
Sauvignon e Sangiovese, centenas de anos antes do surgimento dos Supertoscanos.
Com o tempo e o surgimento de novas denominações, como Brunello e Chianti, o
vinho de Carmignano quase caiu no esquecimento até ser novamente reconhecido
como DOC em 1975.
Carmignano tem uma área com um décimo da superfície de
Montalcino e um centésimo da área de Chianti Classico e por isto este tesouro é
tão pouco conhecido mesmo tendo uma história rica para ser provada em uma taça
de vinho.
No arquivo de Marco Datini, mercador italiano do
século XIII, havia um documento que falava de Carmignano como um vinho separado
de Chianti. Não havia Chianti, mas já havia Carmignano. A área tem um
microclima especial, com os Apeninos ao norte e, a oeste, o Montalbano, muito
agradável mesmo no verão. Quente durante o dia e fresco à noite. Essa talvez
seja a razão por que os Médici, quando quiseram começar a fazer vinho,
decidiram aumentar a produção de Carmignano. Começaram a plantar mais vinhedos.
As vinhas de Carmignano, na verdade, eram cercadas pelo muro de Barco Reale.
Esse muro cercava a propriedade onde os Médici estavam.
Hoje em dia, o nome está estampado no rótulo do vinho
Barco Reale di Carmignano é uma versão um pouco mais leve do Carmignano
valorizando as notas de fruta escura, criando um vinho gastronômico. A DOCG
Carmignano provavelmente serviu de inspiração para o surgimento dos chamados
supertoscanos, uma vez que já utilizava uvas internacionais em seus cortes. A
legislação local permite as uvas Sangiovese (mínimo de 50%), Canaiolo (até
20%), Cabernet Franc e/ou Cabernet Sauvignon (de 10 a 20%), e brancas toscanas
(Trebbiano, Canaiolo Bianco e Malvasia), em até 10%.
São vinhos tintos de produção muito pequena (pouco
mais de cinco mil hectolitros anuais), elaborados numa região ao norte de
Firenze, num estilo mais tradicional e que reproduzem fielmente o caráter
alegre da Toscana. Esses vinhos são envelhecidos, obrigatoriamente, por 2 anos,
sendo um deles em barris de carvalho ou castanheiro. Para serem rotulados como
“Riserva” devem envelhecer por 3 anos, 2 deles em madeira. O amadurecimento é
um dos fatores que contribuem para a estrutura, suavidade e elegância desse
saboroso vinho.
O Carmignano é um tinto feito claramente para
envelhecer, com um longo e prazeroso final, como o saboroso Santa Cristina in
Pilli, um dos belos achados da região de Carmignano. Rico e cheio de fruta, com
um inegável acento regional. Este vinho tem um corte com 75% Sangiovese, 10%
Cabernet Sauvignon, 10% Canaiolo, 5% Syrah e Merlot, provenientes de vinhedos localizados
na região de Carmignano, Toscana. A fermentação é feita sob forma tradicional
com controle de temperatura seguida por uma maceração de 12 dias. Depois
amadurece por 12 meses sendo 50% em pequenos barris de carvalho e 50% em
tonneaux (grandes barricas de carvalho).
De forma geral, os vinhos de Carmignano são excelentes
para harmonizar com pratos de carnes vermelhas.
UMBRIA –
● SAGRANTINO-
A Umbria é essencialmente uma extensão da Toscana, emparedada em três lados
pelos Apeninos, mas atravessada por inúmeros rios e córregos, incluindo o
grande Rio Tibre que divide a região antes de descer para Roma. É difícil de
acreditar que a tão protegida Umbria pode sentir os moderados efeitos do mar,
mas o Tibre funciona como um funil que carrega correntes mornas do
Mediterrâneo. Além disso as brisas frias dos Apeninos exercem bastante
influência.
Uma área de crescente interesse é Montefalco, uma
cidade próxima a Torgiano onde uma pequena comunidade de produtores faz um dos
mais cultuados vinhos da Itália: o rico, apimentado e encorpado Sagrantino di
Montefalco.
Os vinhos de Montefalco são divididos em dois. O
básico Montefalco Rosso DOC é um corte de sangiovese(60 a 70%), com um mínimo
de 10% de sagrantino e o restante preenchido com uvas à escolha do produtor. Já
o Sagrantino di Montefalco DOCG é elaborado 100% com uvas sagrantino. Em 1992
foi elevado à categoria DOCG, tornando oficial o que a maioria dos produtores
já sabia: que o denso, escuro e intenso Sagrantino não possui nada parecido em
toda Itália.
O solo da região é argiloso com algum calcário e
areia. Seus vinhos tem aromas de frutas negras em geleia, alcatrão e pinho. Ele
é mais tânico que a sangiovese e possui alto teor de polifenóis, conferindo
muita cor. Seu potencial de guarda é imenso. O único problema do Sagrantino é
que só existem 160 hectares plantados, o que torna difícil encontrá-los.
VENETO –
● VALPOLICELLA - Valpolicella
possuiu por muito tempo uma péssima reputação. Entretanto o consumidor atento
pode encontrar atualmente uma enorme quantidade de rótulos interessantes. Na
verdade, enquanto o Soave é o vinho mais menosprezado da Itália, o Valpolicella
é o mais subestimado.
A zona do Valpolicella é frequentemente descrita como
uma “mão aberta”, sendo que os “dedos” começam no Monte Lessini alcançando o
norte de Verona e se espalhando para o sul. As longas montanhas cobertas de
vinhedos são repletas de riachos que passam por Verona em busca do rio Adige.
Valpolicella possui uma zona histórica denominada
“Classico”, que se inicia na comuna de Sant’Ambrogio no oeste até Negrar no
leste. As áreas externas à zona “Classico” – Valpantena, Squaranto, Mezzane e
vale de Illasi, todas ao leste, são extensões naturais da zona. Elas faziam
parte da DOC quando criada em 1968, e hoje em dia existem produtores
importantes tanto dentro quanto fora da zona delimitada. Devido à produção em
massa de vinhos de qualidade duvidosa, muitos bebedores de hoje em dia ignoram a região.
Valpolicella, que significa “vale de muitas adegas”,
hospeda uma série de uvas tintas que raramente são encontradas fora da região.
Corvina, uma variedade bastante escura e com casca grossa, é a principal casta
utilizada nos Valpolicella, sendo a espinha dorsal do blend com seus firmes
taninos com notas ricas, defumadas e cerejas vermelhas (existe uma versão de
bagos maiores chamada corvinone, que algumas pessoas pensam ser uma
subvariedade assim como brunello é uma subvariedade da sangiovese).
Outra casta chave é a rondinella, de coloração
profunda e considerada mais aromática que a corvina. Após essas duas, que
representam no mínimo 60 % e frequentemente muito mais, a lista de ingredientes
é muito variada: Existe a Molinara, de elevada acidez e que está desaparecendo
aos poucos; raridades locais como a croatina, negrara, dindarella (normalmente
utilizadas como um “leve tempero”), além das variedades internacionais merlot e
cabernet sauvignon.
ABRUZZO –
● MONTEPULCIANO D´ABRUZZO-
Abruzzo é a quinta região mais produtiva da Itália. Sua produção anual é quase
o dobro da Toscana, mesmo tendo ela quase o dobro da área plantada. Apesar dos
Abruzzesi terem criado uma marca de vinhos engarrafados enquanto seus vizinhos
não, eles mantiveram a cultura de produção em massa. A indústria local é
dominada por cooperativas gigantes, tais como Cantina Tollo, Casal Thaulero,
Casal Bordino, e Citra (o vinho mais utilizado pela companhia aérea Alitalia),
e que representam 80% da produção total da região.
Os vinhos tintos de Abruzzo variam bastante. Na maior
parte das vezes são leves e agradáveis, porém também se encontra vinhos
robustos e difíceis. Isso é comum na uva montepulciano, a casta dominante tanto
aqui quanto em seu vizinho Marche, onde é utilizada no Rosso Conero.
A DOC Montepulciano D’Abruzzo foi estabelecida em 1968
e cobre praticamente toda região. Esforços estão sendo feitos para identificar
áreas superiores para denominações mais específicas.
Generalizando, os melhores montepulcianos são
provenientes do norte de Abruzzo, onde os Apeninos chegam mais próximos ao mar.
Nos pés das montanhas ao redor de Teramo, os solos são mais pobres, uma mistura
de ferro, argila e calcário. Nessa região os vinhedos são mais elevados,
resultando em microclimas mais frios quando comparados aos do sul, na província
de Chieti. A maior parte das cooperativas estão situadas no quente e fértil
extremo sul de Abruzzo, enquanto a maioria das vinícolas pequenas e privadas
ficam bem ao norte, quase na fronteira com Marche. Dos 500 mil hectolitros de
Montepulciano D’Abruzzo produzidos por ano, dois terços são da província de
Chieti.
Em anos recentes duas novas denominações foram criadas
para ajudar a distinguir os montepulcianos do norte dos do sul. Produtores que
procuram uvas da área próxima a Teramo podem utilizar a denominação Colline
Terramane(criada em 1995 e elevada a DOCG em 2003). Aqueles que optarem pela
área bem menor de Controguerra pode utilizar a denominação Montepulciano D’Abruzzo
DOC ou então a Controguerra DOC se preferir.
A uva Montepulciano possui coloração profunda, com
taninos doces naturais e baixa acidez, dando aos vinhos um caráter de fruta
delicado que o torna acessível quando jovem. É um vinho que pode ser bebido
jovem e também com 10 anos de vida. No seu melhor, os vinhos Montepulciano são
púrpura bastante profundos em sua cor e quase xaroposos na textura, com notas
de frutas negras e algum toque terroso.
SICÍLIA –
● NERO D´AVOLA - Assim
como sua vizinha Calábria, o melhor exemplo para explicar a Sicília são os
“latifondo”, o sistema de distribuição de terra e relações agrícolas que domina
o sul da Itália há séculos.
O norte da Itália se caracteriza pela “mezzadria”(
parceria na colheita) onde o camponês ao menos possui algo na terra em que
cultiva. Nas fazendas do sul da Itália a situação é muito mais opressiva.
Particularmente, a Sicília é dominada por um pequeno número de grandes
latifundiários, na maior parte de famílias nobres, onde os camponeses não
passam de simples serventes.
Após a Itália se tornar república em 1946, o novo
governo tentou reverter os efeitos do latifúndio através da reforma agrária nos
anos 50. Diversas propriedades foram desapropriadas e redistribuídas para os
camponeses, fazendo surgiremos Cantinas Sociales (cooperativas). O movimento das Cantinas ganhou força com o
fracasso da reforma agrária (as áreas distribuídas eram muito pequenas, então o
governo incentivou a criação das cooperativas). Essa legião de cooperativas
começou a exportar uma enorme quantidade de vinhos a granel para o norte,
principalmente França, que havia perdido seu suprimento da Argélia com sua
declaração de independência em 1962.
O resultado das cooperativas foi uma enorme quantidade
de dinheiro gasta, uma comunidade de pessoas não-profissionais saindo do
negócio, nenhum empreendedorismo e qualidade inexistente. Além disso há alguns
anos a União Européia cortou os subsídios, então a maioria das cooperativas
estão falidas ou em dificuldades financeiras.
O colapso das cooperativas permitiu o surgimento de
grandes investimentos privados nos vinhedos e nas vinícolas. A Sicília é um dos
poucos lugares na Itália onde existe terra à venda a um preço razoável.
Empresas conhecidas estão comprando grandes áreas na Sicília, tais como o grupo
Zonin do Veneto e o Hardy’s Wine
Conglomerate da Australia.
Hoje em dia estão chamando a Sicília de “Califórnia ”
da Itália. Uma boa safra , em alguns lugares do mundo é um milagre. Na Sicília,
não existe chuva após fevereiro; possui calor intenso e muito sol. Está sempre
ventando e seco, portanto não há problemas com apodrecimento. É possível fazer
bons vinhos todos os anos.
Enquanto a Sicília continua produzindo vinhos brancos
em sua maior parte (estatística ” puxada” pelo Marsala), o real interesse nos
dias de hoje está nos tintos, principalmente da uva Nero D’Avola, que pode ser
vinificada sozinha ou utilizada em blends com merlot, cabernet sauvignon e
principalmente syrah, cuja qual é freqüentemente comparada.
A Nero D’Avola é uma uva de casca fina e suscetível à
podridão, além de ser uma casta de amadurecimento tardio (ela amadurece 20 dias
depois da cabernet).
No sudeste da Sicília a uva frappato (com suas notas
de morangos) é cortada com a Nero D’Avola para produzir os vinhos da
denominação Cerasuolo di Vittoria DOC
É muito difícil apontar precisamente as
características da Nero D’Avola. Genericamente é escura, com aromas de muita
fruta negra e notas de violetas. É encorpado, bem estruturado, taninos firmes.
Muitos degustadores experientes a comparam com a Syrah.
OUTRAS UVAS ITALIANAS
QUE VALE A PENA SEREM CONHECIDAS – Veja a parte II na semana que vem. Existem
tantas variedades tintas na Itália que bem poderíamos escrever um livro sobre
isso!
Uva Nero D´Avola
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